Querido(a) amigo(a),
Sei que vem de coração, que a vontade de estar perto nasce de carinho e preocupação. Mas permita-me dizer-lhe, com toda a franqueza: não quero pena. Não quero olhares que me transformem em vítima ou suspiros que me façam sentir menor. A doença já me humilha com a sua presença; não é necessário que outros o façam.
Sei que vem de coração, que a vontade de estar perto nasce de carinho e preocupação. Mas permita-me dizer-lhe, com toda a franqueza: não quero pena. Não quero olhares que me transformem em vítima ou suspiros que me façam sentir menor. A doença já me humilha com a sua presença; não é necessário que outros o façam.
Prefiro o desprezo — sim, até ele, quando carregado de humor e de verdade, pode ser um estímulo. Pode dar-me força para continuar a lutar, para ser eu, inteira, mesmo que a minha carne esteja cansada.
Quando vier, traga vida. Traga histórias, risos, pequenas banalidades do quotidiano que me lembrem que o mundo lá fora continua a girar. Fale-me do café que tomou, do livro que leu, do que o faz sorrir. Não me diga que tenho coragem ou paciência, nem tente consolar-me com frases prontas. Isso não me ajuda. Mostre que me vê como pessoa, não como enferma.
Não insista em prolongar visitas quando o meu corpo pede descanso. Não force abraços quando estou frágil. O toque tem poder, sim, mas também pode magoar. Pergunte, antes de se aproximar, se pode sentar, se posso ouvir, se posso falar. Respeite o meu ritmo, a minha fome ou a minha vontade de silêncio.
Se vier com pressa, para me “animar” ou cumprir uma obrigação, é melhor que fique em casa. A sua presença só tem valor se vier do desejo genuíno de estar ao meu lado, sem necessidade de ser útil, sem necessidade de se mostrar virtuoso. A doença não é um palco.
Acima de tudo, não me reduza ao que sinto ou ao que sofro. Olhe-me, olhe-me de verdade, e veja a pessoa que continua a existir, mesmo no meio da incerteza, da vulnerabilidade, da finitude. A vida pode ter-me obrigado a parar, mas não me roubou por completo.
Quando vier, venha com humanidade, com autenticidade, com quotidiano e simplicidade. E, se puder, traga também a sua leveza — porque um sorriso partilhado vale mais do que mil palavras piedosas.
Com verdade,
Quem o(a) espera, inteira, apesar da doença.
Texto do Padre João Torres,
inspirado em estudos de José Carlos Bermejo, doutor em teologia pastoral da saúde, mestre em bioética, mestre em aconselhamento, mestre em intervenção no luto, que tem esta página na internet https://www.josecarlosbermejo.es e cuja bibliografia, em português, pode ser encontrada aqui: https://www.wook.pt/autor/jose-carlos-bermejo/614226
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