Quando a sociedade deixa de respeitar quem educa. Artigo de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador
A educação vive uma das suas contradições mais profundas. Nunca se falou tanto sobre a importância da escola, da formação integral, das competências socioemocionais, da inovação pedagógica e da preparação das novas gerações para os desafios do futuro. Entretanto, ao mesmo tempo em que se exige cada vez mais da escola e do professor, observa-se uma preocupante perda de respeito pela profissão docente. E essa contradição precisa ser enfrentada com seriedade.
O professor ocupa um lugar fundamental na construção de uma sociedade. A sua função não se limita à transmissão de conteúdo. Ensinar significa formar pessoas, desenvolver o pensamento crítico, estabelecer limites, provocar perguntas, apresentar diferentes perspetivas e ajudar o estudante a compreender que viver em sociedade exige responsabilidade, respeito e compromisso com o outro.
Entretanto, para exercer essa função, o professor precisa de autoridade. É importante distinguir autoridade de autoritarismo. O autoritarismo impõe pelo medo; a autoridade pedagógica nasce do conhecimento, da experiência, da responsabilidade e da confiança. Um professor que exerce sua autoridade não pretende dominar o estudante, mas criar condições para que ele aprenda. Estabelecer limites, corrigir comportamentos inadequados e exigir compromisso também são formas de educar.
O problema surge quando qualquer limite passa a ser interpretado como agressão, qualquer correção como perseguição e qualquer exigência como excesso de autoridade. Em determinados contextos, o professor passa a ocupar uma posição extremamente vulnerável: precisa de ensinar, motivar, acolher, avaliar, mediar conflitos, acompanhar dificuldades, utilizar tecnologias, desenvolver projetos e responder às demandas da escola e das famílias, mas, muitas vezes, não recebe o reconhecimento necessário para exercer a sua função.
Essa realidade produz uma inversão perigosa. O estudante, que deveria compreender a escola como espaço de formação, pode passar a olhá-la como um serviço que tem de atender permanentemente às suas expectativas. O professor deixa de ser reconhecido como uma autoridade pedagógica e passa a ser tratado como alguém que precisa de justificar constantemente as suas decisões.
Não se trata de defender uma escola rígida ou de retornar a modelos educacionais baseados no medo. Pelo contrário. Uma educação verdadeiramente democrática precisa respeitar o estudante, a sua individualidade, a sua história e a sua voz. Mas democracia não significa ausência de limites. Liberdade não significa fazer tudo o que se deseja. Os Direitos precisam de caminhar acompanhados de responsabilidades.
É preciso recuperar uma palavra que parece simples, mas que se tornou extremamente necessária: respeito.
Respeito pelo professor. Respeito pelos colegas. Respeito pelos funcionários. Respeito pelo espaço escolar. Respeito pelo conhecimento. Respeito pelas diferenças. Respeito pelo próprio processo de aprendizagem.
A escola não pode assumir sozinha a responsabilidade por reconstruir essa cultura. A família possui um papel indispensável. Quando uma criança ou adolescente aprende em casa que o professor é alguém que deve ser respeitado, mesmo quando há discordâncias, estabelece-se uma importante base para a convivência escolar. Da mesma forma, quando a família desautoriza sistematicamente o professor diante do estudante, a autoridade pedagógica se fragiliza e o conflito tende a crescer.
Também é necessário questionar a maneira como a própria sociedade trata a profissão docente. Não podemos exigir professores altamente qualificados, emocionalmente preparados, tecnologicamente atualizados e capazes de lidar com realidades cada vez mais complexas sem oferecer condições dignas de trabalho, reconhecimento profissional e respeito social.
A desvalorização do professor não acontece apenas quando se fala de salário. Ela também aparece quando o seu conhecimento profissional é desconsiderado, quando as suas decisões pedagógicas são constantemente questionadas sem diálogo, quando a sua autoridade é enfraquecida ou quando situações de desrespeito são naturalizadas.
Há, portanto, uma dimensão ética nessa discussão.
Que educação queremos oferecer às novas gerações se aqueles que educam não são tratados com respeito?
Essa pergunta deveria provocar toda a sociedade.
Não é possível ensinar cidadania num ambiente onde a autoridade responsável pela formação é constantemente deslegitimada.
Não é possível falar de empatia enquanto se tolera a humilhação de professores.
Não é possível defender uma cultura de paz quando o conflito é resolvido pela agressividade.
Não é possível formar cidadãos responsáveis quando responsabilidade é apresentada apenas como uma exigência dirigida aos outros.
O professor também precisa de reconhecer a sua responsabilidade. Valorizar a profissão não significa colocar o docente acima de críticas. Os professores devem estar abertos ao diálogo, à avaliação, à formação permanente e à revisão de suas práticas. A autoridade docente precisa de ser construída diariamente pela competência, pela coerência e pelo compromisso ético.
Mas uma coisa é questionar o professor com respeito; outra, completamente diferente, é desrespeitá-lo.
A escola precisa de recuperar a capacidade de dizer “não” quando o “não” for necessário. Precisa de ensinar que existem consequências para as nossas escolhas. Precisa de mostrar que convivência pressupõe limites. E precisa fazer isso sem abandonar o diálogo, a escuta e a compreensão.
Talvez uma das maiores crises da educação contemporânea não seja simplesmente uma crise de aprendizagem. Seja uma crise de reconhecimento.
Reconhecimento de que o professor é um profissional. Reconhecimento de que ensinar exige autoridade. Reconhecimento de que aprender exige esforço. Reconhecimento de que conviver exige limites. Reconhecimento de que direitos e deveres são inseparáveis.
Quando uma sociedade deixa de respeitar quem educa, ela não está apenas a desvalorizar uma profissão. Está a enfraquecer uma das instituições responsáveis pela transmissão do conhecimento, da cultura, da ética e da própria possibilidade de convivência social.
Por isso, defender o professor não significa colocá-lo contra o estudante. Significa defender uma relação educativa na qual ambos sejam respeitados. O professor não tem de ser temido. Precisa de ser respeitado. O estudante não tem de ser silenciado. Precisa de aprender a dialogar. A família não tem de escolher entre filho e escola. Precisa de construir uma parceria com ela. E a sociedade não pode continuar a exigir uma educação transformadora enquanto trata o educador como alguém descartável.
No fim de contas, a pergunta talvez seja maior do que aquela que fazemos sobre o futuro da escola. Precisamos de perguntar: que tipo de sociedade estamos a construir quando queremos que o professor ensine respeito, responsabilidade e cidadania, mas não conseguimos oferecer-lhe o respeito, a responsabilidade e a dignidade que a sua profissão merece?
A resposta a esta pergunta determinará, em grande medida, não apenas o futuro da educação, mas o futuro da própria sociedade.
Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e historiador, em Unisinos
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