A Caixa de Pandora no século XXI - crónica da jornalista Cristina Félix

Diz-se que, nos tempos antigos, Pandora abriu uma caixa que continha todos os males do mundo. Hoje, porém, a caixa já não é de barro nem de madeira: é digital, global, invisível, e está nas mãos de todos nós.

Na sociedade portuguesa contemporânea — como no resto do mundo — a “Caixa de Pandora” assume novas formas. Pode ser um telemóvel que vibra com notícias falsas, uma rede social que amplifica o ódio, um algoritmo que decide quem vê o quê, ou até uma decisão política tomada sem transparência. Cada clique, cada partilha irrefletida, cada rumor transformado em verdade instantânea funciona como uma tampa que se abre mais um pouco.

Tal como Pandora, também nós somos movidos pela curiosidade. Queremos saber tudo, ver tudo, comentar tudo. E, como ela, raramente imaginamos as consequências. Da caixa moderna escapam:

• a desinformação, que se espalha mais depressa do que qualquer peste antiga;

• a polarização, que transforma vizinhos em adversários;

• a ansiedade coletiva, alimentada por crises económicas, climáticas e sociais;

• a solidão digital, que cresce mesmo quando estamos rodeados de ecrãs;

• a desigualdade, que se aprofunda num mundo cada vez mais interligado mas nem sempre mais justo.

Em Portugal, estes males manifestam-se no discurso público agressivo, na desconfiança crescente nas instituições, na dificuldade em conciliar vida pessoal e profissional, na pressão sobre os jovens, na precariedade que corrói expectativas, e na sensação de que o futuro é uma névoa densa. No plano internacional, a caixa abre-se com guerras transmitidas em direto, migrações forçadas, crises ambientais que ultrapassam fronteiras, e um planeta que parece pedir socorro.

Mas, tal como no mito antigo, um único dom permanece no fundo da caixa: a esperança. Hoje, a esperança não é ingénua nem passiva. É feita de:

• educação crítica, que ensina a distinguir verdade de manipulação;

• solidariedade, que se vê em movimentos cívicos, voluntariado e redes de apoio;

• ciência e inovação, que procuram soluções para problemas globais;

• cultura, que nos recorda quem somos e quem podemos ser;

• participação democrática, que devolve voz a quem se sente esquecido;

• consciência ambiental, que nos lembra que o planeta não é um recurso, mas um lar.

A Caixa de Pandora dos nossos dias não é um castigo divino, mas um espelho. Mostra-nos o que libertamos quando agimos sem pensar — e o que podemos preservar quando escolhemos com responsabilidade.

No fundo, o mito continua a ensinar-nos que, mesmo num mundo saturado de crises, a esperança não é o último mal: é a primeira possibilidade de mudança. E cabe-nos a nós decidir se continuamos a abrir a caixa sem cuidado… ou se aprendemos finalmente a guardá-la com sabedoria.

Cistina Félix, em Facebook

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