«OS VERDUGOS INVISÍVEIS» - um conto a partir da parábola do Credor Incompassivo contada por Jesus em Mateus 18, 21-35

Quando Tomás chegou a casa, trazia uma coisa que ninguém conseguia ver.
 
— Que tens? — perguntou a mãe.
 
— Nada.
 
Mas não era nada.
 
Era uma frase que o Miguel lhe tinha dito naquela manhã. Uma frase que o magoara diante dos colegas. Desde então, Tomás carregava-a dentro da cabeça, ou como pedras no sapato.
 
Ao jantar, a mãe contou uma história:
 
— Sabias que há prisões sem grades?
 
Tomás encolheu os ombros.
 
— Há pessoas que ficam presas a uma mágoa — continuou ela. — Alguém lhes fez mal e elas passam dias, meses ou até anos a voltar àquele momento. É como se entregassem a chave da sua prisão à pessoa que as magoou.
 
Tomás ficou calado.
 
— E sabes quem são os verdugos? — perguntou a mãe.
 
— Os que prendem as pessoas?
 
— Às vezes são o ressentimento, a raiva, o azedume, o desejo de vingança... Entram devagarinho no coração e começam a apertar.
 
Tomás pensou na história do Credor Incompassivo (Mateus 18, 21-35) que Jesus contara no domingo. Um homem tinha recebido um perdão enorme, mas, pouco depois, recusara perdoar uma dívida pequenina. E acabou entregue aos verdugos.
 
— Então, quando não perdoo alguém, fico preso?
 
— Pode acontecer — respondeu a mãe. — Perdoar não significa dizer que aquilo que aconteceu foi bom. Nem significa esquecer. Significa deixar de permitir que aquela mágoa mande em nós.
 
Naquela noite, Tomás demorou a adormecer.
 
Imaginou uma porta. Do outro lado estava Miguel. Entre os dois havia uma enorme fechadura.
 
Tomás procurou a chave no bolso.
 
Encontrou-a.
 
Chamava-se perdão.
 
No dia seguinte, aproximou-se de Miguel.
 
— O que disseste ontem magoou-me — disse. — Não gostei. Mas não quero continuar zangado contigo.
 
Miguel baixou os olhos.
 
— Desculpa, Tomás. Eu também não devia ter dito aquilo.
 
E aconteceu uma coisa estranha.
 
Tomás sentiu que aquela pedra que carregava... tinha desaparecido.
 
Talvez os verdugos não tivessem ido embora.
 
Talvez nunca tivessem sequer existido fora dele.
 
E, pela primeira vez, Tomás percebeu uma coisa que Jesus queria ensinar: há prisões que só conseguimos abrir por dentro.

Fernando Generoso Para Todos

Comentários