O silêncio de Deus é desconcertante quando ansiamos por Ele,
porque é o pior sofrimento.
No entanto, a verdade é que essa experiência nos leva a
«saber» que o silêncio de Deus nos impulsiona para Ele. É nas situações
difíceis que aprendemos a ouvir Deus, a confiar nos seus tempos e a desenvolver
a paciência de quem tem conhecimento e, portanto, espera no seu amor.
O silêncio é um tempo para a confiança que pode
transformar-se em amadurecimento na fé.
Não é mau exercício, às portas da Quaresma, tornar-se «aquele(a)
que tudo espera no Senhor» – «Aqueles que esperam no Senhor renovam as suas
forças» (Isaías 40, 31); «Confia no Senhor! Sê forte e corajoso, e confia no
Senhor!» (Salmo 27, 14), tornar-se aquele(a) que cumpre todas as suas
promessas, mesmo que os nossos desejos pontuais não se realizem; porque hoje
não é sempre. Daí nasce a necessidade de ler os textos bíblicos onde se revela
com clareza a atitude a seguir perante o incompreensível da existência.
A metáfora da noite tem sido a preferida dos grandes
místicos, especialistas em aridez e solidão, que aumentaram a espiritualidade e
o seu exemplo cristão. Esse silêncio divino é a ferramenta para aprender de
Deus, para confiar no seu tempo e para desenvolver a paciência crente, que nada
mais é do que exercer a virtude teologal da esperança na escuta.
O Evangelho de João conta a história dos seus amigos Lázaro,
Maria e Marta. Quando informaram Jesus que Lázaro estava muito doente, Ele não
se apressou a chegar à casa dos seus amigos. Na verdade, demorou dois dias para
partir (Jo 11, 6) e, antes que Jesus chegasse, Lázaro já tinha morrido.
Para Maria e Marta, esse comportamento de Jesus poderia ser
interpretado como abandono por parte do amigo querido. É isso que
frequentemente sentimos quando Deus não responde imediatamente aos nossos
gritos de socorro: «Senhor, se estivesses aqui, isso não teria acontecido
comigo!...»
Mas, no silêncio de Jesus, podemos abrir-nos à transformação
com os acontecimentos diários diante de uma revelação maior que virá, às vezes
muito diferente do esperado, mas com a certeza de que Deus nunca nos dececiona,
se nos abrirmos à aceitação pela fé.
No salmo 22, o salmista clama a Deus sem meias palavras:
«Meu Deus, por que me abandonaste? Clamo de dia e não me respondes, e de noite
também não fico em silêncio...» Invocação bem conhecida por ter sido invocada
por Jesus na cruz ao Pai. Mas esquecemos que este salmo 22 continua mais
adiante assim: «Tu, porém, és o Santo. Em ti confiaram os nossos pais; confiaram
e Tu os libertaste. A ti clamaram e foram salvos; confiaram em ti e não foram
confundidos.»
E o Pai transformou a sua cruz num sinal universal da vida
cristã.
O silêncio de Deus deve impulsionar-nos a rezar, mais do que
nunca, pedindo luz e força: luz para vislumbrar o que temos de fazer e força
para o conseguir. É a melhor oração de súplica.
A verdade é que a falta de oração – e de vida de oração – é
o maior défice dos cristãos neste momento: rezamos pouco e mal porque não
confiamos no poder que há em confiar em Deus, em deixar Deus ser Deus. Muitas
vezes queremos forçar Deus a entrar nos nossos projetos à nossa maneira, em vez
de nos abrirmos com confiança ao seu amor...
Oração: «Peço-te, Jesus, que me ensines a partilhar o teu silêncio
em silêncio contigo, descobrindo o bem que isso faz à alma. Amém.» (Santa
Teresa do Menino Jesus)
Gabriel Maria Otalora, gabriel.otalora@outlook.com, em Eclesalia
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