«Quando Maria de Nazaré e a sua prima Isabel se encontram, não apenas partilham o que lhes aconteceu: juntas descobrem como lê-lo a partir de Deus»
A festa da Assunção de Maria é talvez uma das festas mais populares relacionadas com Maria e na qual confluem séculos de reflexão teológica.
Hoje somos novamente convidados e convidadas a perguntar-nos: como podemos falar hoje de Maria sem reproduzir estereótipos patriarcais e sexistas? Como atualizar a sua figura de modo a podermos reconhecê-la como companheira de caminho e irmã de vida? Como podemos aproximar-nos da sua memória e encontrar nela o Deus que se lhe revelou, que a fortaleceu e a acompanhou?
Ler com estas perguntas o texto da Visitação (Lc 1, 39-56) que a liturgia nos propõe pode ser, talvez, um começo, ou uma forma de continuar a fazer justiça a esta mulher tão relevante para a nossa história de fé.
Coloquemo-nos ao lado de Maria que se levantou e pôs a caminho. Sabemos o que isso significava?
Lucas começa o relato afirmando que Maria se levantou e partiu em direção à região montanhosa, para uma localidade de Judá. A brevidade da sua descrição, quase uma elipse cinematográfica, talvez nos tenha impedido de parar para pensar no que significava para uma mulher grávida do século I viajar de Nazaré até Ain Karem, local onde tradicionalmente se situa a residência de Isabel.
A decisão de Maria de acompanhar Isabel nos seus últimos meses de gravidez implicava percorrer cerca de 130 a 150 km, dependendo do percurso escolhido. Provavelmente teve de o fazer integrando um grupo de familiares, vizinhos ou peregrinos, uma vez que a viagem podia durar entre cinco e sete dias e os caminhos não estavam isentos de perigos. Além disso, a viagem exigia dispor de alguns recursos para fazer face às despesas de alimentação e alojamento. Podemos imaginar que José talvez se tenha esforçado por arranjar algum trabalho a mais do que o habitual e que Maria tenha conseguido vender alguns produtos que cultivavam na sua horta, reunindo assim o necessário para empreender a viagem.
Uma empreitada como esta não era fácil de assumir para um casal pobre da Galileia. No entanto, o carinho que sustentava os laços familiares e a solidariedade que tornava possível a sobrevivência num mundo em que o acesso aos bens era muito limitado para a maioria da população justificavam o seu esforço.
Por trás das poucas palavras de Lucas, podemos imaginar Maria a tomar uma decisão que implicava empreender uma longa viagem, enfrentar riscos e colocar os seus recursos ao serviço de outra mulher. No início, a solidariedade feminina; no horizonte, um encontro que abrirá caminho a uma experiência reveladora de um Deus que escuta, sustenta e acompanha.
Um encontro de solidariedade feminina que nomeia Deus
O relato de Lucas situa-nos, em seguida, num espaço feminino onde duas mulheres grávidas se encontram. Uma é jovem e acaba de receber uma chamada que ainda não compreende totalmente. A outra é mais velha e também viveu algo que parecia impossível.
As palavras com que Isabel recebe Maria situam-nos na longa genealogia de mulheres bíblicas que receberam a sua gravidez como uma experiência de encontro salvador com Deus. Para ela, receber Maria é mais do que um gesto de hospitalidade; é a confirmação de que as mulheres são também destinatárias da Boa Nova, de que o seu amor e bondade as abraçam e as tornam dignas de receber a sua palavra e de encarnar o seu sonho de uma vida plena para todas e todos.
Para além da historicidade do relato, a cena descreve a nova realidade que se vai encarnar na vida e na ação de Jesus de Nazaré.
Tal como Jesus se encontrará com João no deserto e, nesse encontro, começará a discernir e a assumir a missão para a qual o seu Abba o convoca, Maria vai ao encontro de Isabel. E ali, juntas, nomeiam uma presença que as habita, as transborda e as convida a reconhecer que algo novo está a acontecer nas suas vidas. Juntas interpretam o que Deus está a fazer nelas e transformam-no numa narrativa profética e numa memória subversiva que anuncia o que todo o Evangelho irá proclamar.
Ler a vida a partir de Deus
Quando Maria e Isabel se encontram, não apenas partilham o que lhes aconteceu: juntas descobrem como lê-lo a partir de Deus e transformam sua experiência em palavra, esperança e profecia.
Perante as palavras de Isabel, Maria responde incorporando a sua experiência partilhada num cântico que descreve a ação salvadora de Deus através de atos concretos e, ao mesmo tempo, transformadores. Para ela, a sua maternidade e tudo o que isso implica não são um facto isolado nem extraordinário, mas fazem parte do sonho de Deus para a Humanidade.
Como Jesus fará mais tarde na sinagoga de Nazaré (Lc 4), Maria nomeia os sinais que anunciam a ação de um Deus que rompe com a injustiça, restaura a equidade e resgata de qualquer naufrágio aqueles que ficaram à margem.
Maria visita Isabel e Deus visita as duas no quotidiano de suas vidas, nos recantos de seus anseios, nos esforços de construir suas vidas com honestidade e confiança. Visita-as e convida-as a nomear, junto com ele, o que está acontecendo em suas vidas.
Carme Soto Varela, em Fé Adulta
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