Igreja em Portugal, sê profeta! Quem tem ouvidos, ouça! Quem tem boca, fale! Quem tem pernas, ande! Quem tem braços, dê a mão! - «A comunhão torna-se profecia» - reflexão do padre João Torres
«Uma das tarefas mais urgentes da Igreja de hoje e de sempre é conseguir que a Fé (Jesus Cristo) chegue às pessoas como boa notícia.» (José António Pagola, em Grupos de Jesus)
Quando a comunhão se torna profecia
A Igreja em Portugal não é uma abstração nem um edifício de normas. É um corpo vivo, feito de comunidades concretas, de pessoas reais, de histórias marcadas pela esperança e pela ferida. E cada comunidade só é verdadeiramente Igreja quando aceita sair de si e entrar em relação — com outras comunidades, com outras dioceses, com todo o povo de Deus que caminha neste país.
Há uma urgência profética que não pode mais ser adiada. Não precisamos de mais planos pastorais fechados sobre si mesmos, nem de estratégias desenhadas em solidão. Precisamos de comunhão. De um verdadeiro plano pastoral da Igreja em Portugal, nascido da escuta mútua, do discernimento partilhado e da coragem de confiar uns nos outros. Onde os dons circulem, os recursos se partilhem e ninguém se salve sozinho.
Dietrich Bonhoeffer adverte-nos com palavras que ainda queimam: «Quem deixa de ouvir o irmão, cedo deixará também de ouvir Deus.»
Quando as comunidades não se escutam, quando as dioceses não se deixam interpelar entre si, a Igreja começa a falar sozinha. E quando fala sozinha, transforma o Evangelho em discurso, a fé em ruído, a piedade em máscara. A profecia morre sempre que a escuta é silenciada.
A comunidade cristã deve ser
onde a verdade não assusta.
onde a palavra pode ser dita com liberdade e responsabilidade.
onde as murmurações de bastidores são convertidas em diálogo à luz do dia, e as dissimulações cedem lugar a uma reciprocidade adulta, lúcida e fraterna.
Sem verdade, não há comunhão; sem comunhão, não há Igreja.
A comunidade não existe para se proteger. Existe para gerar comunhão. E a Igreja em Portugal só será sinal do Reino se ousar viver segundo os sentimentos de Cristo Jesus (Fl 2,5): não o fechamento, mas o esvaziamento; não o poder, mas o serviço; não o medo da diferença, mas a unidade no amor.
A Igreja não é uma uniformidade que apaga rostos, nem uma soma de comunidades isoladas. É uma comunhão de comunidades diversas, chamadas a alegrar-se juntas, a encorajar-se mutuamente, a viver em paz. O seu primado não é a disciplina, mas o amor — um amor inquieto, que circula, que desinstala, que cria pontes e derruba muros.
Cada comunidade só se compreende em relação às outras. Cada diocese só se reconhece quando aceita ser olhada e interpelada pelas restantes. Como escreveu Emmanuel Mounier: “Eu preciso do olhar dos meus amigos para saber quem eu sou”. Também a Igreja precisa desse olhar fraterno para se converter e reencontrar a sua verdade.
Talvez a profecia de que a Igreja em Portugal mais precisa hoje seja esta: voltar a ser comunidade em comunhão. Menos autorreferencial, menos clerical, mais povo de Deus. Menos palavras, mais escuta. Menos medo, mais Evangelho.
Padre João Torres, pároco de Prisco, em Facebook
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