O presbítero António Martins responde, talvez surpreendentemente, à pergunta: «O que fiz de especial no ano que acabou?»

O que fiz de especial no ano que acabou, afinal?

Se me perguntarem assim de repente, eu até hesito. Porque hoje em dia parece que “especial” é fazer coisas estrondosas: correr maratonas, abrir empresas, ir a retiros onde se ouve Deus a falar em estéreo e com legenda…

Eu cá não fiz nada disso.

Mas fiz uma coisa simples — e que dá um trabalho desgraçado: amei.

Sim, amei com coragem.
E coragem, aqui, não é aquela das histórias heroicas, com música épica ao fundo. Coragem é outra coisa: é amar quando seria bem mais fácil responder torto, arquivar pessoas na prateleira dos “nunca mais”, ou então entrar naquela modalidade olímpica tão moderna: a contenda virtual e a teoria espiritual.

Amei as pessoas com quem me cruzei.

As fáceis — claro. Essas qualquer um... claro. Eu também. As simpáticas. As agradecidas. As que dizem bom dia como deve ser e não como quem está a passar multa.

Mas também amei as outras.
As que me irritaram.
As que me cansaram.
As que me fizeram mal.
E aqui é que isto fica interessante.

Porque amar essas pessoas não significa estar sempre colado a elas, a sorrir, a fazer de conta que nada foi. Não. Isso seria mais masoquismo do que evangelho.

Eu aprendi uma coisa:
há um amor que não discute… afasta-se.
Um amor que não grita… silencia.
Um amor que não provoca… respeita.
Um amor que não entra em teorias… faz distância de segurança.
E atenção: distância de segurança não é desprezo.
É só uma forma madura de dizer:
“Eu amo-te… mas não ao ponto de me perder.”

Porque há relações em que, se uma pessoa fica demasiado perto, começa a perder a paz, a caridade, o bom senso e, em dias mais difíceis… até a vocação.
E eu não quero isso.

Por isso escolhi amar sem contendas.
Sem guerras “do bem”.
Sem “vou-te mostrar”.
Sem “eu é que tenho razão”.
Sem duelos espirituais em que dois santos acabam a falar como dois rivais.
Amei a afastar-me.

E depois há outra pergunta:
“E as coisas andaram?”
Pois… parece que não.
Parece que nada anda.
Parece que a vida está a fazer download e ficou travada nos 3%.
Parece que eu rezo, rezo, rezo… e o céu responde com um “visto” e silêncio.

Mas aí vem uma frase que me salva:
Não desisto.
E mesmo quando parece que nada anda…
ando eu.
Isto é fundamental.
Se nada muda, eu mudo por dentro.
Se ninguém cresce, eu tento crescer.
Se o mundo não avança, eu avanço em fidelidade.

Porque a vida nem sempre se mede por resultados.
Às vezes mede-se por resistência.
Parece que não há frutos.
Mas há raízes.
Parece que não se vê nada.
Mas há coisas que Deus faz no escuro.
E no fim, talvez a grande novidade não seja que tudo melhorou…
mas que eu, apesar de tudo, não deixei de amar.

Por isso, afinal, o que fiz de especial?
Nada de extraordinário.
Só fiz o mais extraordinário de tudo:
Amei com coragem.
Amei mesmo onde doía.
Amei sem entrar em guerras.
Amei sem teorias.
Amei respeitando-me.
E continuei a andar.
Porque não desistir, às vezes, é a forma mais discreta de ser santo.

E no fundo…
se tudo parece parado, mas eu continuo a caminhar, então é sinal de que Deus ainda está a escrever a história.

E isso — mesmo sem fogos de artifício — já é muito especial.

Presbítero António Martins, diocese da Guarda

Comentários