Ursula K. Le Guin escreveu, em 1995, Quatro Vias
para o Perdão (Four Ways to Forgiveness. A estas quatro histórias interligadas foi acrescentado, em 2017, um conto na edição expandida Five
Ways to Forgiveness (disponível aqui Ursula K. Le Guin, Cinco caminhos para o perdão)
Estas cinco histórias de ficção científica estão ambientadas no universo do Ekumen, que Le Guin
desenvolveu em livros como A Mão Esquerda das Trevas e Os Despojados.
Embora seja ficção científica, o livro fala de questões muito concretas e humanas: escravatura, racismo, colonialismo, violência, reconciliação, liberdade e perdão.
As histórias decorrem
sobretudo em dois mundos:
Embora seja ficção científica, o livro fala de questões muito concretas e humanas: escravatura, racismo, colonialismo, violência, reconciliação, liberdade e perdão.
Yeowe — um planeta
onde uma população escravizada se revolta contra os seus opressores.
Werel — um planeta
com uma sociedade profundamente marcada pela escravatura e pelas desigualdades
entre homens e mulheres.
Resumo de cada um dos
contos:
1. Traições (Betrayals)
Temas: Solidão, velhice e cura pessoal.
A história acompanha Yoss, uma mulher que escolheu viver isolada no campo após a libertação do planeta Yeowe. Ela conhece o seu vizinho, o Chefe Chief, um antigo e amargurado líder revolucionário que caiu em desgraça e foi exilado. À medida que ambos lidam com os traumas físicos e psicológicos do passado colonial e da guerra, desenvolvem uma ligação silenciosa baseada no cuidado mútuo e na aceitação mútua das suas falhas.
1. Traições (Betrayals)
Temas: Solidão, velhice e cura pessoal.
A história acompanha Yoss, uma mulher que escolheu viver isolada no campo após a libertação do planeta Yeowe. Ela conhece o seu vizinho, o Chefe Chief, um antigo e amargurado líder revolucionário que caiu em desgraça e foi exilado. À medida que ambos lidam com os traumas físicos e psicológicos do passado colonial e da guerra, desenvolvem uma ligação silenciosa baseada no cuidado mútuo e na aceitação mútua das suas falhas.
2. O Dia do Perdão
(Forgiveness Day)
Tmas: Choque cultural, preconceito e empatia.
Solly é uma Enviada do Ekumen (a federação interplanetária) enviada a um reino tradicionalista e profundamente misógino em Werel. Ela é designada para ser protegida por Tigaig, um guarda local altamente rígido e formatado pelas castas do seu planeta. Ambos partilham um desprezo mútuo até serem raptados por uma fação rebelde radical. Prisioneiros no mesmo espaço, são forçados a despir-se dos seus preconceitos ideológicos e culturais para sobreviverem juntos.
Tmas: Choque cultural, preconceito e empatia.
Solly é uma Enviada do Ekumen (a federação interplanetária) enviada a um reino tradicionalista e profundamente misógino em Werel. Ela é designada para ser protegida por Tigaig, um guarda local altamente rígido e formatado pelas castas do seu planeta. Ambos partilham um desprezo mútuo até serem raptados por uma fação rebelde radical. Prisioneiros no mesmo espaço, são forçados a despir-se dos seus preconceitos ideológicos e culturais para sobreviverem juntos.
3. Um Homem do Povo (A Man of the People)
Temas: Educação, dever e o peso das tradições.
Acompanha a vida de Havzhiva, um homem nascido num planeta pacífico e tradicionalista do Ekumen. Insatisfeito com as limitações da sua cultura natal, ele estuda e junta-se ao Ekumen como diplomata, sendo enviado para Yeowe. Lá, ele assume um papel crucial ao ajudar a organizar os direitos das mulheres e a reestruturar o sistema educativo pós-guerra, enfrentando o desafio de ajudar um povo a libertar-se não apenas dos antigos mestres, mas também dos seus próprios costumes opressivos internos.
Temas: O conceito profundo de liberdade e trauma.
É a autobiografia ficcional de Rakam, uma mulher nascida na escravidão em Werel. Ela passa por vários graus de servidão — desde a brutalidade física até à opressão psicológica disfarçada de "proteção" — até conseguir fugir para Yeowe. No entanto, ela descobre que a liberdade legal não apaga o trauma da servidão. O conto explora a sua jornada interior para se tornar verdadeiramente livre e dona do seu próprio corpo e mente.
5. Velhas Músicas e as Mulheres da Noite (Old Music and the Slave Women) — Conto extra da edição expandida
Temas: O custo da guerra civil e a reconciliação.
Centra-se em "Old Music", um diplomata do Ekumen que já tinha aparecido de forma secundária nos contos anteriores. Ele fica retido em Werel quando a guerra civil atinge o auge e os sistemas de comunicação colapsam. Capturado por rebeldes, ele acaba por ser cuidado por mulheres escravizadas e sobreviventes. A história serve como um fecho que une as pontas soltas da geopolítica de ambos os planetas.
O título não apresenta receitas religiosas ou morais para perdoar. São cinco histórias que exploram, de maneiras diferentes, como as pessoas podem lidar com a injustiça, o sofrimento e a possibilidade de transformação.
O livro apresenta-nos mundos onde a escravatura, a desigualdade e a violência fazem parte da estrutura social. Não são apenas comportamentos de algumas pessoas más: são sistemas que organizam a vida, o trabalho, as relações e até a maneira como cada pessoa se vê a si própria.
Quando uma sociedade vive durante gerações sob a opressão, não basta mudar as leis. É necessário transformar as mentalidades, as relações de poder e a imagem que as pessoas têm umas das outras.
Nas histórias de Yeowe, a revolta contra a escravatura abre a possibilidade de uma nova sociedade.
Mas a autora não apresenta a libertação como um final mágico.
Depois da abolição, continuam a existir:
Feridas causadas pela violência.
Desconfiança entre antigos opressores e antigos escravizados.
Desequilíbrios de poder.
Pessoas que reproduzem comportamentos aprendidos num sistema injusto.
Dificuldade em imaginar uma vida verdadeiramente diferente.
A transformação exige uma aprendizagem. É preciso reaprender a relacionar-se, a decidir, a trabalhar e a reconhecer a dignidade dos outros.
Uma das dimensões mais interessantes do livro é a forma como Le Guin evita dividir o mundo entre pessoas absolutamente boas e absolutamente más.
Há personagens que foram beneficiadas por sistemas injustos e que, em algum momento, começam a reconhecer essa injustiça.
Mas reconhecer não é suficiente.
A transformação verdadeira implica enfrentar o que se fez, o que se permitiu ou aquilo de que se beneficiou.
Perdoar não é fingir que nada aconteceu. Transformar-se é aceitar que aquilo que aconteceu exige uma resposta nova.
E também sugere que ninguém pode exigir ser perdoado como se o perdão fosse um direito automático.
Nas histórias, as grandes mudanças não acontecem apenas através de discursos políticos ou revoluções. Acontecem também quando duas pessoas, separadas por diferenças profundas, começam a olhar-se de outra maneira.
Alguém que parecia representar apenas um sistema opressor revela também as suas fragilidades, medos e possibilidades de mudança.
E essa descoberta pode alterar a relação entre ambas.
Talvez este seja o ponto que mais me interessa na obra.
E aquilo que foi construído por seres humanos pode ser desfeito por seres humanos.
Mas é possível.
Penso que o livro coloca o perdão num lugar muito interessante, entre a justiça e a transformação.
«Perdoa e esquece, para que tudo volte a ser como antes.»
A espiritualidade cristã acredita que a pessoa humana pode mudar. Mas essa transformação não é apenas interior: tem consequências na maneira como se trata o próximo e se constrói a sociedade.
É possível romper com um passado de opressão?
É possível a conversão e uma vida nova.
A liberdade exige mudar relações e estruturas.
A justiça e a caridade exigem transformar a realidade.
O perdão não apaga a responsabilidade.
A reconciliação não dispensa a verdade e a justiça.
O futuro pode ser diferente do passado.
A esperança abre caminho a uma nova criação.
O passado pode explicar o mundo em que vivemos. Não tem, porém, de decidir o mundo que vamos construir.
Comentários
Enviar um comentário