O Avental de Jesus e uma reflexão sobre os títulos que a Igreja dá e os títulos que o Evangelho reconhece
«Na Igreja, só os
parolos se deslumbram com títulos; os discípulos deslumbram-se com o avental de
Cristo» (Elisabete Martins, de Braga)
Essa frase traz uma
reflexão profunda sobre a verdadeira identidade e vocação dos batizados,
contrastando a vaidade humana com o exemplo de Jesus. Não é uma crítica aos
títulos em si, mas à tentação de confundir o título com a identidade cristã.
O contraste entre o título e o avental é quase uma parábola.
O deslumbramento com
títulos: Refere-se à busca por status, cargos, honras e reconhecimento clerical
ou institucional. A palavra "parolo" (usada aqui no sentido de alguém
ingénuo ou que se impressiona com o que é superficial) qualifica quem foca a
sua fé na busca por poder ou prestígio visual.
O avental de Cristo:
É uma referência direta à Última Ceia. No Evangelho de João (capítulo 13), a
cena é extraordinariamente subversiva: Jesus sabe que é «Senhor e Mestre» e,
precisamente por isso, levanta-se da mesa. Não deixa de ser Senhor;
mostra o que significa ser Senhor. Toma uma toalha, ata-a à cintura e começa a
lavar os pés dos discípulos. Pedro escandaliza-se porque, aos seus olhos, os
lugares estão trocados. Jesus responde-lhe com um gesto que é simultaneamente
ensinamento e revelação de Deus. O avental simboliza o serviço, a humildade, a
entrega e a liderança servidora.
A essência da
mensagem é que, no Cristianismo, a grandeza não se mede pelo topo da
hierarquia, mas pela capacidade de descer para servir os outros. Jesus não
manda simplesmente servir; primeiro serve Ele. O avental não é um adereço
da humildade. É a roupa de trabalho de quem se aproxima dos pés sujos dos
outros. O verdadeiro discípulo não procura honras para si, mas comove-se e
inspira-se no ato de amor supremo de Cristo, que se fez servo de todos.
Uma reflexão que diz
respeito a nós
Quando pensamos na igreja, em quê reparamos primeiro? Nos títulos: monsenhor, cónego, bispo, padre, doutor, chefe de catequistas, chefe de acólitos, membro de uma confraria, etc., etc.
O que se sabe é que o
título remete para cargo → poder → prestígio → distância.
Ou procuramos outra
coisa: o avental de Jesus?
E é estranho o
avental. Não brilha. Não tem galões, insígnias nem pedras preciosas. Não se
pendura numa parede. Não confere estatuto. Pelo contrário: lembra trabalho,
poeira, mãos ocupadas e joelhos dobrados.
E Avental remete para
serviço → proximidade → entrega → comunhão.
Na verdade, foi
precisamente esse o traje que Jesus escolheu na noite em que tudo estava
prestes a mudar. E mostrou-nos outra coisa: a verdadeira autoridade começa
quando nos colocamos aos pés de alguém.
Não é uma metáfora
bonita. É uma revolução.
Jesus não deixou aos
seus discípulos um trono. Deixou-lhes uma bacia e uma toalha. Não lhes ensinou
a conquistar lugares, mas a ocupar o último lugar. Não lhes disse para serem
servidos, mas para servir. E, como recordou o Papa Francisco, se o Senhor e
Mestre lava os pés, então «o mais importante» deve estar ao serviço dos outros.
Talvez seja esta uma
das maiores tentações da Igreja: confundir a dignidade do serviço com a
dignidade do poder. Quando o título começa a valer mais do que a pessoa, quando
o cargo começa a alimentar o ego, quando o ministério se transforma em
propriedade pessoal, o avental cai ao chão.
Francisco chamou a
isso clericalismo e advertiu que ninguém está completamente imune: nem padres,
nem leigos, nem agentes pastorais. Também podemos transformar um carisma num
território, uma responsabilidade num pedestal, uma função numa pequena corte.
E, no entanto, basta
olhar para os santos.
Francisco de Assis
aproximou-se dos pobres e dos leprosos. Teresa de Calcutá ajoelhou-se diante
dos mais abandonados. Comboni gastou a vida pelos povos africanos, sonhando uma
missão em que a própria África fosse protagonista. Eles não procuraram parecer
grandes. Procuraram tornar grande a vida dos outros.
Porque é aqui que o
Evangelho nos desconcerta: Deus não se revela apenas no alto. Revela-se também
— e talvez sobretudo — ajoelhado aos nossos pés.
Por isso, o avental
não é a roupa de quem perdeu importância. É a verdadeira insígnia de quem
compreendeu o que significa ser discípulo.
Um título pode dizer
o lugar que ocupamos na Igreja.
O avental revela o lugar que ocupamos no coração de Cristo.
E talvez um dia,
quando todas as nossas distinções tiverem desaparecido, quando já não houver
galões, cargos, títulos ou aplausos, permaneça apenas uma pergunta:
Quantos pés lavámos?
Quantas feridas tocámos?
Quantas vidas ajudámos a levantar?
Nesse dia, talvez
descubramos que o avental não era o símbolo da nossa pequenez.
Era a nossa
verdadeira autoridade.
Quando pensamos na igreja, em quê reparamos primeiro? Nos títulos: monsenhor, cónego, bispo, padre, doutor, chefe de catequistas, chefe de acólitos, membro de uma confraria, etc., etc.
O avental revela o lugar que ocupamos no coração de Cristo.
Quantas feridas tocámos?
Quantas vidas ajudámos a levantar?
Talvez a pergunta mais radical para um cristão não seja:
«Que título tenho na Igreja?»
Mas:
«Diante de quem estou disposto a ajoelhar-me?»
Porque, na Igreja de
Jesus, a maior insígnia não se usa sobre os ombros.
Ata-se à cintura.
Não aparece nos cartões de visita,
mas é o que aparece no coração de Deus.
Fernando Generoso Para Todos
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