Do trabalho como construção do mundo ao trabalho na vinha de Deus, ai de quem exclui; triste de quem se exclui

«Do trabalho como construção do mundo ao trabalho na vinha de Deus, a maior participação de todos é um critério fundamental. Ai de quem exclui; triste de quem se exclui!» (Padre Vitor Gonçalves)

Esta máxima leva-nos ao núcleo do magistério social e pastoral da Igreja, atualizado pelo Papa Francisco. Ela desenha um fio condutor que une as nossas aspirações terrenas à nossa vocação transcendental. E coloca a inclusão não como uma concessão de caridade, mas como uma exigência de justiça e um pilar de comunhão.
 
1. "Ai de quem exclui": A denúncia da economia do descarte (Evangelii Gaudium)
Na sua exortação apostólica programática A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), o Papa Francisco lança um aviso severo: «Não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Essa economia mata" (EG 53). Quando a frase inicial profere "Ai de quem exclui", ela ecoa esta denúncia contra as estruturas económicas e eclesiais que tratam os seres humanos como bens de consumo descartáveis.
 
No trabalho visto como construção do mundo, a exclusão rouba ao trabalhador o direito de ser cocriador com Deus. O desemprego e a precarização não são apenas crises financeiras; são amputações da dignidade humana. Da mesma forma, na vinha de Deus (a comunidade de fé), clericalismos ou alfândegas pastorais que selecionam quem pode ou não servir ferem a natureza da Igreja, que é, por definição, a casa de todos.
 
2. "Triste de quem se exclui": O perigo do isolamento e do individualismo (Fratelli tutti)
Se o ato de excluir os outros é uma injustiça social, o ato de se autoexcluir é uma tragédia existencial. A encíclica Todos irmãos (Fratelli tutti) alerta para as "sombras de um mundo fechado", onde o individualismo radical nos convence de que não precisamos uns dos outros. O texto lembra que "ninguém se salva sozinho" (FT 32).
 
O "triste de quem se exclui" traduz com precisão a melancolia da indiferença e do egoísmo. Quem se recusa a deitar a mão à obra na construção do bem comum, seja por soberba ou por desânimo, acaba por viver numa bolha existencial. Na vinha do Senhor, o cansaço pastoral ou o medo do conflito levam por vezes ao isolamento. Contudo, a santidade e a realização humana dão-se sempre na relação e na partilha.
 
3. A maior participação de todos: O modelo do poliedro
Como responder a este duplo desafio? O Papa Francisco propõe uma imagem geométrica rica: o poliedro. Ao contrário da esfera, onde todas as pontas são iguais e as particularidades se esbatem, o poliedro reflete a convergência de todas as parcialidades que nele conservam a sua originalidade (FT 215).
 
A maior participação de todos exige um modelo social e eclesial poliédrico, onde:
 
- O economista e o operário, o teólogo e o leigo mais simples trabalham lado a lado.
 
- Ninguém é considerado supérfluo ou inútil.
 
- Os dons individuais deixam de ser propriedade privada e passam a estar ao serviço da vinha coletiva.
 
Conclusão: Um convite à ação artesanal
A construção de um mundo justo e o cultivo da vinha de Deus não se fazem com decretos distantes, mas através de um "trabalho artesanal" de proximidade (FT 217). A inclusão radical proposta na frase inicial convoca-nos a sair da nossa zona de conforto. Obriga-nos a derrubar os muros que excluem e a abrir as portas aos que se afastaram. Só quando compreendermos que a mesa comum exige o lugar de cada irmão preenchido é que poderemos, verdadeiramente, experimentar a alegria do Evangelho e a plenitude da fraternidade.

Fernando Félix Ferreira

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