O perigo de pensar em voz alta e, pior ainda, escrever para o público

Há quem pratique desportos radicais: saltar de paraquedas, escalar montanhas, mergulhar com tubarões.

Eu conheço outro, talvez mais perigoso: pensar em voz alta e, pior ainda, escrever.

Escrever é arriscar. É pegar no que anda cá dentro — pensamentos, dúvidas, inquietações, alegrias, disparates ocasionais — e dar-lhes palavras. Enquanto estão na cabeça, ainda podemos negar tudo. Depois de escritos… ficaram provas.
E se ainda por cima partilhamos, começa a aventura.
Há quem leia para compreender.
Há quem leia para aprender.
Há quem leia porque gosta de nós.
E há quem leia munido de lupa, esquadro, fita métrica e, se possível, um pequeno tribunal portátil.
Uns querem perceber-nos. Outros querem avaliar-nos. Alguns querem classificar-nos, arrumar-nos numa gaveta e colocar uma etiqueta: “Já percebi este.” Normalmente não perceberam coisa nenhuma, mas ficam muito mais descansados.

Escrever é aceitar esse risco. Quem pensa alto sujeita-se ao escrutínio de quem nos conhece e também de quem apenas conhece meia dúzia de frases nossas e, mesmo assim, já concluiu a biografia inteira.
Mas há uma coisa maravilhosa na escrita: é profundamente libertadora.

Escrever põe ordem no barulho. Obriga-nos a dar nome ao que sentimos. Às vezes começamos uma página convencidos de uma coisa e acabamos a descobrir outra. Há pensamentos que, dentro da cabeça, parecem gigantes; depois de passarem para o papel percebemos que afinal eram apenas muito barulhentos.

Por isso escrevo. Anoto. Aponto. Risco. Volto atrás. Penso alto.

Não porque tenha sempre alguma coisa extraordinária para dizer. Muito menos porque tenha sempre razão. Mas porque escrever também é uma maneira de me compreender, de me rir de mim próprio, de relativizar algumas coisas e de não deixar outras apodrecer cá dentro.

E fica o desafio:
Já experimentaste escrever e partilhar?
É um exercício de altíssimo risco. Podes ser interpretado, mal interpretado, avaliado e até arrumado numa gaveta onde nunca imaginaste caber.
Mas arrisca.
Eu, pelo menos, gostava de te ler. Talvez aprendesse contigo. Talvez discordasse. Talvez me fizesses pensar. Talvez até não aprendesse nada.

Mas teria muito mais interesse em conhecer aquilo que tiveste coragem de escrever do que aquilo que os outros decidiram concluir sobre ti.

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