Catequese sobre as tentações - de Adão e Eva às nossas, passando pelas tentações de Jesus Cristo

Mais importante do que olhar para a culpa, que, como tentadora, cria em nós uma imagem falsa de Deus, é descobrir o caminho certo a seguir com Deus, e prosseguir nessa direção. É aqui que nos ajuda a experiência de outros seres humanos que chegaram lá e podem indicar-nos o caminho, a começar por Jesus Cristo.

Thomas Merton, monje cisterciense, disse: «A maior tentação humana é contentar-se com muito pouco.»

A fraqueza de Eva e Adão (Génesis 2, 7-9; 3, 1-7)
O texto descreve o processo que leva ao pecado. Não o faz com uma linguagem intelectual, mas através de um diálogo vivo. Para isso, introduz a serpente, que já no poema mesopotâmico de Gilgamesh aparece como inimiga do homem, a quem rouba a planta da vida e da imortalidade. Mas o autor do nosso relato aborda o tema de uma forma diferente, mais profunda. A serpente não rouba a planta da vida, mas destrói o ser humano por dentro.

A tentação começa com uma mentira, falsificando a proibição de Deus, que se limitava a comer do árvore do conhecimento. Apresenta o Senhor como alguém desumano e cruel, que impõe ao homem algo terrível. As suas palavras são tão grosseiras que, no início, é fácil rejeitá-las. Mas a tentação insiste. Nega a existência de perigo. Surge então a atração pelo proibido e o desejo. Até então, parece que Eva e Adão não tinham reparado na árvore. O simples medo de morrer os afasta da sua contemplação. Agora, «a mulher viu que a árvore era apetitosa, atraente e desejável, porque dava inteligência.» A partir desse momento, ela está perdida, e também o seu marido.

Imediatamente, o pecado produz os seus frutos. A serpente tinha prometido que os seus olhos se abririam. Efetivamente, eles se abrem e adquirem um novo conhecimento. Mas o que aprendem é que estão nus, e isso provoca vergonha mútua e a necessidade de cobrir a própria nudez.

A força de Jesus (Mateus 4, 1-11)
O contraste mais forte com Eva e Adão é representado por Jesus no momento das tentações, que se ligam ao episódio do batismo. Nele, a voz do céu proclama: «Tu és o meu filho amado, em quem me comprazo.» Como Jesus entende a sua filiação divina? Como um salvo-conduto para se divertir e triunfar? Muito pelo contrário. Imediatamente depois, ele vai para o deserto, e lá fica claro como ele entende a sua filiação.

Primeira tentação: satisfazer as necessidades básicas
Partindo do facto normal da fome após quarenta dias de jejum, a primeira tentação é a de usar o poder em benefício próprio. É a tentação das necessidades imperiosas, que o povo de Israel sofreu repetidamente durante os quarenta anos no deserto. No final, quando Moisés lembra ao povo todas as penúrias sofridas, explica-lhe por que razão o Senhor tomou essa atitude: «(Deus) afligiu-te, fazendo-te passar fome, e depois alimentou-te com o maná, para te ensinar que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca de Deus» (Dt 8,3).
 
No caso de Jesus, o tentador deixa de lado as sutilezas e vai direto ao ponto: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» Jesus não precisa queixar-se de passar fome, nem murmurar como o povo, nem recorrer a Moisés. Ele é o Filho de Deus. Ele pode resolver o problema facilmente, por si mesmo. Mas Jesus aprendeu desde o início aquela lição que o povo não assimilou durante anos: «Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas também de tudo o que Deus diz pela sua boca.»
 
O ensinamento de Jesus nesta primeira tentação expressa de forma quase subliminar a visão ampla e profunda da vida como algo que vai muito além da necessidade primária e se alimenta da Palavra de Deus.
 
Segunda tentação: pedir provas a Deus
A segunda tentação (atirar-se do beiral do templo) consiste em pedir a Deus provas que corroborem a missão encomendada.

Não estamos habituados a isso, mas é algo típico do Antigo Testamento, como lembram os exemplos de Moisés (Ex 4,1-7), Gedeão (Jz 6,36-40), Saul (1 Sm 10,2-5) e Acaz (Is 7,10-14). Em resposta ao medo e à incerteza espontâneos diante de uma tarefa difícil, Deus concede ao escolhido um sinal milagroso que corrobora a sua missão. Não importa se trata-se de um cajado mágico (Moisés), de dois prodígios com o orvalho noturno (Gedeão), de uma série de sinais diversos (Saul) ou de um grande milagre no alto do céu ou nas profundezas da terra (Acaz). O importante é o direito de pedir um sinal que tranquilize e anime a cumprir a tarefa.
 
Jesus, prestes a iniciar a sua missão, tem direito a um sinal semelhante. Baseando-se na promessa do Salmo 91, 11-12 («Ele deu ordens aos seus anjos para te guardarem nos teus caminhos; eles te levarão nos seus braços para que o teu pé não tropece em pedra»), o tentador propõe-lhe uma prova espetacular e concreta: atirar-se do beiral do templo. Assim ficará claro se ele é ou não o Filho de Deus.

No entanto, Jesus não aceita essa postura e a rejeita citando novamente um texto do Deuteronómio: «Não tentarás o Senhor teu Deus» (Dt 6,16). A frase do Dt é mais explícita: «Não tentarás o Senhor, teu Deus, pondo-o à prova, como o tentaste em Massá (Tentação)», onde a verdadeira tentação consiste em duvidar da presença e da proteção de Deus: «O Senhor está ou não está connosco?»

Terceira tentação: o desejo de triunfar
A terceira tentação, lançada abertamente pelo tentador, consiste na busca do poder e da glória, mesmo que isso implique um ato de idolatria. Não é a tentação provocada pela necessidade urgente ou pelo medo, mas pelo desejo de triunfar. Jesus rejeita a condição que Satanás lhe impõe, citando Dt 6,13.
 
Reflexão final
A tentação é um facto real na vida de Jesus, ao qual Ele foi submetido por ser verdadeiro homem.

Mateus abordou este tema para nos deixar claro, desde o início, como Jesus entende a sua filiação divina: não como um privilégio, mas como um serviço.
 
No fundo, as três tentações reduzem-se a uma só: colocar-se à frente de Deus, colocar as próprias necessidades, medos e gostos acima do serviço incondicional ao Senhor, desconfiando da sua ajuda ou querendo suplantá-lo.
 
As tentações também têm um valor para cada um de nós e para toda a comunidade cristã. Elas servem para analisar a nossa atitude diante das necessidades, medos e desejos, e o nosso grau de interesse por Deus.

José Luis Sicre, em Fé Adulta

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