Quem gosta de
laranjas sabe que ninguém as come com casca. A casca é importante. Protege o
fruto. Mas não é a parte que alimenta. Se alguém insistir em comer a laranja
inteira, rapidamente percebe que a experiência não é propriamente memorável.
E talvez aconteça o mesmo connosco.
Passamos a vida a
cuidar muito da casca: a imagem, o orgulho, a vaidade, a necessidade de ter
razão, aquilo que os outros pensam de nós. Entretanto, esquecemo-nos do fruto,
do coração, daquilo que realmente somos diante de Deus.
Quando começamos a
descascar uma laranja, as mãos ficam perfumadas. Mas também há aqueles
esguichos inesperados que acertam nos olhos. A conversão tem um pouco disso.
Traz beleza e frescura, mas também momentos em que Deus nos abre os olhos de
uma forma que não estávamos à espera.
Depois aparecem aqueles fios brancos agarrados aos gomos. Parecem não acabar nunca. Tiramos um e aparecem mais dois. Fazem lembrar aquelas pequenas coisas que vamos acumulando: uma impaciência, uma crítica, uma resposta menos feliz, uma oração adiada, um pedido de desculpa que ficou por fazer.
Nada de dramático. Mas tudo junto vai tapando o sabor do Evangelho.
E depois surgem os
gomos. Diferentes uns dos outros, mas unidos no mesmo fruto. Como a Igreja.
Como as famílias. Como as comunidades. Nem todos somos iguais, graças a Deus.
Mas somos chamados a permanecer unidos.
E se a laranja tiver
caroços? Ninguém a deita fora por causa disso. Tiram-se os caroços e
continua-se a comer.
Talvez devêssemos fazer o mesmo connosco e com os outros. Temos defeitos? Temos. Há caroços? Há. Mas Deus não desiste de nós por causa deles. Vai-nos ajudando, pacientemente, a removê-los um a um.
A santidade
não acontece de repente. Não é carregar num botão. É mais parecida com
descascar uma laranja: leva tempo, exige paciência, faz alguma sujeira pelo
caminho, mas vale a pena.
Padre António Martins, presbítero da diocese da Guarda
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