Na Bíblia, há mais de 200 referências ao substantivo PRÓXIMO. E deixa-nos uma advertência: «Cuidado: Jesus pode responder-te com o nome de alguém de quem não queres aproximar-te»

Na Bíblia há mais de 200 referências para o substantivo PRÓXIMO, aquele que Jesus, nos evangelhos, manda amar como a nós mesmos.

Organizámos 60 passagens, livro por livro.
 
Antigo Testamento
1. Génesis 4,9-10 — Caim pergunta: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?»
→ A primeira grande pergunta bíblica sobre a responsabilidade pelo outro.
 
2. Êxodo 20,16 — «Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.»
→ O próximo tem direito à verdade.
 
3. Êxodo 20,17 — «Não cobiçarás a casa do teu próximo…»
→ O próximo não pode ser reduzido àquilo que possui.
 
4. Êxodo 22,25-26 — Regras sobre o empréstimo e o respeito pelo pobre.
→ A relação com o outro deve proteger sobretudo quem está vulnerável.
 
5. Êxodo 23,4-5 — Devolver o animal perdido do inimigo e ajudá-lo quando está em dificuldade.
→ O próximo pode até ser um inimigo.
 
6. Levítico 19,11 — Não roubar, não mentir, não enganar o próximo.
 
7. Levítico 19,13 — Não explorar nem reter injustamente o salário do próximo.
 
8. Levítico 19,15 — Não favorecer nem o pobre nem o poderoso em julgamento: «julgarás o teu próximo com justiça».
 
9. Levítico 19,16 — Não difamar nem atentar contra a vida do próximo.
 
10. Levítico 19,17 — «Não odiarás o teu irmão no teu coração.»
→ Em vez de alimentar ressentimento, deve-se corrigir fraternalmente.
 
11. Levítico 19,18 — «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
→ O texto fundamental. E o contexto é extraordinário: está entre a recusa do ódio e da vingança.
 
12. Levítico 19,33-34 — O estrangeiro que vive entre o povo deve ser tratado como um compatriota: «amá-lo-ás como a ti mesmo».
→ Aqui o círculo do próximo começa a ultrapassar as fronteiras do próprio povo.
 
13. Deuteronómio 5,20 — Não levantar falso testemunho contra o próximo.
 
14. Deuteronómio 5,21 — Não cobiçar a mulher, a casa ou os bens do próximo.
 
15. Deuteronómio 15,7-11 — Não fechar a mão ao irmão pobre.
→ O amor ao próximo passa pela partilha concreta.
 
16. Deuteronómio 22,1-4 — Não ignorar o animal ou o bem perdido do irmão.
→ A responsabilidade pelo outro inclui pequenas coisas.
 
17. Rute 2,11-12 — Booz acolhe Rute, estrangeira e viúva.
→ A proximidade nasce também da hospitalidade.
 
18. 1 Samuel 18,1-4 — Jónatas e David tornam-se profundamente amigos.
→ A Bíblia também apresenta a amizade como forma de proximidade e aliança.
 
19. 1 Samuel 24,17-20 — David poupa Saul quando poderia matá-lo.
→ O inimigo deixa de ser apenas alguém a eliminar.
 
20. 2 Samuel 9,1-13 — David procura fazer bem a Mefiboset, descendente de Jónatas.
→ A bondade pode atravessar gerações.
 
21. Provérbios 3,27-28 — Não negar um benefício a quem dele necessita quando está ao alcance da nossa mão.
 
22. Provérbios 11,12 — Quem despreza o próximo é insensato; quem tem discernimento guarda silêncio.
 
23. Provérbios 14,21 — Feliz quem se compadece do pobre.
 
24. Provérbios 17,17 — «Em todo o tempo ama o amigo.»
 
25. Provérbios 18,24 — Há amigo mais chegado que um irmão.
 
26. Provérbios 24,28-29 — Não levantar falso testemunho nem pagar mal com mal.
 
27. Provérbios 25,21-22 — Dar pão ao inimigo com fome e água ao inimigo com sede.
→ Uma passagem surpreendentemente próxima do ensinamento de Jesus.
 
28. Provérbios 31,8-9 — Falar em defesa de quem não tem voz e julgar com justiça os pobres e necessitados.
 
29. Ezequiel 18,5-9 — O homem justo não oprime, não rouba, dá pão ao faminto e veste o nu.
→ A justiça diante de Deus mede-se também pela relação com o outro.
 
Novo Testamento
30. Mateus 5,21-24 — Não basta não matar: é preciso reconciliar-se com o irmão.
→ Jesus leva o mandamento para o território do coração.
 
31. Mateus 5,38-42 — Não responder à violência com violência.
 
32. Mateus 5,43-48 — «Amai os vossos inimigos.»
→ O amor ultrapassa o círculo daqueles que nos são próximos.
 
33. Mateus 7,12 — A chamada Regra de Ouro: fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem.
→ «Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam…»
 
34. Mateus 18,15-17 — Como corrigir um irmão que erra.
→ Amar o próximo também significa não desistir dele.
 
35. Mateus 19,16-19 — Jesus inclui «amarás o teu próximo como a ti mesmo» na resposta ao jovem rico.
 
36. Mateus 22,34-40 — Os dois grandes mandamentos: amar Deus e amar o próximo.
→ Jesus coloca-os no centro da Lei.
 
37. Mateus 25,31-46 — Dar de comer, de beber, acolher, vestir, visitar.
→ O próximo necessitado torna-se lugar de encontro com o próprio Cristo.
 
38. Marcos 9,33-37 — «Quem quiser ser o primeiro seja o último de todos e o servo de todos.»
→ A proximidade cristã passa pelo serviço.
 
39. Marcos 10,42-45 — «Quem quiser ser grande entre vós será vosso servo.»
→ Autoridade e serviço ficam unidos.
 
40. Marcos 12,28-34 — «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
→ O escriba reconhece que este amor vale mais do que holocaustos e sacrifícios.
 
41. Lucas 6,27-36 — Amar os inimigos, fazer bem aos que nos odeiam, abençoar os que nos amaldiçoam.
 
42. Lucas 6,31 — «Como quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós também.»
→ A Regra de Ouro.
 
43. Lucas 10,25-28 — «Que devo fazer para receber em herança a vida eterna?»
→ Jesus conduz o interlocutor ao amor de Deus e do próximo.
 
44. Lucas 10,29 — «E quem é o meu próximo?»
→ A pergunta que provoca toda a parábola.
 
45. Lucas 10,30-37 — O Bom Samaritano.
→ Para mim, esta é a passagem-chave de toda esta pesquisa.
Porque Jesus não acaba por responder: «O teu próximo é este ou aquele.»
Pergunta:
«Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem?»
E o interlocutor responde: «O que usou de misericórdia para com ele.»
Ou seja: o próximo não é apenas alguém que encontramos; é alguém de quem nos aproximamos.
 
46. Lucas 19,1-10 — Zaqueu.
→ Jesus aproxima-se de alguém que a sociedade afastara.
 
47. Lucas 22,24-27 — «Eu estou no meio de vós como aquele que serve.»
→ A proximidade cristã tem a forma do serviço.
 
48. João 13,1-15 — Jesus lava os pés dos discípulos.
→ A proximidade ganha uma imagem física: ajoelhar-se diante do outro.
 
49. João 13,12-15 — «Dei-vos o exemplo.»
→ O discípulo deve fazer aos outros aquilo que Jesus fez.
 
50. João 13,34-35 — «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.»
→ Aqui acontece algo decisivo: Jesus já não diz apenas «como a ti mesmo», mas «como Eu vos amei».
 
51. João 15,12-13 — «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros.»
→ O amor chega ao dom da própria vida.
 
São Paulo
52. Romanos 12,9-18 — «Amai-vos uns aos outros com amor fraterno»; «não pagueis a ninguém o mal com o mal»; «se for possível, vivei em paz com todos».
 
53. Romanos 13,8-10 — «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
→ Paulo diz explicitamente: «O amor é o pleno cumprimento da Lei.»
 
54. Romanos 15,1-2 — «Cada um de nós procure agradar ao próximo no que é bom, para edificação.»
→ Não se trata de agradar por vaidade, mas de ajudar o outro a crescer.
 
55. 1 Coríntios 8,9-13 — A liberdade pessoal deve ser limitada pelo cuidado com a consciência do outro.
→ O meu comportamento não deve fazer cair o meu irmão.
 
56. Gálatas 5,13-14 — «Servi-vos uns aos outros pela caridade.»
→ «Toda a Lei se cumpre nesta única palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
 
57. Gálatas 6,1-2 — Corrigir o irmão com mansidão e «carregai as cargas uns dos outros».
 
58. Filipenses 2,3-5 — Não procurar apenas os próprios interesses, mas também os dos outros.
→ «Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus.»
 
Outras Cartas
59. Tiago 2,1-9 — Não fazer distinção entre o rico e o pobre na assembleia.
→ Tiago chama ao amor do próximo «lei régia».
 
60. 1 João 3,16-18; 4,19-21 — Amar o irmão não apenas «com palavras e com a língua», mas com obras e em verdade; quem diz amar Deus e odeia o irmão contradiz aquilo que afirma.
 
Uma descoberta
Olhando para estas 60 passagens, percebe-se uma espécie de movimento em espiral:
 
Caim: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?»
 
Êxodo: «Não farás mal ao teu próximo.»
 
Levítico: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
 
Levítico 19,34: «Amarás o estrangeiro como a ti mesmo.»
 
Provérbios: «Dá pão ao teu inimigo.»
 
Jesus: «Amai os vossos inimigos.»
 
Bom Samaritano: «Torna-te próximo daquele que precisa de ti.»
 
João: «Amai-vos como Eu vos amei.»
 
1 João: «Não amemos com palavras, mas com obras e em verdade.»
 
E isto permite uma formulação que me parece muito poderosa:
 
Na Bíblia, Deus vai alargando a palavra “próximo” até ela já não caber num mapa.
 
Primeiro é o vizinho. Depois o membro do povo. Depois o pobre. Depois o estrangeiro. Depois o inimigo. E, finalmente, qualquer ser humano ferido que atravesse o nosso caminho.
 
E há ainda uma coisa particularmente fecunda para a reflexão: Jesus não pergunta ao doutor da Lei «Quem merece ser teu próximo?». Pergunta-lhe, através da parábola, quem se comportou como próximo.
 
Talvez a grande questão cristã não seja:
«Quem é o meu próximo?»
mas:
«De quem estou eu disposto a aproximar-me?»
 
Isso muda tudo.

Na Bíblia, a grandeza de uma pessoa não se mede pela distância a que está dos outros, mas pela proximidade que é capaz de criar.
 
E a Bíblia deixa-nos uma advertência: «Cuidado: Jesus pode responder-te com o nome de alguém de quem não queres aproximar-te.»
Fernando Generoso Para Todos

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