O discurso na íntegra do Papa Leão XIV é uma bela e inspirada catequese sobre o ser reis/pastores/servidores de cada batizado. Vale muito a pena ler aqui
Ao comemorarmos o 160º aniversário do seu nascimento, damos graças ao Senhor pela figura do servo de Deus Rafael Merry del Val, que nasceu em Londres em 1865, num ambiente em que a abertura ao mundo era quotidiana: filho de pai diplomata espanhol e mãe inglesa, teve uma infância cosmopolita que o habituou desde cedo a diversas línguas e culturas. Cresceu respirando a universalidade, que mais tarde saberia reconhecer como vocação da Igreja, e essa formação preparou-o como instrumento dócil ao serviço diplomático da Santa Sé numa época marcada por grandes desafios.
Muito jovem, foi chamado ao serviço de Leão XIII para tratar de questões delicadas. Pouco depois, foi enviado como Delegado Apostólico ao Canadá, onde trabalhou pela unidade da Igreja e pela educação católica. Foi aluno da atual Pontifícia Academia Eclesiástica, instituição que mais tarde viria a presidir e que hoje, ao completar 325 anos de História, recorda a sua longa tradição de formar corações ao serviço fiel e generoso da Sé Apostólica. Lá, ele compreendeu — e transmitiu com o seu exemplo — que a diplomacia da Igreja floresce quando se vive na fidelidade sacerdotal, a de um coração que oferece os seus talentos a Cristo e à missão confiada ao Sucessor de Pedro (cf. 1 Cor 4, 1-2: «Considerem-nos, pois, servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Ora, o que se requer dos administradores é que sejam fiéis.»).
Tinha apenas 35 anos quando foi nomeado arcebispo titular de Nicéia e, poucos anos depois, em 1903, com apenas 38 anos, São Pio X o nomeou cardeal e o escolheu como seu Secretário de Estado. A sua juventude, porém, não foi um obstáculo, porque a História da Igreja ensina que a verdadeira maturidade não depende dos anos, mas da identificação com a medida da plenitude de Cristo (cf. Ef 4, 13). O que se seguiu foi um caminho de fidelidade, discrição e entrega que o tornou uma das figuras mais significativas da diplomacia pontifícia do século XX.
Mas ele não foi apenas um diplomata de escritório: em Roma, ele estava muito presente entre as crianças e os jovens de Trastevere, a quem catequizava, confessava e acompanhava com carinho. Lá, ele era reconhecido como um sacerdote próximo, pai e amigo. Essa dupla dimensão — a do diplomata do governo e a do pastor próximo — é que confere à sua figura uma riqueza particular, pois soube unir o serviço à Igreja universal com a atenção concreta aos mais pequenos (cf. 1 Pd 5, 2-3: «Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, governando-o não à força, mas de boa vontade, tal como Deus quer; não por um mesquinho espírito de lucro, mas com zelo; não com um poder autoritário sobre a herança do Senhor, mas como modelos do rebanho»).
O seu nome ficou associado a uma oração que muitos conhecemos, as Ladainhas da Humildade (para conhecer, aceder a Ladaínhas da Humildade, oração composta pelo cardeal Rafael Merry del Val, em processo de canonização). Nelas transparece o espírito com que realizou o seu serviço. Permitam-me deter-me em algumas delas, porque nelas se desenha um modelo válido para todos aqueles que exercem responsabilidades na Igreja e no mundo, e de modo especial para os diplomatas da Santa Sé.
«Do desejo de ser louvado... livra-me, Jesus!»: O desejo de reconhecimento é uma tentação constante para quem ocupa cargos de responsabilidade. O cardeal Merry del Val conheceu-o de perto, pois as suas nomeações colocaram-no no centro das atenções mundiais. E, no entanto, no fundo da sua oração, pedia para ser libertado dos aplausos. Ele sabia que o único triunfo verdadeiro é poder dizer todos os dias: «Senhor, estou onde Tu queres, fazendo o que Tu me confias, hoje». Essa fidelidade silenciosa, invisível aos olhos do mundo, é que permanece e dá frutos (ver Mateus 6).
«Do desejo de ser consultado... livra-me, Jesus!»: Foi próximo de Bento XV e Leão XIII, bem como colaborador direto de São Pio X. Poderia ter-se considerado indispensável, mas indicou-nos qual é o lugar do diplomata: procurar que a vontade de Deus se cumpra através do ministério de Pedro, para além dos interesses pessoais (cf. Flp 2,4). Quem serve na Igreja não procura que a sua voz prevaleça, mas que a verdade de Cristo seja a que fala. E nessa renúncia descobriu a liberdade do autêntico servo (cf. Mt 20, 26-27: «Entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo»).
«Do medo de ser humilhado... livra-me, Jesus!»: Após a morte de São Pio X, recebeu outras incumbências, mas esforçou-se por continuar a servir com a mesma fidelidade, com a serenidade de quem sabe que todo o serviço na Igreja é valioso quando se vive por Cristo. Desta forma, mostrou que a sua tarefa não era um pedestal, mas um caminho de entrega. A verdadeira autoridade não se baseia em cargos ou títulos, mas na liberdade de servir mesmo longe dos holofotes (cf. Mt 23,11). E quem não tem medo de perder visibilidade, ganha disponibilidade para Deus.
«Do desejo de ser aceite... livra-me, Jesus!»: Tentou viver a sua missão com fidelidade ao Evangelho e liberdade de espírito, sem se deixar guiar pelo desejo de agradar, mas pela verdade sempre sustentada pela caridade. E compreendeu que a fecundidade da vida cristã não depende da aprovação humana, mas da perseverança de quem, unido a Cristo como o ramo à videira, dá fruto a seu tempo (cf. Jo 15, 5).
Bastam duas frases para resumir a sua existência. O seu lema episcopal, que a Escritura coloca nos lábios de Abraão (cf. Gn 14, 21), era «Da mihi animas, cetera tolle», ou seja, «Dá-me almas, tira-me o resto». Pediu no seu testamento que fosse a única inscrição no seu túmulo, que hoje se encontra nas criptas de São Pedro. Sob a cúpula que guarda a memória do apóstolo, ele quis reduzir o seu nome a essa súplica nua e crua: «Dá-me almas, tira-me o resto». Sem honras, sem títulos, sem biografia; apenas o grito de um coração de pastor.
A segunda frase é a súplica conclusiva das Letanias: «Que os outros sejam mais santos do que eu, desde que eu seja tão santo quanto puder». Aqui se destaca um tesouro da vida cristã: a santidade não se mede pela comparação, mas pela comunhão. O cardeal compreendeu que devemos trabalhar pela nossa própria santidade enquanto impulsionamos a dos outros, caminhando juntos em direção a Cristo (cf. 1 Ts 3, 12-13: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós para convosco; 13que Ele confirme os vossos corações irrepreensíveis na santidade diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de Nosso Senhor Jesus com todos os seus santos»). Essa é a lógica do Evangelho e deve ser a da diplomacia pontifícia: a unidade e a comunhão, sabendo que cada um é chamado a ser o mais santo possível.
Queridos filhos da família Merry del Val, que a memória deste membro da vossa família, verdadeiro diplomata do encontro, seja motivo de profunda gratidão e, para todos nós, uma inspiração, especialmente para aqueles que colaboram com o Sucessor de Pedro na diplomacia.
Que a Virgem Maria, a quem Rafael Merry del Val amava com ternura filial, ensine às nossas famílias, aos diplomatas da Santa Sé e a todos aqueles que exercem um serviço na Igreja, a unir verdade e caridade, prudência e audácia, serviço e humildade, de modo que em tudo resplandeça somente Cristo. Muito obrigado.
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