Explicação da atitude de Jesus durante a purificação do Templo de Jerusalém

Há um momento no Evangelho em que toda a gentileza se consome, em que a misericórdia assume a forma de uma tempestade e o rosto de Deus é um clarão de angústia e pureza. A purificação do Templo não é o ato de um mestre moral, mas de um Criador ferido, que veio recuperar a Sua casa profanada. O ar treme com fúria e dor. As moedas tilintam como mandamentos quebrados no chão de pedra. Esta não é uma cena de reforma, mas o apocalipse do amor, a hora em que a ternura se torna um chicote.

Ele encontra a casa do Seu Pai desfigurada. O lugar destinado à oração está repleto do comércio do medo. Os pombos agitam-se nas gaiolas, os bois batem os cascos, o tilintar das moedas eclipsa o som da adoração. O que era para ser comunhão degenerou em cálculo. E Cristo — humano, sofredor, Divino — sente todo o peso da traição. O sagrado reduzido a hábito, a graça reduzida a transação. O chicote nas Suas mãos não é tanto ira, mas sim desgosto entrelaçado em cordas.

Ele os expulsa não porque os odeia, mas porque não suporta ver no que o amor se tornou. No estrondo das mesas e gaiolas a cair, na chuva de prata sobre as pedras, a velha ordem morre. O comércio do Templo é a imagem da alma humana: construído para a adoração, dominado pela barganha. Cada oração oferecida por lucro, cada ato de virtude ponderado em relação à recompensa, cada tentativa de comprar santidade — tudo isso treme sob o Seu olhar. E ainda assim Ele ama. Ele ama o suficiente para destruir.

Quando Ele diz: «Destruam este templo e, em três dias, eu o reconstruirei.»eles ouvem ameaças, não promessas. Eles veem pedra, não carne. Mas o que Ele quer dizer é insuportável e belo: Eu sou o novo Templo. Eu sou o ponto de encontro entre Deus e o pó da tua humanidade. Eu serei derrubado e reconstruído. E tu também.

A Encarnação é o escândalo final. Deus mudou a Sua morada para o corpo. O Santo dos Santos agora bate sob as costelas. A Presença que antes preenchia o santuário agora preenche cada célula da criação. Mas para que essa Presença habite, os átrios internos devem ser purificados. O chicote deve entrar.

Pois nós também somos templos invadidos por mercadores. A nossa fé negocia com o controlo. As nossas orações negociam com o medo. As nossas almas, que deveriam ser altares, tornaram-se mercados onde trocamos fragmentos de santidade pela ilusão de segurança. Quando o Cristo de fogo entra, Ele vira as mesas da nossa piedade, espalha as moedas do orgulho e expulsa o gado do hábito que pisoteia a quietude da alma.

Parece uma perda, porque é mesmo. O falso deve morrer antes que o verdadeiro possa viver.

«Destruir este templo» é consentir nessa perda. É dizer sim à ruína que precede a ressurreição. Os três dias não são tempo, mas transformação — a descida à noite escura, o silêncio do túmulo e o surgimento do novo eu das ruínas. Somente quando tudo desmorona... toda identidade, toda defesa... Deus pode erguer o templo que não é feito por mãos humanas.

Os sacerdotes tremiam porque viam o seu sistema a chegar ao fim, mas o maior terror é o nosso. Uma coisa é oferecer sacrifícios. Outra coisa completamente diferente é tornar-se um sacrifício. É mais fácil adorar um Deus distante do que carregá-Lo dentro de si. É mais fácil beijar o altar do que perceber que o seu próprio coração está a arder nele.

Os místicos cristãos dizem-nos que o chicote é o amor disfarçado. O amor que fere para curar, que despoja para vestir. Deus entra na alma não como conforto, mas como invasão. Ele derruba o que construímos em Seu nome, mas contra Sua natureza. Ele derruba não apenas o nosso pecado, mas a nossa falsa santidade, as nossas imagens organizadas Dele. Quando as moedas da certeza rolam em silêncio, quando os pátios internos ficam nus e trêmulos, algo surpreendente acontece: o vento do Espírito move-se através do vazio, e descobrimos que a ruína é radiante.

A purificação do Templo não é história, é agora. Acontece sempre que a Presença divina desce às salas desordenadas do coração e exige tudo. Sempre que a graça se recusa a ser merecida. Sempre que o amor se torna intolerável na sua pureza. O chicote de cordas ainda se move pelo mundo, por nós, pela arquitetura trémula de cada alma que ousa amar Deus sem condições.

E então surge a pergunta, sussurrada entre mesas viradas e pratos espalhados: vamos deixá-Lo entrar? Vamos deixá-Lo entrar com a violência da misericórdia, a ruína da graça? Pois o zelo que O consumiu também nos consumirá. Mas nesse fogo, após a fumaça e o silêncio, algo surge. O templo reconstruído, o coração transfigurado, o mundo inteiro brilhando mais uma vez como a morada de Deus.

Steve Herrmann, em The Apocalypse of Love.
Tradução: Pedro Martins

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