Será que podemos afirmar, de verdade, que todos seremos salvos? Ou será que, tal como diz o texto de Romanos 8, 28-29, uns serão salvos e outros condenados? Uma questão complexa que nos é colocada e que tem sido objeto de muitos debates ao longo da história da Igreja.
Quando Paulo aborda esta questão, tem em mente a sua própria convicção de que Deus apenas deseja para nós uma vida plena. E, neste sentido paulino do projeto de Deus, ele compreende o horizonte para o qual estamos predestinados: «ser semelhantes à imagem do seu Filho», o que não é outra coisa senão a «glorificação» de toda a nossa vida. Ou seja, através da encarnação, morte e ressurreição do Filho, acedemos à vida nova, ao tempo novo, a uma situação, a um Reino, que tem relações e normas novas.
Não se trata de um julgamento em que os bons serão salvos e os maus serão afastados; trata-se do desejo de Deus de que vivamos em plenitude, numa situação nova, para nós e para toda a criação, onde se viva com justiça e paz. Deus deseja este plano para nós, mas não é um projeto que nos seja imposto. Pelo contrário, esse projeto aguarda a nossa intervenção, a criatividade humana, a transformação do material, da mundanidade, do histórico que se tornou cultura, para que se assemelhe mais a esse objetivo inicial do projeto do Reino: a concórdia e o amor aos irmãos e irmãs.
Deus tem um desígnio para nós, claro que sim! Que nos amemos, e que isso transforme os nossos corpos e as nossas vidas, ou seja, que nos «glorifiquemos». Deste projeto ninguém nos pode afastar, ninguém nos pode arrancar esse horizonte de harmonia. No final da carta aos Romanos, Paulo afirmará: «ninguém poderá afastar-nos do amor de Deus» (Rm 8, 39).
Neste sentido, podemos falar das parábolas de Mateus 13, 44-52, como um dom ao qual não se pode renunciar. Jesus compara magistralmente o Reino com coisas do quotidiano, tão pequenas, mas tão valiosas para nós… um homem que vende tudo o que tem para adquirir um campo que contém um tesouro ou um comerciante que vende outras joias para ficar com uma pérola de valor especial. As duas parábolas sublinham uma ideia: o projeto do Reino é mais valioso do que qualquer outro projeto do mundo. A questão reside em saber se descobrimos o tesouro no dia a dia e se somos capazes de tomar a decisão de o tornar nosso. A descoberta e o discernimento são os passos que antecedem a glorificação.
No entanto, não vamos dizer que é uma situação fácil. É uma decisão arriscada. Será realmente a pérola de grande valor? O sacrifício de deixar tudo pelo tesouro terá um desfecho positivo? Será sensato fazer esta aposta num Reino que está por construir? Aqui, Jesus dá-nos a chave nas próprias parábolas: a aposta é sabedoria e coragem ao mesmo tempo; diríamos, em palavras simples, um salto no vazio em direção a Deus, uma ação confiante de que Deus cumpre esse destino, a plenitude total do ser humano.
Sabedoria e coragem, aprender a descobrir e aprender a arriscar, duas formas de enfrentar o mundo, duas ações que andam de mãos dadas. Colocá-las em prática no dia a dia, dedicando os nossos cinco sentidos, a própria vida, ao projeto de Deus para nós e para o mundo. O Reino está ao alcance de todos e de todas, mas nem todos se atrevem, com sabedoria, a dar esse passo. É preciso arriscar… e confiar.
Silvia Martínez Cano,
em Fé Adulta
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