1. O que é o movimento Fraternitas e que tipo de atividades
desenvolve no apoio aos padres que abandonam o sacerdócio para constituir uma
família?
A Fraternitas Movimento é uma associação de presbíteros que
deixaram o exercício do ministério, casados ou não, e suas esposas ou viúvas.
Visa apoiar nos vários domínios (pessoal, social, laboral,
económico, eclesial) os seus membros, bem como os que deixam o exercício do
ministério. Pretende também fomentar laços de amizade e solidariedade
intergrupal. E estudar, em Igreja, formas de colaboração eclesial para os seus
membros no sentido de um serviço às comunidades cristãs.
Pretende proporcionar apoios aos presbíteros que deixaram o
ministério, mormente aos que ainda não regularizaram a sua situação canónica.
Procura desenvolver atividades de formação e atualização
teológica, nomeadamente cursos, palestras, encontros de formação, retiros,
possibilitando igualmente a outros cristãos a sua participação nestes eventos.
2. quais são as maiores dificuldades que encontra na vida em
sociedade um padre que deixa de o ser?
A primeira dificuldade prende-se com uma decisão que não foi
muito fácil, isto é, assumir deixar o ministério sacerdotal. Implicou muito
sofrimento e reflexão, muita solidão, muita angústia.
Seguiu-se o escolho de iniciar uma atividade profissional
que permitisse uma vida de cabeça erguida.
De há uns vinte anos para trás, havia a questão social (não
era generalizada a aceitação dessa situação — deixar o exercício do ministério)
e, pior ainda, a imposição hierárquica de sair da paróquia onde se exercera o
ministério, ou da de nascimento, o que se traduzia num exílio forçado, para
terras e países, por vezes, bem longínquos!
Ainda permanece algum afastamento de serviços eclesiais,
levando o padre casado a uma situação “abaixo de leigo”…
3. Parece-lhe que a Igreja está a encarar de frente esse
tema ou continua, de certa forma, a fazer de conta que não existe?
Nota-se alguma mudança de mentalidade, em especial da
hierarquia, já que, ao nível do povo cristão de base, a aceitação de
presbíteros que deixaram o ministério e constituíram família é um facto quase
unanimemente aceite: não é motivo de escândalo que um presbítero deixe o
exercício do ministério e inicie uma família.
Todavia, o problema de base, não é apenas a questão do
celibato: trata-se, outrossim, de uma visão da Igreja, não piramidal, mas de
“forma circular”: comunidades de base que suscitam, entre os seus membros, os
seus necessários servidores (ministros). E a Igreja, tornar-se-ia, assim, numa
comunhão de comunidades. O batismo, sacramento radical e essencial, integra
(torna) cada batizado nas funções de Jesus — sacerdote, profeta, rei. E, neste
sentido, os passos dados são extremamente reduzidos. A visão de uma Igreja
hierarquizada (papa, bispos, presbíteros e, na base, os leigos) ainda está
muito enraizada, em especial nos lugares de “mando”, que não querem ver
fugir-lhes das mãos as “diretrizes” e os proveitos da “orientação” dos fiéis.
4. De que forma é que os padres casados poderiam ser
enquadrados na vida pastoral? E na comunidade católica?
De certo modo, já está respondido, no número anterior, o
modo como podemos servir a pastoral da Igreja na zona de influência pessoal e
familiar. Os membros da Fraternitas não estão saudosos das “cebolas do Egito”:
não há saudades de um exercício de padre que era um mero funcionário do
“sagrado”.
E é facto que muitos
os associados da Fraternitas estão bem inseridos em comunidades, onde rezam,
evangelizam, celebram, refletem, se solidarizam com as necessidades da sua
comunidade, e são bem conhecidos e aceites pelos outros batizados. Estão
pastoralmente ativos, não numa atitude de independência e insubordinação, mas
de integração e vivência da fé em comunidade.
5. Quantos associados tem a vossa associação? Foi criada
quando, por quem?
A Fraternitas Movimento tem 115 associados inscritos. Porém,
alguns já faleceram (mesmo o casal), outros entenderam desvincular-se. Ativos,
contam-se 65.
A Fraternitas Movimento foi fundada em 03.08.1997, tendo
sido os seus Estatutos aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa na
Assembleia Plenária de 2 a 5 de Maio de 2000. Os Estatutos originais foram
revistos e aprovados pelo Movimento na 39ª Assembleia Geral da Fraternitas
Movimento, em 30 de Abril e 1 de Maio de 2016.
A fundação da Fraternitas Movimento deve-se à acção do
Cónego Filipe de Figueiredo (Beduído, no concelho de Estarreja, 24 de Agosto de
1926 – 28 de Novembro de 2003), ao promover,
em Fátima, os primeiros retiros para “padres casados” a partir de Agosto de
1996.
Não dispomos de
dados exatos sobre o número de presbíteros que recentemente tenham deixado o
exercício do ministério. Mas, certamente, situam-se acima de uma dezena. Mas
nem todos diretamente para casar.
Respostas de Alberto Osório de Castro; padre dispensado das obrigações sacerdotais; casado, com um filho; vive em S. João da Madeira; aposentado do Ensino Oficial. Foi responsável pela edição do Espiral (boletim da Fraternitas
Movimento). Participa numa associação de Pais
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