No capítulo 18 do seu Evangelho, São Mateus inicia uma série de discursos sobre a comunidade. É a primeira vez que se utiliza o termo «irmão» para designar os membros do grupo. O texto surge a seguir à parábola da ovelha perdida, que diz: «Assim, o vosso Pai não quer que se perca nem um destes pequeninos.»
O Evangelho adverte-nos de que não partimos de uma comunidade de perfeitos, mas sim de uma comunidade de irmãos, que reconhecem as suas limitações e precisam do apoio dos outros para superar as suas falhas. Os conflitos podem surgir a qualquer momento, mas o importante é estarmos preparados para os superar sem traumas.
Temos um problema no próprio texto, porque chegaram-nos três versões: «se o teu irmão pecar», «se o teu irmão pecar contra ti», «se o teu irmão te ofender». Nenhuma delas pode ser atribuída a Jesus. Os evangelhos colocam na boca de Jesus o que era prática da comunidade para lhe conferir um valor definitivo. À falha devia responder o perdão e a correção.
«Se o teu irmão pecar», não devemos interpretá-lo com o conceito que temos hoje de pecado. Durante os primeiros séculos, apenas se consideravam as falhas contra a comunidade. A comunidade não julgaria a situação pessoal de quem falhou, mas sim o dano que tinha causado à comunidade, que tem de zelar pelo bem dos seus membros.
A correção fraterna não é fácil. Quem corrige pode humilhar quem é corrigido ao mostrar a sua superioridade. Quem é corrigido pode rejeitar a correção por falta de humildade. De ambas as partes é necessário um grau de maturidade que não é fácil de alcançar. Hoje temos a dificuldade adicional de que não existe nem comunidade nem compromisso com os outros.
Queremos que os outros sejam perfeitos e, assim que falham, levantamos um alarido. A verdade é que nenhuma comunidade é possível sem aceitar e compreender que todos somos imperfeitos e que, mais cedo ou mais tarde, falharemos. É muito difícil alertar o outro para os seus erros sem o humilhar; é ainda mais difícil aceitar que me corrija alguém que falha tal como eu.
Partindo do princípio de que todo o pecado é um erro, o que falha é a capacidade de convencer o outro do seu erro. Uma boa correção tem de deixar claro que procuramos o bem do outro e não a nossa vaidade. Devemos demonstrar-lhe que não só ele se afasta da plenitude humana, como também impede ou dificulta que os outros caminhem em direção a esse objetivo.
«Tudo o que ligardes na terra…» Há dois domingos, o próprio Mateus colocou na boca de Jesus as mesmas palavras referidas a Pedro. O poder de decidir pertence a Pedro ou à comunidade? Só há uma solução: Pedro atua como cabeça da comunidade. No Evangelho de Mateus não se encontra uma autoridade que tome decisões.
«Onde dois estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles». Deus identifica-se com cada uma das suas criaturas, mas só se manifesta quando há comunidade. A relação de amor é o único quadro adequado para que Deus se torne presente. Trata-se de procurar exclusivamente o bem do homem.
A comunidade é a instância última das nossas relações com Deus. É absurdo pretender uma relação direta com Deus para resolver as minhas falhas. A solução final que o Evangelho nos dá manifesta a incapacidade da comunidade de convencer o outro do seu erro. Se tem de o afastar, é porque não tem a capacidade de o integrar.
Sem uma verdadeira comunidade, as propostas evangélicas carecem de sentido. Devemos reconhecer que, hoje em dia, não existe comunidade. Temos uma Igreja hierárquica que destrói os alicerces de uma comunidade. A correção fraterna só pode ocorrer entre iguais. Se for feita pelo superior, será uma imposição. Se for feita pelo inferior, será rebeldia.
Fray Marcos, em Fé Adulta
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