Meditação acerca do Silêncio de Deus, às portas da Quaresma

«Ó Deus, não fiques em silêncio; não fiques mudo nem impassível!» (Salmo 83, 2)
 
O silêncio de Deus é desconcertante quando ansiamos por Ele, porque é o pior sofrimento.

No entanto, a verdade é que essa experiência nos leva a «saber» que o silêncio de Deus nos impulsiona para Ele. É nas situações difíceis que aprendemos a ouvir Deus, a confiar nos seus tempos e a desenvolver a paciência de quem tem conhecimento e, portanto, espera no seu amor.
 
O silêncio é um tempo para a confiança que pode transformar-se em amadurecimento na fé.
 
Não é mau exercício, às portas da Quaresma, tornar-se «aquele(a) que tudo espera no Senhor» – «Aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças» (Isaías 40, 31); «Confia no Senhor! Sê forte e corajoso, e confia no Senhor!» (Salmo 27, 14), tornar-se aquele(a) que cumpre todas as suas promessas, mesmo que os nossos desejos pontuais não se realizem; porque hoje não é sempre. Daí nasce a necessidade de ler os textos bíblicos onde se revela com clareza a atitude a seguir perante o incompreensível da existência.
 
A metáfora da noite tem sido a preferida dos grandes místicos, especialistas em aridez e solidão, que aumentaram a espiritualidade e o seu exemplo cristão. Esse silêncio divino é a ferramenta para aprender de Deus, para confiar no seu tempo e para desenvolver a paciência crente, que nada mais é do que exercer a virtude teologal da esperança na escuta.
 
O Evangelho de João conta a história dos seus amigos Lázaro, Maria e Marta. Quando informaram Jesus que Lázaro estava muito doente, Ele não se apressou a chegar à casa dos seus amigos. Na verdade, demorou dois dias para partir (Jo 11, 6) e, antes que Jesus chegasse, Lázaro já tinha morrido.
 
Para Maria e Marta, esse comportamento de Jesus poderia ser interpretado como abandono por parte do amigo querido. É isso que frequentemente sentimos quando Deus não responde imediatamente aos nossos gritos de socorro: «Senhor, se estivesses aqui, isso não teria acontecido comigo!...»
 
Mas, no silêncio de Jesus, podemos abrir-nos à transformação com os acontecimentos diários diante de uma revelação maior que virá, às vezes muito diferente do esperado, mas com a certeza de que Deus nunca nos dececiona, se nos abrirmos à aceitação pela fé.
 
No salmo 22, o salmista clama a Deus sem meias palavras: «Meu Deus, por que me abandonaste? Clamo de dia e não me respondes, e de noite também não fico em silêncio...» Invocação bem conhecida por ter sido invocada por Jesus na cruz ao Pai. Mas esquecemos que este salmo 22 continua mais adiante assim: «Tu, porém, és o Santo. Em ti confiaram os nossos pais; confiaram e Tu os libertaste. A ti clamaram e foram salvos; confiaram em ti e não foram confundidos.»
E o Pai transformou a sua cruz num sinal universal da vida cristã.
 
O silêncio de Deus deve impulsionar-nos a rezar, mais do que nunca, pedindo luz e força: luz para vislumbrar o que temos de fazer e força para o conseguir. É a melhor oração de súplica.
 
A verdade é que a falta de oração – e de vida de oração – é o maior défice dos cristãos neste momento: rezamos pouco e mal porque não confiamos no poder que há em confiar em Deus, em deixar Deus ser Deus. Muitas vezes queremos forçar Deus a entrar nos nossos projetos à nossa maneira, em vez de nos abrirmos com confiança ao seu amor...
 
Oração«Peço-te, Jesus, que me ensines a partilhar o teu silêncio em silêncio contigo, descobrindo o bem que isso faz à alma. Amém.» (Santa Teresa do Menino Jesus)

Gabriel Maria Otalora, gabriel.otalora@outlook.com, em Eclesalia

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