O cristão não pode ser legalista: reflexão sobre a Lei dada por Deus e a postura humana perante as normas

A lei natural, escrita pelo Criador no coração de cada ser humano, consiste na participação na sabedoria e bondade de Deus, e manifesta o sentido moral originário que permite à pessoa discernir, pela razão, o bem e o mal. Ela é universal e imutável, e constitui a base dos deveres e dos direitos fundamentais da pessoa, bem como da comunidade humana e da própria lei civil.

Por causa do pecado, a lei natural nem sempre é percebida por todos com igual clareza e imediatez. Por isso Deus «escreveu nas tábuas da Lei o que as pessoas não conseguiam ler nos seus corações» (Santo Agostinho) e, com Jesus, deu-lhes o Espírito Santo, que atua como guia divino, concedendo sabedoria e dons (sabedoria, ciência, conselho, etc.) para discernir entre o bem e o mal, a verdade e o erro, inspirando decisões segundo a vontade de Deus.

Os mandamentos de Deus - e a síntese dada por Jesus - proíbem o que é contrário ao amor a Deus e ao próximo e prescrevem o que lhe é essencial.

Os legalistas
Na Bíblia, os escribas são a imagem dos legalistas. Sociologicamente, eles constituem um grupo muito heterogéneo, ao qual pertencem sacerdotes de escalão alto, simples sacerdotes, membros do clero inferior, membros de famílias importantes e de todas as camadas da população (comerciantes, carpinteiros, construtores de lojas, diaristas). Encontramos até mesmo pessoas que não eram de ascendência israelita pura, mas filhos de mãe ou pai convertidos ao judaísmo.

O poder dos escribas reside exclusivamente na sua ciência. Quem desejava ser admitido na corporação devia fazer um ciclo de estudos de vários anos. Geralmente, a partir dos 14 anos, dominava a exegese da Lei (Pentateuco). Mas a idade canónica para a ordenação era 40 anos. A partir daí, estava apto a decidir por si mesmo questões de legislação religiosa e ritual, a ser juiz em processos criminais e a tomar decisões em processos civis, seja como membro de um tribunal de justiça, seja individualmente. Tinha o direito de ser chamado de rabino. E abriam-se para eles cargos-chave no direito, na administração e no ensino.

O perigo do legalismo
Apesar da grande estima de que gozam entre o povo, Jesus não considera os escribas simpáticos. Ele não quer que os seus seguidores se pareçam com eles, nem que possam ser confundidos com eles. Porque na sua postura existe um perigo muito grave de legalismo, ou seja, de exaltação da lei e da norma acima de todas as coisas.

O legalismo pode ser alcançado por dois caminhos muito semelhantes:

a) Buscando segurança humana: uma pessoa imatura, com medo de correr riscos, prefere que lhe indiquem a cada momento o que deve fazer. Quanto mais normas, melhor, porque assim não se sente insegura.

b) Buscando segurança religiosa: essas pessoas concebem a salvação como algo que se ganha com esforço, cumprindo em todos os momentos a vontade de Deus. Essa vontade de Deus não é concebida como uma atitude global na vida, mas concretizada numa série de atos. Quanto mais normas me forem ditadas, melhor saberei o que Deus quer e mais fácil será para mim salvar-me.

Nisto há coisas boas e más. Mas o mais grave é que a pessoa que ama as regras corre o risco de ficar na letra da lei, sem aprofundar o seu espírito, que é mais exigente. Por exemplo, a lei manda não comer carne às sextas-feiras da Quaresma. E ela fica tranquila por cumprir a letra da lei, mas não se preocupa em comer lagosta ou camarão. A lei manda ir à missa aos domingos e feriados, e ela cumpre à risca; mas talvez não dedique nem um minuto a Deus durante o resto da semana.

Outro risco grave da mentalidade legalista é que, com a lei na mão, pode-se esmagar o próximo e amargar a sua existência. Critica-se quem não vive como se considera conveniente, condena-se, até persegue-se.

A crítica de Jesus ao legalismo
Para combater essa postura legalista e ensinar os seus discípulos a agir cristãmente, Mateus coloca na boca de Jesus seis casos concretos, referentes ao homicídio, adultério, divórcio, juramento, vingança e amor ao próximo (Mateus 5, 21-48).

No primeiro caso, o homicídio, por exemplo, Jesus leva a lei às suas consequências mais radicais. O quinto mandamento proíbe matar. A mentalidade legalista, atendendo à letra, contenta-se em não esfaquear o próximo. Jesus diz que o espírito do mandamento vai muito mais longe. O importante não é apenas respeitar a vida física do próximo, mas também toda a sua pessoa.

No segundo caso, o adultério, Jesus também interpreta o mandamento de forma radical. A letra da lei foca-se apenas no facto físico. Mas Jesus vai ao seu espírito profundo, levando em conta até mesmo o perigo remoto de cair.

No quarto caso, a propósito do juramento, Ele também anula a lei. Jesus move-se numa sociedade que usa e abusa do juramento. O discípulo de Jesus tem de mover-se com uma honestidade e sinceridade tão absolutas que basta dizer sim e não.
 
Reflexão final
O Antigo Testamento fala de uma alternativa entre água e fogo, vida e morte (Sir 15, 16-21). Para Jesus, a alternativa consiste em entrar no reino de Deus ou ficar de fora.

Um escriba concordaria que o melhor é guardar os mandamentos e ser fiel à vontade de Deus. Mas Jesus diria: «Depende de como interpretas essa vontade». Se o fazes de forma legalista, limitando-te à letra da lei, não podes seguir-me, não podes entrar no Reino de Deus.

Jesus presta-nos um exame de consciência, especialmente no que diz respeito à nossa relação com o próximo, que por vezes estamos a matar sem nos apercebermos.
José Luis Sicre, em Fé Adulta

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