Frei Cerqueira Gonçalves, franciscano (1930–2026), «foi uma das figuras maiores da filosofia portuguesa contemporânea»

Faleceu a 22 de agosto de 2026 Joaquim Cerqueira Gonçalves. Nascido em Gaifar, Ponte de Lima, em 1930, frade franciscano e sacerdote, foi uma das figuras maiores da filosofia portuguesa contemporânea.

Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinou desde 1963 e se doutorou com uma investigação sobre São Boaventura, foi fundador e primeiro diretor do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. A sua atividade académica estendeu-se igualmente à Universidade Católica Portuguesa, onde desempenhou importantes funções de ensino e direção.

Mas dizer isto é apenas traçar o contorno institucional de uma vida que foi muito mais do que uma carreira universitária.

A sua filosofia nasceu de uma profunda matriz franciscana e soube acolher, num pensamento de extraordinária amplitude, a tradição medieval, a metafísica, a antropologia, a educação, a ecologia, a cultura e a questão religiosa. Em livros como «Homem e Mundo em São Boaventura», «Fazer Filosofia: Como e Onde?», «Em Louvor da Vida e da Morte» e, sobretudo, nos três volumes de «Itinerâncias da Escrita», deixou uma obra que permanece como testemunho de uma filosofia entendida não como especialização do saber, mas como modo de interrogar e habitar o mundo.

Foi, porém, para muitos de nós, algo mais difícil de definir e, por isso mesmo, mais importante: um mestre.

Um mestre não apenas pelo que ensinava, mas pela maneira como ensinava a pensar. Pela exigência. Pela liberdade. Pela atenção ao outro. Pela capacidade de abrir caminhos onde julgávamos encontrar apenas limites. E também por aquela rara qualidade dos verdadeiros mestres: fazerem-nos sentir que pensar é uma responsabilidade, mas também uma forma de liberdade.

No meu caso, a sua presença pertence à minha própria formação filosófica e humana. As suas palavras, as suas perguntas, o seu modo de compreender a filosofia e a sua amizade acompanham uma parte essencial do meu percurso. Há mestres que nos ensinam conhecimentos; outros ensinam-nos, mais profundamente, a procurar. Joaquim Cerqueira Gonçalves pertence, para mim, a estes últimos.

Por isso, hoje não quero apenas recordar o Professor, o Filósofo, o Franciscano, o universitário eminente. Quero agradecer o Mestre e o Amigo.

A morte leva-nos a presença de uma pessoa. Não leva, porém, aquilo que nela recebemos e que passou a fazer parte de nós.

Obrigado, Mestre. Obrigado, meu Amigo.

Que a sua memória permaneça — não apenas na sua obra, que continuará a interpelar-nos, mas também naqueles que tiveram a graça de aprender com ele e de o conhecer de perto.

Manuel Cândido Pimentel, professor na Universidade Católica Portuguesa, em Facebook

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