«Uma espiritualidade profunda e verdadeira não nos leva a banalizar a morte nem a transformar os defuntos em monstros aterradores»

Aqueles de nós que puderam acompanhar a morte de um ente querido — no meu caso, o meu pai, a minha mãe e mais do que um amigo — foram presenteados com algo único. Testemunhar o nascimento e testemunhar a morte, acredito, são duas experiências que nos reconciliam com a vida. Acompanhar a morte de um ente querido, por mais doloroso que seja, apresenta-nos um Mistério insondável que nos toca o âmago e nos deixa com uma marca de amor, paz e sabedoria.

E isso não é assustador. Cria um anseio interior, gera esperança, e a esperança impele-nos a viver plenamente o aqui e o agora, em tudo o que a vida nos reserva. Ao mesmo tempo, ajudá-lo-á a encarar o momento da sua própria morte sem luta, mas antes em entrega àquele último suspiro que nos fechará os olhos físicos, mas nos abrirá à revelação do essencial.

O que celebramos no Dia dos Fiéis Defuntos é a grata lembrança dos nossos entes queridos, dos nossos amigos mais próximos, familiares e conhecidos que faleceram. A fé diz-nos que eles vivem agora noutro plano de existência. A fé diz-nos que a morte não é a palavra final.

Para aqueles de nós que já perdemos vários entes queridos, acontece algo mais: sentimos que vivem profundamente dentro de nós. Sentimos que a sua presença amorosa está no âmago do nosso ser. As memórias brotam dentro de nós, emergindo com clareza à medida que o tempo passa desde a sua partida. Com o passar dos anos, a dor dá lugar a uma saudade amorosa. Por vezes dói, outras vezes traz um sorriso porque é acompanhada por um cheiro, um sabor, uma cor, algo que vimos e que o papá, a mamã, a tia ou um amigo gostavam…

De repente, no dia a dia, descobrimos inúmeros sacramentos da presença daqueles que nos deixaram, mas permanecem dentro de nós. E assim surge o sentimento de gratidão pelas suas vidas, não perfeitas, certamente, mas tão importantes e significativas para nós.

Uma espiritualidade profunda e verdadeira não nos leva a banalizar a morte nem a transformar os defuntos em monstros aterradores que se levantam dos seus túmulos para nos incutir medo. A verdadeira espiritualidade leva-nos a conectar com o facto de a morte nos recordar a nossa finitude e nos abrir a questões profundas sobre o significado da nossa existência. Cada pessoa encontra as suas próprias respostas. A fé cristã diz-nos que o nosso horizonte é a Eternidade, uma eternidade que é um abraço com o Criador, um reencontro com todos aqueles que fizeram parte da nossa vida.

Elena Andrés Suárez, em Regreso a casa: Educar la Interioridad

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