Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc
17, 5-6): «Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé.”.
O Senhor respondeu: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta
amoreira: ‘Arranca-te daí e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia.”»
A fé não tem tamanho
A resposta de Jesus ao pedido dos discípulos volta a
perturbar as nossas ideias. A fé, ele diz, não é algo que depende do seu
«tamanho». Não é uma questão de ter mais ou menos fé. Basta uma fé minúscula —
como um grão de mostarda — para nos mobilizar e fazer coisas que nunca seríamos
capazes de fazer contando apenas com as nossas forças humanas. Certamente todos
nós poderíamos partilhar alguma experiência disso.
E, de facto, Jesus não se refere apenas ao tamanho da semente, mas, e sobretudo, às suas potencialidades.
A fé não se pesa nem se mede
Como disse Bento XVI, a fé é uma resposta de confiança livre
à iniciativa amorosa de Deus. Não é um mero assentimento intelectual, mas um
«sim» pessoal e transformador a um «Tu» divino que traz esperança e plenitude.
A fé, como uma semente depositada por Deus no nosso interior, cresce a partir
de dentro, nesse caminho interior forjado nos encontros pessoais com Ele, onde
nos abrimos ao seu amor e onde, da nossa parte, depositamos n'Ele a nossa
confiança absoluta. Hoje recebemos de Jesus esse convite. Que passo de
confiança devo dar na minha vida? Onde ou em que posso exercer essa confiança
livre em Deus?
Quem tem fé age por força dela, não em vista de alcançar méritos
Na segunda parte do evangelho, encontramos a pequena
parábola do servo conhecido como «inútil»... Não é uma expressão que nos agrade
nesta época. Mas, se a transcendermos, podemos encontrar o seu sentido. Jesus
dirige-se a pessoas habituadas a viver uma espiritualidade do mérito. Mais uma
vez, buscando «seguranças». E, no seu discurso, ele reforça a mesma ideia
anterior de outra forma: a fé é um encontro pessoal com um Deus que nos ama
infinita e bondosamente. E fazer a sua vontade, servir no seu Reino, participar
do seu projeto deve ser a resposta confiante que brota dessa experiência de
amor.
Se pensamos que fazer algo (ir à missa, rezar, fazer
voluntariado, dar esmola, etc., etc.) nos garante um bom lugar ao lado do
Senhor, talvez tenhamos de ler várias vezes este evangelho. A melhor
«recompensa» e «segurança» já nos foi dada desde o início: Deus, que nos ama,
nos convida e conta connosco no seu Reino. Então, que a fé cresça em nós, sim,
mas porque damos passos confiantes e generosos em resposta a tanto amor!
«Vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado,
dizei: ‘Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer’.» (Lc 17, 10)
A mini parábola do servo simples e inútil não quer dizer que
devemos sentir-nos servos e muito menos inúteis, mas adverte-nos que a relação
com Deus como se fôssemos escravos nos desumaniza. É uma crítica à relação do
povo judeu com Deus, que se baseava no cumprimento estrito da Lei que, segundo
eles, salvava.
Fray Marcos, em Fé Adulta
Esta passagem do Evangelho levou-nos a uma humildade muitas vezes falsa, que encontra a sua fórmula na expressão SOMOS SERVIÇOS INÚTEIS.
Talvez devesse ter sido dito: somos pessoas dignas, embora fracas, tentaremos fazer as coisas da melhor maneira possível.
Fujamos das falsas humildades que, às vezes, escondem outras coisas.
É possível construir uma fé autêntica e livre. Como viver hoje uma fé livre?
· Ter cuidado com uma fé feita de rotinas: se a rotina religiosa é o seu principal valor, tenha cuidado, porque pode acabar por fazer da rotina a condição central da sua fé.
· Ter cuidado com uma fé que se apoia nas normas: se recorre sempre às normas quando há um conflito e não ao evangelho, a sua fé está em perigo, porque a norma pode devorar o evangelho.
· Ter cuidado com uma fé que tem como perspetiva principal o pecado: se não se libertou da opressão do pecado e não provou a felicidade que Jesus propõe, a sua fé corre o risco de viver sempre no túnel escuro da culpa.
O Papa Leão, na sua primeira homilia, lamentava a perda da fé que acarreta a perda de valores, dignidade e solidariedade. Isto é verdade sempre que essa fé não é nova e libertadora. Libertar-se de uma fé rotineira e empobrecida é uma libertação. A fé é como a vida: deve ser nova a cada dia, livre de qualquer jugo que a oprima. Com Jesus, isso é possível.
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