A presença do padre nos grupos digitais da paróquia pode ser
sinal de proximidade pastoral. Mas quando essa presença se transforma em
vigilância constante e, pior ainda, em censura sistemática de mensagens,
entramos num território espiritualmente delicado.
A questão não é tecnológica. É teológica.
1. A autoridade na Igreja não é controlo
Cristo definiu o modelo: «Quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos» (Mc
9, 35).
A autoridade eclesial é ministerial, não proprietária. O
padre não é dono da comunidade nem gestor da sua imagem pública. É pastor,
servidor da comunhão e da verdade.
Quando começa a filtrar opiniões, apagar mensagens incómodas
ou advertir quem questiona, corre o risco de inverter a lógica evangélica: em
vez de servir a verdade, começa a protegê-la de forma defensiva — como se ela
fosse frágil.
Mas a verdade não precisa de proteção manipuladora. Precisa
de testemunho.
2. O Direito dos fiéis à palavra
O Código de Direito Canónico é claro. O cânone 212 §3 afirma
que os fiéis têm o direito — e por vezes o dever — de manifestar aos pastores a
sua opinião sobre aquilo que diz respeito ao bem da Igreja, respeitando a
caridade e a fé.
Isto não é rebeldia.
É corresponsabilidade.
Quando mensagens são apagadas apenas porque são críticas,
quando perguntas são desvalorizadas por serem “inconvenientes”, está-se a
enfraquecer um princípio fundamental da vida eclesial: a comunhão na verdade.
Uma comunidade adulta não se constrói com silêncio imposto,
mas com diálogo maduro.
3. A censura como sintoma de insegurança
A necessidade de controlar todos os grupos e todas as
conversas pode revelar algo mais profundo: medo de perder autoridade.
Mas autoridade não se perde por ouvir.
Perde-se quando se deixa de ser coerente.
Um padre seguro na sua missão não teme perguntas.
Não receia críticas respeitosas.
Não precisa apagar mensagens para manter influência.
São Paulo enfrentou comunidades turbulentas — Corinto é
exemplo claro — e não respondeu com silenciamento, mas com cartas argumentadas,
ensinamento, correção fraterna.
O confronto, quando é honesto, amadurece a Igreja.
4. O efeito espiritual da censura
Quando as pessoas percebem que certas opiniões são mal
recebidas ou eliminadas, instalam-se três dinâmicas perigosas:
• autocensura
(fala-se menos para evitar problemas);
• duplicidade (o que
não se diz no grupo diz-se em privado);
• desconfiança (a
autoridade passa a ser vista como controlo).
A censura não elimina o conflito.
Apenas o empurra para a sombra.
E comunidades que vivem de sombras tornam-se frágeis. Não
criam discípulos livres, criam membros cautelosos.
Ora, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (cf. 2
Cor 3,17).
Não libertinagem.
Mas liberdade responsável.
5. Moderação não é censura
Importa distinguir: um grupo paroquial precisa de ordem. Não
é espaço para ataques, difamações ou desrespeito.
A moderação legítima protege a caridade.
A censura protege a imagem.
E quando o critério passa a ser “isto pode criar má
impressão”, substitui-se o discernimento evangélico por gestão reputacional.
A Igreja não é uma marca.
É Corpo de Cristo.
E o Corpo cresce quando cada membro pode falar na verdade e
na caridade (cf. Ef 4,15).
6. O risco de uma comunidade infantilizada
Quando tudo depende do olhar constante do padre, a
comunidade não amadurece. Aprende a esperar autorização para pensar. Aprende a
medir cada palavra.
Isso gera dependência espiritual.
Mas o padre é chamado a formar consciências, não a
substituí-las.
Uma paróquia saudável é aquela onde os leigos sabem agir com
responsabilidade mesmo quando o padre não está presente — nem fisicamente, nem
digitalmente.
Conclusão
O problema não é o WhatsApp.
É a mentalidade.
Se a autoridade precisa de apagar para se afirmar, talvez
esteja a perder a sua força interior.
A Igreja cresce na luz, não na filtragem.
Na verdade, não na gestão de desconforto.
E um pastor que confia no Espírito Santo não precisa estar
em todos os grupos — porque sabe que a fé não depende da sua vigilância, mas da
ação de Deus.
Elisabete Martins, de Braga, em Facebook
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