Três autores partilham três parábolas da atualidade acerca da bondade que permanece

1 - «Deus está nos 100 % que se importam»
Há quem diga que é preciso ter coragem para enfrentar os desafios da vida. É verdade. Mas às vezes, a verdadeira coragem é… ficar calado. Sim, calado. Porque contar os nossos problemas aos outros pode ser como lançar confetes ao vento: faz barulho, suja tudo e, no fim, ninguém quer varrer.

Pedem-se heróis com determinação — mas daqueles discretos, que vão à luta sem anúncios, sem conferências de imprensa e sem publicar nas redes sociais: “A sofrer, mas com estilo.”

Porque, sejamos sinceros:
 • 90% das pessoas não quer saber dos teus problemas.
 • Os outros 10%… até ficam contentes por saber que não são os únicos a ter uma vida complicada.

Portanto, aquela esperança de apoio moral, palavras de conforto ou um ombro amigo… é bonita, mas raramente aparece. E quando aparece, às vezes é só para ver mais de perto o desastre.
É duro? É. Mas liberta.

Porque, no fim, percebes:
 • Ficas mais leve quando paras de esperar compreensão de quem não te pode (ou não quer) compreender.
 • Ganhas força quando o teu coração é discreto e a tua alma é silenciosa.
 • E, sobretudo, descobres que Deus ouve tudo aquilo que os outros não têm paciência para escutar.

Segue com coragem, caminha com determinação… e não faças dos teus problemas um festival público.

Guarda para ti, guarda para Deus — Ele é dos poucos que não está nos 90%, nem nos 10%. Está nos 100% que se importam.
Presbítero António Martins, da diocese da Guarda, em Facebook
 
2 - «Inscrevi-me na Universidade do Amor»
Saí de casa sem destino certo, apenas com a vontade de respirar a cidade. O frio da manhã misturava-se com o rumor das ruas, e eu deixei-me ir. Comprei o jornal, entrei num café e pedi a minha bica do costume — esse pequeno ritual que, por instantes, me ancora à vida. Folheei as páginas, uma após outra, mas nenhuma palavra me tocava. As notícias falavam de dor, de guerra, de gente perdida… e, no entanto, tudo me parecia distante, como se o sofrimento alheio fosse apenas tinta num papel.

Foi então que me atravessou um pensamento cortante, quase como um espelho a partir-se por dentro: estava a tornar-me num monstro — alguém que olha e não vê, que lê e não sente, que passa ao lado da dor sem se deter. E nesse instante percebi que a pior morte não é a do corpo, mas a do coração quando deixa de se comover.

Naquele momento quis gritar. Quis dizer a todos que tinha descoberto o que me estava a faltar: compaixão. Quis dizer-lhes que a indiferença é o pior veneno da alma, e que quem deixa de amar torna-se mais pobre que o cão do rico avarento, que ao menos lambia as chagas do pobre Lázaro.

Ali assinei, dentro de mim, a matrícula na Universidade do Amor.
A joia de entrada? Descobrir que sou capaz de amar.
A duração do curso? A vida inteira.
As aulas? Dadas pelo Mestre, que nunca perdeu nenhum jogo — mesmo quando o mundo pensou que Ele tinha sido derrotado.

Desde então, tento aprender. Tento amar com mais consciência, com mais verdade, com menos medo. Tento sentir a dor do outro sem fugir dela. Tento olhar para cada pessoa como um espelho de mim mesmo.

Porque a vida é feita de muitos jogos, e só vence quem joga com o coração aberto.

E no final, não seremos avaliados pelo que acumulámos, mas pelo quanto amámos.

Hoje, convido-te também: matricula-te outra vez na Universidade do Amor. Ainda há lugar. E o Professor espera-te, pacientemente, há muito tempo.
Pesbítero João Torres, da diocese de Braga, em Facebook
 
3 - A Bondade que permanece
Conta uma lenda que um homem subiu as grandes montanhas da Europa em busca de um sábio que vivia nas cavernas. Ao encontrá-lo, perguntou-lhe: «O que é a bondade?»

O sábio respondeu com uma história:
«Quando era criança, o meu avô contou-me a história de um homem que vivia numa vila costeira. Todas as manhãs, sem falta, recolhia com as suas pequenas mãos as conchas partidas da praia. Ninguém entendia porque o fazia. “São lixo”, diziam. Mas ele insistia em limpá-las e devolvê-las ao mar. “O mar também merece beleza”, respondia.

Passaram os anos, e aquele homem morreu sem que muitos notassem a sua ausência. Mas algum tempo depois, quando uma tempestade arrasou a vila, foi aquela mesma zona — a que ele cuidou durante décadas — a única que resistiu. As conchas, endurecidas pelo sol e pelo sal, tinham-se tornado parte de uma barreira natural que protegeu a costa.»

Ser bom assemelha-se muito a isso. Ninguém o aplaude. Parece tolo. Parece inútil. Mas, no final, é o único que deixa alicerces invisíveis onde tudo o resto se desmorona. Ser bom custa. Ridicularizam-te, usam-te, subestimam-te. Mas também te liberta. Porque a bondade é o único valor que não depende dos outros: nasce em ti e eleva-te. Num mundo de máscaras, ser bom é voltar a ser humano.

Talvez nunca apareças numa manchete. Talvez ninguém repare. Mas cada ato de bondade que fazes, cada verdade que sustentas, cada compaixão que ofereces, constrói uma barreira contra o desespero.»
 Saúl Marrero, em Pastoral SJ

Nota: As conchas marinhas desempenham um papel importante na proteção costeira, ajudando a estabilizar a areia, formando barreiras naturais contra o impacto das ondas e evitando a erosão das praias. Essa proteção natural torna-se vital para preservar o equilíbrio dos ecossistemas costeiros e para proteger as zonas habitadas próximas do mar.

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