Há gestos que a vida guarda em segredo durante anos, à espera do momento certo para os devolver. Guarda-os como quem guarda sementes numa gaveta escura, paradas, silenciosas, mas vivas, até que um dia, sem aviso, brotam exactamente onde foram plantadas. Esta é uma dessas histórias.
O avô Manuel e a avó Arminda viviam numa casa simples, sem luxos, sem nada que se pudesse exibir. Mas eram gente respeitada por toda a comunidade, não por posses, mas pelo bem que faziam e pela vida honesta que levavam.
Foi ao colo deles que a neta Rita cresceu. Ali aprendeu o que talvez nenhuma escola consiga ensinar. Aprendeu que amar é cuidar. Que estar presente é uma forma de amar. Que os grandes gestos começam quase sempre nas pequenas coisas.
Mas o tempo foi passando, como sempre passa. As pernas já não subiam os degraus com a mesma força. As mãos começaram a tremer. E foi então que a Rita, já crescida, abriu a porta da sua casa e disse, sem precisar de dizer muito: "Agora sou eu que cuido de vocês."
Não foi por obrigação. Foi gratidão a transformar-se em gesto: dar banho a quem lhe deu banho em pequena, arranjar a cama a quem aqueceu a sua infância inteira, sentar-se ao lado a segurar mãos enrugadas como quem segura, finalmente, as próprias raízes.
A avó Arminda partiu primeiro, com a Rita ao lado, a mesma que ela um dia embalara ao colo. Pouco tempo depois partiu o avô Manuel, já sem muita vontade de ficar sem ela. Mas partiram os dois, tenho a certeza, em paz e cheios de amor. Porque tinham deixado no mundo alguém capaz de continuar o amor que semearam.
Esta história não é para enfeitar. É para lembrar.
Se ainda tens os teus avós, vai vê-los. Ouve outra vez aquela história que já conheces de cor. Deixa que te mostrem, pela décima vez, a mesma fotografia.
Não tenhas pressa.
Porque um dia vais querer ouvir tudo outra vez.
E já não haverá voz para contar.
Um dia vais compreender, como a Rita compreendeu, que cuidar de quem cuidou de nós não é um peso. É uma das formas mais bonitas de dizer obrigado.
Padre João Torres, presbítero da diocese da Guarda, em Facebook
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