Jesus Cristo indica-nos as oito portas do Reino dos Céus em Mateus 5, 1-12 - explicação pelo padre Manuel João Correia
«Ao ver as multidões, Jesus subiu a montanha: sentou-se, e os seus discípulos aproximaram-se dele. Ele começou a pregar e ensinou-os, dizendo: "Bem-aventurados..."
Após anos de escuta e de luta, estas palavras continuam a surpreender-me e a escapar-me. Ouso, contudo, partilhar convosco algumas reflexões que me ajudam pessoalmente a abordar as bem-aventuranças de Jesus, a que aprendi a chamar «As oito portas do Reino dos Céus».
Porque são porta do Céu?
1. As bem-aventuranças NÃO são a expressão de um sonho de um mundo desejado, idealizado, mas inalcançável; nem uma utopia para sonhadores, uma quimera! Para o cristão, é o critério da vida: ou o aceitamos ou não entraremos no Reino!
2. As bem-aventuranças NÃO são um elogio da pobreza, do sofrimento, da resistência, da passividade... Muito pelo contrário: são um discurso revolucionário! É precisamente por isso que provocam a oposição violenta daqueles que se sentem ameaçados no seu poder, riqueza e estatuto social.
3. As bem-aventuranças NÃO são ópio para os pobres, os que sofrem, os oprimidos, os fracos... porque entorpeceriam a sua consciência da injustiça de que são vítimas, levando-os à resignação. Embora que o tenham sido, muitas vezes no passado. São, pelo contrário, uma adrenalina que estimula o cristão a empenhar-se na luta para eliminar as causas e as raízes da injustiça!
4. As bem-aventuranças NÃO são uma procrastinação da felicidade para a vida futura, no futuro. Elas são uma fonte de felicidade já nesta vida. De facto, a primeira e a oitava Bem-aventurança, que são o enquadramento das outras seis, têm o verbo no tempo presente: "pois delas é o reino dos céus". Deve salientar-se que a expressão "reino dos céus" não significa o futuro, mas uma forma de dizer "reino de Deus". As outras seis bem-aventuranças têm o verbo no futuro, mas são uma promessa que tornam a felicidade já presente hoje, embora em caminho para a sua plenitude. Uma promessa que é a garantia de que o mal, a injustiça, não têm a última palavra. O mundo não pertence e não pertencerá aos ricos e poderosos!
5. As bem-aventuranças NÃO são (apenas) pessoais. É a comunidade cristã, a Igreja que deve ser pobre, misericordiosa, capaz de chorar com aqueles que choram, com os sedentos de justiça... capaz de dar testemunho do Evangelho!
6. As bem-aventuranças SÃO um grito, uma proclamação de felicidade, um evangelho dirigido a todos (às multidões que seguem Jesus). Abençoado pode ser traduzido como feliz, parabéns, felicito-vos.... E nada nos pode tirar esta felicidade, se formos habitados por Deus (cf. Romanos 8:37-39). As bem-aventuranças são válidas em todas as situações e a todos os níveis. Mas demo-nos conta que esta mensagem que professamos e proclamamos está em completa contradição com a mentalidade que reina no mundo em que vivemos. Portanto, não devemos ficar tão surpreendidos com deserções.
7. As bem-aventuranças SÃO... uma! As oito são variações de uma única realidade. Mas cada uma delas ilumina as outras. Os comentadores consideram geralmente a primeira como sendo a fundamental: "Abençoados são os pobres em espírito, pois deles é o reino dos céus". Todas as outras são, de alguma forma, diferentes formas de pobreza. Sempre que se faz uma tentativa, na Bíblia, para renovar a Aliança, esta começa de novo, restabelecendo o direito dos pobres e excluídos. Sem isto, o a Aliança não é renovada!
Podemos perguntar porque não aparece nenhuma bem-aventurança sobre o amor. Mas, na realidade, todas elas são explicitações concretas de amor!
8. As bem-aventuranças SÃO o espelho, o auto-retrato de Cristo. Para as compreender, para compreender as suas nuances, é preciso olhar para Jesus para ver como cada uma delas foi realizado na sua pessoa.
9. As bem-aventuranças SÃO a chave para entrar no Reino de Deus, para todos, cristãos e não-cristãos, crentes e não-crentes. Neste sentido, as Bem-aventuranças não são "cristãs". Eles definem quem pode realmente entrar no Reino. Todos são chamados às bem-aventuranças! É também isto que Mateus 25 nos diz sobre o Juízo Final.
10. As bem-aventuranças SÃO oito categorias de pessoas, oito portas de entrada para o Reino. Não há outras entradas! Quem quiser entrar no Reino terá de se identificar com pelo menos uma destas oito categorias... Qual delas é a minha? Aquela para a qual me sinto particularmente atraído? Aquela que eu sinto é a minha vocação, por natureza e graça?
Padre Manuel João, missionário comboniano do Coração de Jesus, em Comboni.org
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