Quarta-Feira de Cinzas – O rito como pergunta e instrumento de responsabilidade partilhada

A Quarta-feira de Cinzas volta todos os anos ao calendário com um gesto simples e repetido ao longo dos séculos: uma marca de cinza na testa e uma frase que lembra a condição mortal: «És pó e em pó te tornarás.» Tradicionalmente, funciona como o início da Quaresma, um período de preparação, contenção e revisão pessoal que antecede a Páscoa. No entanto, a sua aparição já não ocorre numa sociedade homogeneamente crente nem num quadro cultural partilhado. Hoje, mais do que uma data litúrgica, funciona como um fenómeno social onde emergem tensões profundas sobre o sentido, a identidade e o lugar do religioso no espaço público.

1. Um ritual antigo num contexto fragmentado
Pluralidade de crenças, crescimento do ateísmo, indiferentismo prático
O ritual das cinzas sobrevive dentro de uma instituição religiosa maioritária, mas claramente erodida, que gere símbolos cada vez menos compreensíveis ou relevantes para amplos setores da população. O próprio significado desta quarta-feira — iniciar um longo período de austeridade, jejum e exame — resulta estranho numa cultura orientada para a gratificação imediata e a aceleração constante. Ao mesmo tempo, o ritual inscreve-se num ambiente marcado pela pluralidade de crenças, pelo crescimento do ateísmo e do indiferentismo prático, e pela perda de rituais comuns que estruturam a vida coletiva.

Contexto global de conflitos da Humanidade contra si mesma e extremismos
A esta fragmentação acrescenta-se um contexto global de grande conflito: guerras abertas, crise climática, polarização política e um mal-estar social persistente. Neste cenário, determinados movimentos políticos — especialmente na esfera da extrema-direita — procuram apropriar-se de símbolos religiosos tradicionais para os converter em marcadores identitários, desligando-os do seu conteúdo ético original e utilizando-os como ferramentas de exclusão.

Novas leituras dos ritos religiosos
Nesta interseção de fatores, a cinza deixa de ser apenas um sinal doutrinário. Ela se torna um símbolo ambíguo, aberto a novas leituras. Para alguns, sua mensagem de limite e humildade funciona como uma crítica indireta à lógica do crescimento infinito, ao consumo desenfreado e à ideia de autossuficiência individual. O «pó» pode ser lido como uma metáfora da fragilidade humana, mas também de um planeta exausto e de sistemas sociais que mostram sinais de esgotamento. Esta ressignificação secular do ritual explica, em parte, a sua persistência: não tanto como um ato de fé, mas como uma lembrança incómoda numa cultura obcecada pelo sucesso, pela juventude e pela produtividade.

2. Espiritualidade e lógica do espetáculo
Enquanto os rituais tradicionais perdem centralidade — incluindo o próprio sentido da Quaresma como tempo prolongado de espera e transformação —, novas formas de espiritualidade adaptadas à cultura digital ganharam visibilidade: megacongregações, líderes carismáticos com presença nas redes sociais, eventos religiosos com estética de concerto e comunidades online que prometem bem-estar, pertencimento e sentido.

O espiritual compete com as plataformas de entretenimento
Essas propostas compreenderam que, na economia da atenção, o espiritual também compete com as plataformas de entretenimento.
O seu apelo é evidente: linguagem emocional, experiências intensas, comunidades flexíveis e um discurso que evita a rigidez doutrinária. No entanto, esse modelo encerra uma paradoxo. Ao adotar a lógica do espetáculo, fica sujeito às suas regras: necessidade constante de novidade, impacto e estímulo. O risco é que a experiência espiritual se reduza a um consumo emocional, mais próximo da autoajuda do que de um longo processo de transformação pessoal e coletiva, como o que simbolizava o ciclo da Quaresma.

Ausência de tradição crítica e discursos ideológicos
Essa fragilidade estrutural tem consequências políticas. A ausência de tradição crítica e de mecanismos internos de controle facilita a instrumentalização ideológica. Em alguns casos, comunidades nascidas como espaços de contenção emocional acabam a funcionar como plataformas identitárias, suscetíveis de serem captadas por discursos simplificadores que oferecem certezas e inimigos claros. Quando o entusiasmo inicial se dissipa, a pergunta é inevitável: o que resta quando a emoção não sustenta mais?

3. Tradição e novidade contemporânea
O panorama apresenta uma disjuntiva enganosa. Por um lado, rituais antigos de grande poder simbólico — como o início de um período marcado pela austeridade e pela revisão de prioridades —, mas desconectados da experiência quotidiana de muitas pessoas. Por outro lado, propostas novas, dinâmicas e comunicativamente eficazes, embora muitas vezes construídas sobre bases frágeis e efémeras.

Comunidade capazes de falar a linguagem do presente sem renunciar à profundidade, ao silêncio e aos processos longos
Talvez a chave não esteja em escolher entre um ou outro extremo, mas em pensar uma síntese difícil: formas de comunidade capazes de falar a linguagem do presente sem renunciar à profundidade, ao silêncio e aos processos longos. Isso implicaria recuperar espaços para a dúvida, a reflexão e o compromisso ético, para além do impacto imediato e emocional.

Os símbolos como instrumentos de responsabilidade partilhada
Significaria também compreender a dimensão política do espiritual num sentido amplo: não como bandeira identitária, mas como impulso para o cuidado do comum, a justiça social e a resposta à crise ecológica. Desta forma, os símbolos deixariam de ser objetos de consumo ou armas culturais para se tornarem ferramentas de responsabilidade partilhada.

4. O pó como pergunta
Despojado de solenidade, o Dia das Cinzas — porta de entrada para um tempo pensado para frear, revisar e mudar de rumo — levanta uma questão incômoda e universal: o que fazer com a fragilidade, o limite e a consciência da finitude em uma sociedade que prefere distrair-se? O espetáculo oferece evasão; as instituições tradicionais, às vezes, respostas fechadas.

Reconhecer esse «pó» comum — biológico, social e ecológico — pode ser o primeiro passo para reconstruir laços e repensar prioridades
No espaço intermediário de uma sociedade secularizada, cética, mas não indiferente, a cinza pode funcionar como ponto de partida para uma conversa mais honesta. Não como imposição nem como nostalgia, mas como lembrete de uma condição partilhada. Reconhecer esse «pó» comum — biológico, social e ecológico — pode ser o primeiro passo para reconstruir laços e repensar prioridades.

Talvez seja aí que resida a sua relevância: não no ritual em si, mas no processo que ele inaugura e na questão que deixa no ar. Num mundo saturado de estímulos e certezas pré-fabricadas, aceitar a própria vulnerabilidade continua a ser um gesto radical, contracultural. E a partir dessa aceitação, mais do que do brilho efémero dos ecrãs, algo parecido com um futuro com sentido poderia começar a esboçar-se.

Evaristo Villar (evaristo.villar@gmail.com), em Eclesalia

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