Redes sociais são um tribunal digital: uma nova religião laica e dogmática, sem o sacramento da reconciliação

Vivemos na era da memória infinita e da clemência zero. Basta um tweet infeliz escrito há uma década, na imaturidade da juventude, um comentário infeliz numa entrevista ou um deslize verbal para que a guilhotina digital caia sem piedade. Vemos isso quase diariamente nas tendências da rede social X (antigo Twitter): linchamentos digitais em massa contra artistas, desportistas, políticos de qualquer tendência ou intelectuais que, da noite para o dia, passam do pedestal ao exílio absoluto.
 
A cultura do cancelamento nasceu, em teoria, para exigir responsabilidades aos poderosos. No entanto, transformou-se num monstro sedento de coerência absoluta que não admite o erro humano. Neste novo tribunal dos ecrãs, não há espaço para atenuantes, contexto ou o passar do tempo. És o teu pior erro. Para sempre.
 
O algoritmo que não sabe perdoar
O que é preocupante neste fenómeno não é apenas a crueldade da turba digital, mas a ideia de ser humano que estamos a construir. Se um erro do passado te define para toda a vida, estamos a assumir que as pessoas são estáticas, incapazes de evoluir, de aprender, de pedir desculpa e de mudar.
 
O algoritmo do Google não esquece, mas a sociedade está a perder a capacidade de perdoar. Ao eliminar a possibilidade de redenção, deslizamos para uma convivência paranoica, onde todos nos vigiamos mutuamente, à espera do deslize do vizinho para experimentar a perversa superioridade moral de o apontar com o dedo. Criámos uma religião laica extremamente dogmática, com os seus próprios «pecados mortais» e os seus processos de excomunhão pública, mas com uma diferença trágica: carece do sacramento da reconciliação. O castigo é o exílio social perpétuo.
 
Também em casa: a tentação do «fogo amigo»
Seria muito conveniente apontar este problema como uma patologia exclusiva do mundo secular. Mas a verdade é que, se olharmos para dentro, a Igreja não está imune a esta fogueira. Pelo contrário: por vezes somos especialistas em cancelar-nos uns aos outros com uma crueldade que assusta.
 
E digo isto com dor e na primeira pessoa: com a melhor vontade do mundo, supostamente procurando defender a verdade ou a justiça, caímos na armadilha da denúncia. Eu, o primeiro. É muito fácil juntar-se à lapidação de um político, de um sacerdote, de um teólogo ou de um bispo cuja abordagem não se enquadra nas nossas coordenadas teológicas ou ideológicas.
 
Dividimo-nos em tribos eclesiais. Se um setor «progressista» exclui sem piedade quem manifesta dúvidas sobre certas mudanças por medo de perder a essência, o setor «conservador» responde excluindo e rotulando de herege qualquer um que tente abrir novos caminhos ou acolher novas realidades. Atiramos dogmas uns aos outros através de blogs e redes sociais com uma ligeireza que assusta. Procuramos a pureza do grupo à custa da exclusão do irmão, esquecendo-nos de que a Igreja, se é alguma coisa, é um lar de pecadores em caminho.
 
A proposta revolucionária da misericórdia
Perante esta intempérie, o Evangelho tem hoje uma carga de subversão contra a corrente mais potente do que nunca. Num mundo que exclui e arquiva, Jesus de Nazaré propõe acolher. Não para justificar o erro — o dano causado deve ser reconhecido e reparado —, mas para afirmar que a pessoa é sempre infinitamente maior do que o seu pior erro.
 
A parábola do filho pródigo, a mulher adúltera a quem ninguém se atreve a atirar a primeira pedra porque, no fundo, todos sabemos que vivemos em casas de vidro, ou o próprio Pedro que, depois de negar três vezes o seu mestre, é confirmado para liderar a comunidade… Toda a narrativa cristã é um hino às segundas oportunidades. O perdão não é fraqueza nem cumplicidade com o mal; é o único mecanismo capaz de quebrar a cadeia da vingança e permitir que o futuro de alguém não seja um refém perpétuo do seu passado.
 
Oásis de clemência num mundo hostil
A Igreja e as comunidades cristãs têm uma oportunidade de ouro para se apresentarem perante a sociedade civil como autênticos hospitais de campanha contra o linchamento. Mas, para podermos oferecer esse remédio, primeiro temos de nos curar a nós próprios.
 
Devemos ser os primeiros a desmantelar as nossas trincheiras internas, a recuperar o valor da conversa paciente face ao tweet incendiário e a defender que as pessoas têm o direito de mudar de opinião, de amadurecer, de pedir perdão e de serem readmitidas à mesa comum.
 
Para onde vai uma sociedade que eliminou a possibilidade de mudar de vida? Vai diretamente para o abismo da hipocrisia, do medo do que dirão e da solidão mais absoluta. É hora de reivindicar, começando pelas nossas próprias comunidades e fóruns digitais, a pedagogia do perdão. Porque uma sociedade — e uma Igreja — que não sabe perdoar é, simplesmente, um lugar inabitável.
 
Jesús Lozano Pino, em Fé Adulta

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