O sacerdote de origem salmantina (relativo a Salamanca, Espanha) que preparou o caminho de Leão XIV no Peru
Robert Prevost, atualmente Papa Leão XIV em Lambayeque, diocese de Chiclayo, o mesmo lugar onde foi pároco Gaspar Gil Tornero
Recebi esta notícia de Gil de Castritius, neta de um padre: «Eu sou neta de um padre com muita honra. O meu pai foi o
segundo dos oito filhos que teve o sacerdote Dr. Gaspar Gil Tornero com a minha
avó dona Zoila Aguilar Allende, de Plasencia, Cáceres, Espanha.»
Notícia publicada em La Gaceta de Salamanca, por José Á. Montero
Gaspar Gil Tornero com profundas raízes salmantina (os seus
avós eram de Puerto de Béjar e La Alberca, Salamanca) exerceu grande parte de
seu trabalho pastoral no Peru, país andino, onde se casou e teve oito filhos,
embora nunca tenha pendurado a estola.
Prestes a completar 150 anos do seu nascimento e 70 da sua
morte, a figura do sacerdote de origem salmantina, embora natural de Plasencia,
Gaspar Gil Tornero (1878-1957) ganha grande atualidade e protagonismo neste
momento. E não é para menos. Estamos diante de uma das figuras da primeira
metade do século XX que fez do seu magistério um trabalho de entrega e
dedicação aos outros desde a sua condição de sacerdote secular, mas também como
pai de família.
Ele nunca chegou a pendurar a batina, a estola e a casula,
mas no seu dia a dia não poupou esforços nem compromisso para buscar o bem-estar
dos membros da suas paróquias, especialmente em terras peruanas, onde exerceu
como presbítero em diferentes e recônditas localidades do departamento de
Lambayeque, caminhos empoeirados que, anos depois, percorreu o agostiniano
Robert Prevost, hoje Papa Leão XIV, na sua condição de missionário e depois
como bispo.
«Gaspar Gil é um daqueles párocos que, como Leão XIV,
exerceram com abnegação o seu ministério sacerdotal», assinala sua neta Cecília
Gil de Castritius (residente na Alemanha), consciente de que esta circunstância
merecia uma homenagem a este pároco (e a outros como ele) de origem salmantina que
preparou o caminho para que duas décadas depois de sua morte, o agora Papa Leão
XIV exercesse seu trabalho missionário nessas mesmas terras peruanas (Piura,
Chulucanas, Trujillo e Chiclayo) entre os anos 1982 e 2023.
Filho de Rufino Gil e Juana Tornero, e neto de Cornelio Gil,
natural de Puerto de Béjar, e Tecla Maíllo, nascida em La Alberca, o pequeno
Gaspar veio ao mundo em 1878 em Plasencia, localidade onde os seus pais se
estabeleceram. Desde muito pequeno, ele sentiu uma clara vocação para o
sacerdócio, tanto que terminou seus estudos no Seminário de Plasencia com
excelente. Com a idade para exercer o ministério pastoral, percorreu diferentes
paróquias de Plasencia antes de chegar à localidade de Valverde de Valdelacasa,
último destino em terras espanholas. Em 1916, com 27 anos, cruza o oceano para as
Américas. É enviado para a paróquia de Huarmey em Ancash, no Peru, para
evangelizar e exercer o trabalho pastoral.
CHEGA AO PERU EM 1916
«No dia 21 de janeiro chega ao porto de El Callado, depois
de mais de um mês de travessia em alto mar», anota a sua neta Cecilia Gil. De
lá, ele passou para Huarmey, onde permaneceu cinco anos, antes de ser nomeado
pároco e capelão de várias paróquias, aldeias e fazendas de Santa. «Nas
localidades de Santa, Nepeña e Chimbote receberam o meu avô com bombos e
pratos», destaca sua neta, que não esconde o problema que teve em Nepeña com o presidente
do município e seus irmãos, que quiseram apoderar-se da casa paroquial e dos
terrenos vizinhos. «Mas o meu avô defendeu a casa com unhas e dentes e um
revólver que levava ao cinto, do qual, graças a Deus, só dava salvas ao ar, e
que guardava debaixo da casula em cada celebração de missa», comenta Celia Gil.
Apenas três anos após seu desembarque no Peru, Gaspar Gil
Tornero forma uma família com uma chiclayana, com a qual teve oito filhos e 21
netos, segundo conta Cecilia Gil, consciente de que o seu avô pensou em
pendurar a batina e se dedicar à agricultura nas terras que adquiriu em Santa.
Mas enquanto esperava a dispensa do Vaticano para pendurar os hábitos e
casar-se formalmente, veio o fenómeno de «El Niño» em 1925, com um efeito
terrível já que arruinou todas as plantações. «O bispo de Huaraz convenceu o meu
avô que a destruição dos campos de cultivo era como um sinal para ele continuar
a servir a sua paróquia, que precisavam dele mais do que nunca após tamanha
catástrofe natural. O meu avô, de sangue albercano (relativo a La Alberca),
de nobre coração e sentido do dever, continuou a cumprir o seu ministério
sacerdotal e a ajudar os seus paroquianos», destaca a sua neta, que ressalta o
esforço e a dedicação de seu avô no seu trabalho pastoral: «Cavalgava grandes
distâncias numa mesma manhã de uma igreja a outra, sobretudo aos domingos, para
oficiar missa em todas as paróquias a seu cargo».
DUPLA NACIONALIDADE, COMO O ATUAL PAPA
Em 1929 é transferido para Pacasmayo (Trujillo), a 823 quilómetros,
depois que as brigas e o ataque do líder da autarquia de Nepeña foram
reavivados. «Este novo destino foi considerado pelo meu avô como o paraíso»,
anota Cecilia Gil, cujo presidente da câmara lhe ofereceu nacionalizar-se
peruano e ele aceitou. Após cinco anos de felicidade, ele é transferido para o
departamento de Lambayeque, para as paróquias de Salas, Penachi, Incahuasi,
Cañaris, Mórrope e Mochumí, entre outras. «Eram lugares recônditos,
extremamente distantes, aos quais chegava a lombo de mula, com populações
claramente indígenas, às quais aconselhava sobre leis», destaca a sua neta, que
reconhece que o seu avô «era muito querido» em todos esses povos.
Gaspar Gil Tornero se aposentou em 1954, mas continuou a celebrar
missa todos os dias em Chiclayo, onde morava com a família. Morreu em março de
1957 no hospital de «Las Mercedes» de Chiclayo, localidade onde repousam os seus
restos mortais.
«Não chegou a bispo por ter família», nota a sua neta, que
destaca que o novo Papa Leão XIV tenha percorrido os mesmos lugares que duas
décadas antes percorreu o seu avô e «que tenha ajudado os descendentes dos
paroquianos a quem o meu avô acompanhou e ajudou no seu tempo nestes lugares
remotos para onde missionários espanhóis levaram a fé e a religião», conclui
Celia Gil de Castritius.
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