Deus como sabedoria nutritiva

A leitura do livro bíblico da Sabedoria 12,13.16-19 oferece-nos uma das chaves principais para compreender a experiência de Deus no contexto de um povo que se reconhece distinto das formas culturais e religiosas dos povos que o rodeiam. Deus é digno de confiança porque nos ouve e acolhe-nos. Esta característica revela-nos duas questões.

A primeira é a experiência de que Deus que nos criou por amor e que nos salvou não se esquece de nós, mas permanece atento às nossas preocupações e necessidades e mostra-se misericordioso e justo perante a adversidade. Por isso, não é um deus criador qualquer, mas sim um deus que cuida e sustenta, pois não se afasta das suas criaturas, mas alimenta-as, sustenta-as na sua fraqueza, anima-as e capacita-as para participarem na transformação do mundo.
 
Compreender Deus como Sabedoria nutritiva, como Deus que alimenta a vida, está presente na experiência de Jesus. Nada do que o ser humano possa fazer — a sua incapacidade de empatizar com o mundo e com outros seres humanos, a sua tendência para colocar os seus interesses pessoais acima dos dos outros, a sua capacidade predatória e destrutiva, etc. — impede Deus de continuar a nutrir a sua criação no seu desejo infinito de regressar ao jardim original.
 
Deus é Sabedoria em movimento, amante das pessoas, que invade cada recanto miserável, geme acompanhando o ser humano perante a perda ou a ferida e liberta um poder que permite recomeçar. O Seu alimento desperta a atividade criativa da terra e reorienta a vida ferida para o crescimento, deixando para trás a violência e o absurdo. Alimenta e fortalece os pobres e os maltratados, saciando a fome e o anseio de justiça que a desesperança humana acredita não poder saciar.
 
A Sabedoria divina habita no centro e nas periferias do mundo; é vitalidade que grita com dores de parto, dando à luz, a cada dia, a cada instante, a nova criação. Não poupa recursos e é abundante nas dádivas que nos concede todos os dias. Deus conhece a nossa fraqueza, sabe até onde podemos chegar e até onde não podemos, e encoraja-nos a resistir e a ser resilientes com o seu poder vivificante, para continuarmos a cuidar do jardim (Carta aos Romanos 8, 26-27).
 
A Sabedoria divina não mede o seu excesso, que se derrama sobre todas e cada uma das suas criaturas, independentemente da sua bondade ou maldade. Para Jesus, a lógica de Deus é diferente da lógica e das leis do ser humano. Com uma imagem especialmente simples, Jesus aponta para a infinita bondade e a determinação de Deus de não dar nenhuma criatura como perdida. O trigo e o joio coexistem e não é possível separá-los (Mateus 13, 24-43).
 
Seria uma atrocidade pensar que se pode separar o bem do mal, a vida da morte, nas criaturas vulneráveis que clamam por poder viver uma vida mais vivível. Jesus está ciente de que o joio, que no início se assemelha ao trigo, acaba frequentemente por sufocar o bem. E coloca na boca do dono da colheita a pergunta sobre se se deve arrancar o joio. Esta pergunta insere-se na lógica dos seres humanos e no seu desejo de esclarecer o que é vida e o que é morte, o que é puro e o que é impuro, o que é bom e o que é mau. Jesus sabe que Deus não responde a esta pergunta a partir das nossas categorias. A Sua resposta é continuar a alimentar, a nutrir, com paciência, acolhendo a morte e a vida ao mesmo tempo, cultivando uma bondade que ama mesmo sabendo que, no final, o joio sufocará, em certa medida.
 
Por isso, Jesus remete-nos para a esperança de que a Sabedoria divina continue a nutrir, com o anseio de que parte desse joio não sufoque a colheita. Apressarmo-nos a julgar e a excluir o joio que cresce não é a opção de Deus. A proposta de Deus é continuarmos a ser fiéis a um projeto íntimo que vai ao cerne das coisas e das pessoas. A fidelidade ativa, aquela que nutre e, por vezes, gera conversão: conversão do próprio coração, que se enche de mais amor e misericórdia, e conversão do coração «joeiroso», que se sente acolhido sem o merecer aos olhos da justiça humana. Assim é cada dia da nossa vida: alimentar a vida que nos rodeia com paciência e acolhimento, ao mesmo tempo que, através da ação, se deseja o crescimento de uma bondade no joio que atenue o dano e a ferida do nosso mundo.

Silvia Martínez Cano, em Fé Adulta

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