No silêncio frio de janeiro, quando o ano ainda tateia os
seus primeiros passos, ergue-se o Dia de Reis como uma claridade antiga. É uma
luz que não fere, antes revela: recorda-nos que cada caminho humano é, no
fundo, uma procura — e que toda a procura exige coragem, humildade e espanto.
Dizem que três homens vindos de longe seguiram uma estrela.
Mas talvez fossem quatro, ou mil, ou todos nós. Porque cada ser que levanta os
olhos do chão e ousa perguntar “onde nasce o sentido?” já iniciou a sua viagem.
A estrela é apenas o nome que damos ao impulso interior que nos chama para além
do imediato, para além do útil, para além do que se mede.
O Dia de Reis lembra-nos que a sabedoria não é um ponto de
chegada, mas um gesto: o de caminhar. Os Magos não sabiam o que iriam
encontrar; sabiam apenas que não podiam ficar. E é assim que a vida se abre —
quando aceitamos que o desconhecido é também uma forma de promessa.
O ouro, o incenso e a mirra não são apenas oferendas; são
metáforas do que cada um transporta no íntimo. O ouro da dignidade, que nos
lembra que cada vida tem valor. O incenso do desejo de transcendência, que nos
faz procurar beleza mesmo no que é frágil. A mirra da finitude, que nos recorda
que tudo é breve e, por isso mesmo, precioso.
Neste dia, a tradição fala de coroas, bolos partilhados e
reis que nunca reinaram. Mas por detrás da doçura festiva há uma lição mais
profunda: a verdadeira realeza não se impõe, revela-se. Não se mede em poder,
mas em presença. Não se afirma pela força, mas pela capacidade de reconhecer o
sagrado no que é pequeno, no que é vulnerável, no que nasce.
Assim, o Dia de Reis convida-nos a uma dupla fidelidade: à
memória e ao futuro. À memória, porque somos feitos de histórias que nos
precedem. Ao futuro, porque cada gesto nosso pode ser uma estrela para alguém
que ainda procura o caminho.
E talvez seja essa a mais discreta das epifanias: perceber
que, no vasto mapa do mundo, cada pessoa é simultaneamente viajante e estrela,
pergunta e resposta, oferenda e destino.
Feliz Dia de Reis!
Cristina Félix, jornalista na Audácia, acerca das Belezas do Mundo
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