Esta imagem que o meu irmão Paulo, missionário, me enviou da África do Sul, deu origem a uma uma boa conversa sobre a vida, as feridas, a esperança, a missão e Deus
Esta fotografia que o
meu irmão Paulo me enviou da África do Sul – onde está em missão, pois é Irmão missionário
comboniano, parecia apenas uma árvore queimada. Afinal, deu-nos uma boa
conversa sobre a vida, as feridas, a esperança, a missão e Deus.
A primeira lição – porque o Paulo estava a fazer um retiro – foi: «É tempo para aprender a reparar.» Porque, às vezes, nós olhamos muito e vemos pouco.
Esta fotografia ofereceu-nos justamente esse exercício: não passar depressa por aquilo que aparece diante dos olhos.
Uma árvore queimada poderia ser apenas uma árvore queimada.
Mas, se permanecermos diante dela mais algum tempo, começam a aparecer perguntas:
O que lhe aconteceu?
O que permaneceu?
Onde está a vida?
Quem está a cuidar de quem?
O que parecia morto e afinal não está?
O que esta árvore me diz sobre as pessoas?
E sobre mim?
E onde estará Deus nesta paisagem?
Talvez seja isso que significa olhar com profundidade: não procurar imediatamente uma mensagem, mas dar tempo à realidade para nos falar.
Segunda lição: «Aprender a olhar com profundidade para o que vejo e para o que os outros me mostram.»
Porque, quando alguém nos mostra uma fotografia, uma dor, uma experiência ou simplesmente uma pequena coisa que descobriu, está muitas vezes a dizer-nos:
«Olha outra vez. Há aqui qualquer coisa que eu vi e talvez tu ainda não tenhas visto.»
E esta poderia ser uma bela atitude missionária: sermos pessoas que ajudam os outros a descobrir a vida escondida nas coisas.
🌳 1. A árvore queimada: uma história que não terminou
Não vejo simplesmente uma árvore queimada. Vejo uma vida que passou pelo fogo e que, apesar disso, continua a ser lugar de vida.
Há qualquer coisa de profundamente comovente no contraste: o tronco escuro, ferido, quase carbonizado, e, ao seu redor, os pequenos sinais verdes que não o abandonam. A natureza parece aproximar-se dele sem o julgar.
O tronco parece dizer:
“Passei pelo fogo, mas o fogo não disse a última palavra sobre mim.”
Está ferido, escurecido, mutilado. Talvez tenha perdido ramos, folhas, beleza. Mas continua de pé.
E há um desafio. Sabemos que a vocação da árvore é ser castanha e verde.
Mas, agora, passada esta experiência, talvez a vocação da árvore não seja voltar a ser aquilo que era antes do fogo. Poderá ser integrar o fogo na sua própria história e, a partir daí, continuar a gerar vida.
Não é uma árvore queimada abandonada e sem futuro.
É uma árvore que, mesmo queimada, continua árvore.
Isso dá à imagem uma enorme força
🍃 2. O verde que a envolve: ninguém renasce sozinho
As pequenas plantas verdes não parecem estar a "curar" a árvore. Simplesmente crescem junto dela.
E isso pode ser uma extraordinária imagem de comunidade.
Às vezes não conseguimos salvar alguém daquilo que lhe aconteceu. Não conseguimos apagar o sofrimento, devolver-lhe o que perdeu ou reconstruir o passado.
Mas podemos fazer uma coisa talvez mais humilde e mais profunda: ficar junto. Crescer junto. Fazer com que, à volta de uma pessoa ferida, continue a existir vida.
O verde não apaga o negro do tronco. Abraça-o sem o negar.
🔥 3. Espiritualmente, vejo a Páscoa
A fotografia quase poderia ser uma pequena parábola pascal.
Há morte, cinza, destruição. Mas também há vida.
E a vida não nasce necessariamente onde tudo está intacto. Às vezes nasce precisamente entre as feridas.
A fé cristã diz: Deus não promete que nunca passaremos pelo fogo. Promete que o fogo não terá a última palavra.
E há ainda algo mais subtil: Deus pode não estar apenas no verde novo. Pode estar também no tronco queimado. Porque Deus não ama apenas aquilo que em nós floresce. Ama também aquilo que ficou marcado.
❤️ 4. Uma parábola para pessoas feridas
Esta fotografia poderia falar a alguém que tenha atravessado uma grande provação:
“Não precisas de voltar a ser exatamente quem eras antes.”
Que mensagem extraordinária!
Há pessoas que passam por doença, luto, abandono, guerra, fracasso, envelhecimento, incompreensão, perdas, desilusões. E muitas vezes pensamos que a esperança significa voltar ao passado.
Todavia, a esperança poderá ser isto: ser uma nova versão de nós próprios, trazendo as marcas do fogo.
O tronco não tem de esconder as cicatrizes para voltar a ter dignidade.
🌍 5. Socialmente, a imagem também me interpela
Há uma sociedade que facilmente olha para aquilo que está queimado e diz:
“Isto já não serve.”
Uma pessoa que envelheceu.
Um pobre.
Um migrante.
Alguém que falhou.
Alguém traumatizado.
Uma comunidade destruída pela guerra.
Uma terra devastada.
E a fotografia responde:
“Não confundas ferida com inutilidade.”
O tronco queimado ainda faz parte daquele ecossistema.
Mais ainda: aquilo que parece morto pode continuar a dar abrigo, sustento, matéria orgânica, sombra, equilíbrio e espaço para outras formas de vida.
Talvez uma sociedade verdadeiramente humana seja aquela que sabe perguntar:
“Como podemos voltar a gerar vida à volta daquilo que foi ferido?”
🌍 6. E, vindo de um missionário comboniano na África do Sul...
Aqui a fotografia ganha, para mim, uma camada muito especial.
Não é uma fotografia que chegou simplesmente de uma floresta.
Chegou através do olhar de um missionário que vive em África.
E então começo a pensar em África como esse lugar onde tantas vezes coexistem: feridas e esperança, pobreza e criatividade, violência e reconciliação, seca e chuva, morte e vida.
E lembro-me naturalmente de Comboni e do seu “Salvar África com África”.
Há algo muito comboniano nesta imagem: a vida que renasce a partir de dentro. Não uma vida imposta de fora. Não alguém que vem "consertar" aquilo que está ferido. Mas a própria vida que encontra caminhos.
Talvez a missão seja muitas vezes isso: acreditar na seiva que ainda existe dentro de uma realidade aparentemente queimada.
O missionário não é necessariamente aquele que traz vida para onde não existe vida.
Às vezes é aquele que reconhece a vida que Deus já está a fazer nascer e ajuda a protegê-la.
🌱 7. E há uma última coisa que me impressiona
Na fotografia, a árvore está no centro.
Mas o verde não está concentrado nela. Está espalhado por todo o espaço.
Isso faz-me pensar que renascer não é necessariamente voltar a ficar como antes.
Talvez seja permitir que, depois do fogo, outras vidas comecem a nascer à nossa volta.
A árvore pode não recuperar aquilo que perdeu. Mas pode continuar a participar na vida.
E isso é uma definição muito bonita de esperança.
Uma possível legenda para a fotografia
Eu escreveria talvez assim:
A árvore passou pelo fogo.
Ficou negra, ferida, despojada.
Mas não morreu.
E a Natureza, em vez de a abandonar, começou a acarinhá-la com pequenos rebentos verdes.
Talvez seja esta a esperança: não voltar a ser exactamente aquilo que éramos antes do fogo, mas descobrir que, mesmo marcados, ainda podemos gerar vida.
A tua vocação é ser castanha e verde. Ferida e fecunda. Marcada pelo fogo e abraçada pela vida.
E talvez Deus esteja precisamente aí: não apenas no verde que nasce, mas também no tronco queimado que continua de pé.
Portanto, esta árvore – como tudo na vida, tem qualquer coisa de parábola. Porque esta imagem não era uma simples imagem, mas tem, de facto, uma história para contar.
A primeira lição – porque o Paulo estava a fazer um retiro – foi: «É tempo para aprender a reparar.» Porque, às vezes, nós olhamos muito e vemos pouco.
Esta fotografia ofereceu-nos justamente esse exercício: não passar depressa por aquilo que aparece diante dos olhos.
Uma árvore queimada poderia ser apenas uma árvore queimada.
Mas, se permanecermos diante dela mais algum tempo, começam a aparecer perguntas:
O que lhe aconteceu?
O que permaneceu?
Onde está a vida?
Quem está a cuidar de quem?
O que parecia morto e afinal não está?
O que esta árvore me diz sobre as pessoas?
E sobre mim?
E onde estará Deus nesta paisagem?
Talvez seja isso que significa olhar com profundidade: não procurar imediatamente uma mensagem, mas dar tempo à realidade para nos falar.
Segunda lição: «Aprender a olhar com profundidade para o que vejo e para o que os outros me mostram.»
Porque, quando alguém nos mostra uma fotografia, uma dor, uma experiência ou simplesmente uma pequena coisa que descobriu, está muitas vezes a dizer-nos:
«Olha outra vez. Há aqui qualquer coisa que eu vi e talvez tu ainda não tenhas visto.»
E esta poderia ser uma bela atitude missionária: sermos pessoas que ajudam os outros a descobrir a vida escondida nas coisas.
🌳 1. A árvore queimada: uma história que não terminou
Não vejo simplesmente uma árvore queimada. Vejo uma vida que passou pelo fogo e que, apesar disso, continua a ser lugar de vida.
Há qualquer coisa de profundamente comovente no contraste: o tronco escuro, ferido, quase carbonizado, e, ao seu redor, os pequenos sinais verdes que não o abandonam. A natureza parece aproximar-se dele sem o julgar.
O tronco parece dizer:
“Passei pelo fogo, mas o fogo não disse a última palavra sobre mim.”
Está ferido, escurecido, mutilado. Talvez tenha perdido ramos, folhas, beleza. Mas continua de pé.
E há um desafio. Sabemos que a vocação da árvore é ser castanha e verde.
Mas, agora, passada esta experiência, talvez a vocação da árvore não seja voltar a ser aquilo que era antes do fogo. Poderá ser integrar o fogo na sua própria história e, a partir daí, continuar a gerar vida.
Não é uma árvore queimada abandonada e sem futuro.
É uma árvore que, mesmo queimada, continua árvore.
Isso dá à imagem uma enorme força
🍃 2. O verde que a envolve: ninguém renasce sozinho
As pequenas plantas verdes não parecem estar a "curar" a árvore. Simplesmente crescem junto dela.
E isso pode ser uma extraordinária imagem de comunidade.
Às vezes não conseguimos salvar alguém daquilo que lhe aconteceu. Não conseguimos apagar o sofrimento, devolver-lhe o que perdeu ou reconstruir o passado.
Mas podemos fazer uma coisa talvez mais humilde e mais profunda: ficar junto. Crescer junto. Fazer com que, à volta de uma pessoa ferida, continue a existir vida.
O verde não apaga o negro do tronco. Abraça-o sem o negar.
🔥 3. Espiritualmente, vejo a Páscoa
A fotografia quase poderia ser uma pequena parábola pascal.
Há morte, cinza, destruição. Mas também há vida.
E a vida não nasce necessariamente onde tudo está intacto. Às vezes nasce precisamente entre as feridas.
A fé cristã diz: Deus não promete que nunca passaremos pelo fogo. Promete que o fogo não terá a última palavra.
E há ainda algo mais subtil: Deus pode não estar apenas no verde novo. Pode estar também no tronco queimado. Porque Deus não ama apenas aquilo que em nós floresce. Ama também aquilo que ficou marcado.
❤️ 4. Uma parábola para pessoas feridas
Esta fotografia poderia falar a alguém que tenha atravessado uma grande provação:
“Não precisas de voltar a ser exatamente quem eras antes.”
Que mensagem extraordinária!
Há pessoas que passam por doença, luto, abandono, guerra, fracasso, envelhecimento, incompreensão, perdas, desilusões. E muitas vezes pensamos que a esperança significa voltar ao passado.
Todavia, a esperança poderá ser isto: ser uma nova versão de nós próprios, trazendo as marcas do fogo.
O tronco não tem de esconder as cicatrizes para voltar a ter dignidade.
🌍 5. Socialmente, a imagem também me interpela
Há uma sociedade que facilmente olha para aquilo que está queimado e diz:
“Isto já não serve.”
Uma pessoa que envelheceu.
Um pobre.
Um migrante.
Alguém que falhou.
Alguém traumatizado.
Uma comunidade destruída pela guerra.
Uma terra devastada.
E a fotografia responde:
“Não confundas ferida com inutilidade.”
O tronco queimado ainda faz parte daquele ecossistema.
Mais ainda: aquilo que parece morto pode continuar a dar abrigo, sustento, matéria orgânica, sombra, equilíbrio e espaço para outras formas de vida.
Talvez uma sociedade verdadeiramente humana seja aquela que sabe perguntar:
“Como podemos voltar a gerar vida à volta daquilo que foi ferido?”
🌍 6. E, vindo de um missionário comboniano na África do Sul...
Aqui a fotografia ganha, para mim, uma camada muito especial.
Não é uma fotografia que chegou simplesmente de uma floresta.
Chegou através do olhar de um missionário que vive em África.
E então começo a pensar em África como esse lugar onde tantas vezes coexistem: feridas e esperança, pobreza e criatividade, violência e reconciliação, seca e chuva, morte e vida.
E lembro-me naturalmente de Comboni e do seu “Salvar África com África”.
Há algo muito comboniano nesta imagem: a vida que renasce a partir de dentro. Não uma vida imposta de fora. Não alguém que vem "consertar" aquilo que está ferido. Mas a própria vida que encontra caminhos.
Talvez a missão seja muitas vezes isso: acreditar na seiva que ainda existe dentro de uma realidade aparentemente queimada.
O missionário não é necessariamente aquele que traz vida para onde não existe vida.
Às vezes é aquele que reconhece a vida que Deus já está a fazer nascer e ajuda a protegê-la.
🌱 7. E há uma última coisa que me impressiona
Na fotografia, a árvore está no centro.
Mas o verde não está concentrado nela. Está espalhado por todo o espaço.
Isso faz-me pensar que renascer não é necessariamente voltar a ficar como antes.
Talvez seja permitir que, depois do fogo, outras vidas comecem a nascer à nossa volta.
A árvore pode não recuperar aquilo que perdeu. Mas pode continuar a participar na vida.
E isso é uma definição muito bonita de esperança.
Uma possível legenda para a fotografia
Eu escreveria talvez assim:
A árvore passou pelo fogo.
Ficou negra, ferida, despojada.
Mas não morreu.
E a Natureza, em vez de a abandonar, começou a acarinhá-la com pequenos rebentos verdes.
Talvez seja esta a esperança: não voltar a ser exactamente aquilo que éramos antes do fogo, mas descobrir que, mesmo marcados, ainda podemos gerar vida.
A tua vocação é ser castanha e verde. Ferida e fecunda. Marcada pelo fogo e abraçada pela vida.
E talvez Deus esteja precisamente aí: não apenas no verde que nasce, mas também no tronco queimado que continua de pé.
Portanto, esta árvore – como tudo na vida, tem qualquer coisa de parábola. Porque esta imagem não era uma simples imagem, mas tem, de facto, uma história para contar.
Fernando Generoso Para Todos
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