Uma parábola sobre como rezar - «Dois gémeos apresentam-se a Deus: um considera-se justo e despreza os outros; outro reconhece as suas limitações, mas despereza-se a si mesmo»
Antes, com a parábola do juiz corrupto e da viúva pobre, Ele nos falou sobre QUANDO rezar: sempre, sem nunca desanimar.
Agora, fala-nos sobre COMO rezar. E fá-lo com outra parábola, bem conhecida por nós: a do fariseu e do publicano.
Curiosamente, a figura do juiz volta a aparecer no pano de fundo das leituras deste domingo. Talvez porque ainda não conseguimos nos libertar da imagem de um Deus Juiz — que nos justifica quando somos bons e nos condena quando somos maus?
O fariseu e o publicano
O evangelista introduz o trecho do Evangelho explicitando a intenção de Jesus: esta parábola era “para alguns que confiavam em si mesmos, julgando-se justos, e desprezavam os outros.”
“Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro, publicano...”
Jesus, ao apresentá-los, já delineia bem as duas personagens. O fariseu pertencia a um grupo religioso leigo (ativo do século II a.C. até ao século I d.C.). Etimologicamente, fariseu significa “separado”. Buscando observar integralmente a Lei de Moisés, os fariseus separavam-se dos outros para não se contaminarem. Eram os “puros”, muito respeitados pelo povo por sua piedade e conhecimento da Lei.
O publicano, por sua vez, era um cobrador de impostos (do latim publicanus, derivado de publicum, que significa “tesouro do Estado”). Os publicanos eram considerados pecadores e impuros. Eram odiados e desprezados pelo povo, pois colaboravam com os invasores romanos e exploravam os pobres.
Ambos “sobem” ao Templo para orar e colocam diante de Deus aquilo que realmente são — porque a Deus não se pode mentir. O fariseu faz uma oração de agradecimento. Diante do espelho da Lei, ele vê-se justo, irrepreensível, e compraz-se consigo mesmo. Não é como os outros. Olha ao redor e vê apenas ladrões, injustos e adúlteros. Enche o peito e apresenta a Deus o relatório das suas boas obras, como a um contador. Sente-se em dia com as contas — aliás, com créditos acumulados para o Paraíso. Hoje diríamos: é o cristão perfeito, irrepreensível, com o céu garantido.
O publicano, porém, fica ao fundo. Não ousa aproximar-se do Santo. O peso dos seus pecados faz baixar a sua cabeça. Sabe que é um pecador endurecido. Só consegue dizer: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador”, batendo no peito.
Jesus conclui a parábola afirmando com autoridade: “Eu vos digo: este [o publicano que implorou misericórdia], e não o outro [o fariseu que se considerava perfeito], voltou para casa justificado, porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”
Qual dos dois me representa?
Confesso: eu gostaria de ser como o fariseu
Hoje todos olham com maus olhos o fariseu e batem no peito como o publicano. Tenho pena do pobre fariseu. Confesso: eu invejo esse fariseu! Gostaria de ser como ele — um fiel observante de toda a Lei! Perfeito, irrepreensível! Passei a vida tentando imitá-lo, mas nunca consegui! No fundo, também gostaria de me comprazer, como ele, da minha vida.
Parece-me que Jesus foi um pouco severo com o fariseu, deixando-o em má posição. E, afinal, a sua oração começou bem: com um agradecimento. Sim, depois ele se distraiu — olhou para trás (quem não faz isso, não é?) — e, ao ver o publicano, não conseguiu conter o seu desprezo por aquele colaboracionista, escorregando no julgamento! Que pena!
A tentação de imitar o publicano
Como não consegui ser como o fariseu, só me resta bater no peito e repetir a oração do publicano: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador.”
Mas pergunto-me se interiorizei de facto a atitude do pecador arrependido. No fundo, ele era publicamente um pecador — sem saída. Eu, porém, sou padre, e teoricamente deveria ser de exemplo. Não é tão simples rezar com a mesma convicção do publicano e confiar apenas na misericórdia de Deus. No próprio ato de me declarar pecador, percebo a tendência de me colocar um degrau acima dos outros pecadores. Pecador, sim, mas... sem exageros!
Dois gémeos no ventre do coração
Afinal, pergunto-me: quem sou eu realmente — o fariseu que eu gostaria de ser ou o publicano que não gostaria de ser? Ai de mim, acho que levo ambos dentro do coração, como dois gémeos! Como podem coexistir? No fim, terão de aprender a conviver.
Ao meu fariseu, digo constantemente para não buscar a autossatisfação, mas sim agradar ao Pai. Ao meu publicano, repito sem cessar que Deus o ama como ele é. Não precisa merecer o amor do Pai. É gratuito! Na verdade, é justamente a minha pobreza e fraqueza que atraem as atenções preferenciais de Jesus — que veio para os publicanos e pecadores.
Conseguirei educar os dois? Não sei. Mas tento. Uma coisa sei: só quando os dois se tornarem um, poderei entrar no Reino dos Céus!
Para a reflexão pessoal
Meditar sobre alguns versículos da primeira e da segunda leitura.
Na primeira, o Eclesiástico (35,15-22) convida-nos a rezar como o pobre: “A oração do pobre atravessa as nuvens e não descansa até chegar; não desiste enquanto o Altíssimo não intervier, fazendo justiça aos justos e restabelecendo a equidade.”
Na segunda, Paulo — cansado, velho e preso — despede-se do seu jovem discípulo Timóteo, com palavras comovedoras, confiando-se à justiça de Deus:
“Quanto a mim, já estou a ser oferecido em libação, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, terminei a corrida, conservei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia.” (2Tm 4,6-8.16-18).
Que também nós possamos dizê-lo ao final da nossa vida!
Presbítero Manuel João Pereira Correia (p.mjoao@gmail.com),
missionários comboniano do Coração de Jesus,
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