A linguagem humana é essencial na comunicação. É acompanhada por uma vasta gama de sons, nuances, pausas e sotaques. Além disso, recorremos a gestos expressivos. Por vezes, as palavras são dispensáveis: basta um olhar, um abraço ou um gesto simples para comunicar uma emoção profunda.
Em geral, as palavras são essenciais. A palavra revela quem a pronuncia, é o laço da comunicação humana, une ou separa, incide em todo o ser da pessoa. A palavra atua, manifesta-se e desempenha o seu papel como expressão; a relação causa-efeito é importante.
Para que as palavras sejam eficazes, são necessárias algumas condições concretas: podem ser benéficas ou estéreis, felizes ou miseráveis, criadoras ou devastadoras. É necessário, além disso, que sejam corretas e íntegras, sinceras e coerentes por parte de quem as pronuncia.
No mundo atual, diariamente ouvimos palavras ofensivas, que desqualificam o adversário pelo simples facto de ele o ser, mentiras proferidas com total impunidade, meias verdades conforme convém. A mentira não é honesta em caso algum.
Deus comunica-Se através de palavras e a Sua revelação concretizou-se nas Escrituras. Mais ainda, Jesus Cristo é a Palavra feita carne, corpo.
Ter os ouvidos atentos à palavra de Cristo e proferir palavras verdadeiras na reunião dos irmãos e irmãs é uma condição básica do crente. Viver de aparências e arrogância não é seguir Jesus. A verdade anuncia-se a partir do ser interior que nos habita. Na carta de Paulo aos Romanos (13,8-10), é-nos dito que o amor ao próximo inclui todos os outros mandamentos. Mais ainda, esses outros mandamentos, se não forem impulsionados pelo amor ao próximo, deixam de ter todo o valor moral, transformando-se em pura hipocrisia.
Jesus ensina a fazer correção fraterna
É isso que Jesus nos adverte nesta passagem sobre a correção fraterna. Ao construir uma comunidade «cristã», Jesus não renuncia a estabelecer um estatuto relativo à admissão ou exclusão dos seus membros, mas estabelece um sistema de valores: primeiro dialogar com a pessoa, depois procurar conselheiros, discernir em conjunto e, finalmente, tratar do assunto a nível da comunidade. Só assim se evita a arbitrariedade ditatorial e a prepotência caracterizada pela atitude arrogante, soberba e altiva de uma pessoa que utiliza a sua autoridade para obter benefícios ou impor a sua vontade aos outros. Esta atitude gera sentimentos de frustração, mal-estar, medo, raiva e dano emocional naqueles que a sofrem.
Voltando ao texto, Jesus salienta: «Se repreenderes o teu irmão e ele te der ouvidos, salvaste o teu irmão»; da prepotência, da soberba, de um ego inflado que não conhece limites, do desprezo sistemático por todos aqueles que não pensam como eu.
E continua com algumas palavras que sempre foram interpretadas como referindo-se ao perdão dos pecados exercido pelo ministério dos sacerdotes, mas que ultrapassam amplamente esse âmbito. É muito improvável que Jesus tivesse em mente uma Igreja tal como a conhecemos hoje. O perdão é uma atitude fundamental de toda a pessoa. É um processo emocional e cognitivo que implica renunciar a sentimentos negativos, como o ressentimento e a ira, em relação a alguém que nos fez mal e vice-versa. É um ato de libertação pessoal que possibilita a cura emocional e o crescimento pessoal.
Uma interpretação da expressão de Jesus «atar e desatar»
Jesus vai além do meramente humano e sugere que «tudo o que ligardes na terra estará ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra estará desligado no céu» (Mateus 18, 18-20). Trata-se, na essência, do elo de união entre o domínio divino e o humano numa reciprocidade harmoniosa, nunca separados como nos ensinaram…
Ligar e desligar têm significados diversos num sentido e noutro. Atar relações de convivência, de boa vizinhança, de acolhimento, de equidade, de inclusão, de generosidade, de verdade, de coerência. Desatar preconceitos, conflitos, desentendimentos, rancor, medos, vinganças dissimuladas, «egos» asfixiantes, prepotência manipuladora. Tudo isto num plano positivo, tal como Jesus explica aos seus discípulos e discípulas.
Estamos dispostos a seguir esta prática quotidiana? Serão os poderosos e os dirigentes capazes de aprender e pôr em prática algo tão empenhado e curativo em favor dos «humildes da terra» (Salmo 37, 11)? Terão esses mesmos líderes a coragem de fazer uma autocrítica aos regimes políticos neoliberais, totalitários, populistas e nacionalistas que dividem, confrontam, manipulam a história mentindo descaradamente e enriquecendo à custa dos cidadãos? Serão capazes de «desatar» pormenores menores (competências, responsabilidades administrativas e autárquicas, protocolos, disputas fúteis, oportunismos…) enquanto ignoram ou toleram erros e falhas de maior gravidade, como a justiça, a honestidade e a verdade? «Ai de vós… que não deixais passar o mosquito e engolis o camelo! (Mt 23,24).
Estará a Igreja disposta a desatar «injustiças», palavras obstinadas, atitudes clericais, exclusões e discriminações injustas? Será que ela consolidará o sentimento comum de fraternidade e sororidade que a «Fratelli tutti» proclamou como valor e elemento ordenador das sociedades, das nações e da convivência mundial?
Contribuiremos nós para «atar e desatar», no sentido positivo e generoso que Jesus utiliza, como estilo e norma de vida pessoal e comunitária? Ajudaremos a «desarmar as palavras», evitando a desqualificação permanente do adversário, como recordou Leão XIV no seu discurso nas Cortes? «A firmeza não exige desprezo e a discrepância não implica humilhação». «Não podemos acreditar em Jesus e promover a guerra, abandonar quem sofre ou quem foge da miséria». Renunciar, portanto, às expressões ofensivas, aos julgamentos precipitados e às calúnias nas famílias, no trabalho e nas redes sociais.
E o texto termina com uma frase profética: «porque onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles». Seremos capazes de criar comunidade, viver a comunhão na diversidade, aceitar a pluralidade, respeitar os direitos humanos de todas as pessoas e estabelecer o diálogo mesmo na divergência?
Pratiquemos a correção fraterna! A partir do amor que nos constitui como filhos e filhas de Deus, como pessoas de todas as condições.
Shalom!
Maria Luisa Paret García, em Fé Adulta
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