(Anthony Padovano e esposa)
Texto de Anthony T. Padovano | A tradução e síntese são de Francisco Monteiro
Anthony Padovano, padre dispensado, teólogo, natural dos
Estados Unidos, foi presidente da Corpus, a associação de padres dispensados
norte-americanos, sendo atualmente embaixador da Corpus junto de organizações
internacionais, como o movimento Nós Somos Igreja, a Federação Internacional de
Associações de padres dispensados e a Plataforma Europeia para a Renovação do
Ministério Católico, organismo que foi formado a partir da Federação
Internacional.
Na sequência da última reunião do movimento NSI Internacional,
em Lisboa, escreveu este texto para o boletim da Corpus.
O pacto das catacumbas
Esquecido durante muito tempo, mas reconhecido recentemente, o
“Pacto das Catacumbas” foi elaborado nas semanas finais do Concílio Vaticano
II, em 16 de novembro de 1965, por 40 bispos que se reuniram nas Catacumbas de
Santa Domitila em Roma e que acordaram testemunhar contra as vidas pomposas de
muitos bispos e afirmar a simplicidade do Evangelho das origens da Cristandade.
O Pacto compromete os bispos a viverem da mesma forma que a média das pessoas
das suas dioceses e a escolherem profissionais para administrar as finanças de
cada diocese. O Pacto ecoa a opção preferencial pelos pobres e o propósito do
Vaticano II de criar uma Igreja solidária.
Um documento dominicano
Em 2007, quatro padres, pastores e teólogos Dominicanos, da
Holanda, divulgaram, com aprovação dos seus superiores, um documento intitulado
Igreja e Ministério. Nesse documento defendia-se que a celebração da Eucaristia
é um direito batismal das comunidades, o qual ultrapassa as limitações à
presidência da Eucaristia que não tenham a ver com a natureza substancial do
ministério ordenado. O documento defende que as paróquias não são supostas ser
centradas no padre e que por isso não podem ser vítimas da ausência de padres.
O Vaticano II reflete-se neste documento: a Igreja como Povo de Deus; os
sacramentos e a Liturgia como património da comunidade e o direito dos batizados
a atuarem segundo o seu batismo, a sua consciência e as suas necessidades
pastorais.
Um mandato teológico
Em abril de 2011, um terço de todos os professores de teologia
em universidades da Alemanha, Áustria e Suíça assinaram um documento a pedir a
reforma da Igreja Católica e o diálogo sobre o seu futuro. Às 144 assinaturas
iniciais, muitas outras se juntaram de teólogos de todo o mundo. O documento
pede diálogo sobre o fim do celibato obrigatório, a ordenação de mulheres e que
os leigos sejam ouvidos na seleção dos bispos.
Em 8 de junho de 2011, mais de 160 clérigos da arquidiocese de
Friburgo, Alemanha, assinaram uma declaração a afirmar que administram a
Comunhão a católicos divorciados e recasados, invocando o cânone que afirma que
a salvação das almas é a lei suprema.
Um apelo à desobediência
Em junho de 2011, Helmut Schuller, antigo Vigário-Geral da
Arquidiocese de Viena, divulgou, em nome de 400 padres (um décimo do total), um apelo à desobediência em que se
convidam leigos a pregar, se discute a ordenação, se acolhem católicos
divorciados e recasados à Comunhão e se apela ao diálogo sobre o celibato
obrigatório. Schuller justifica o apelo com as exigências da pastoral.
As posições dos Cardeais
Na véspera da sua morte, o cardeal Carlo Martini, de Milão,
deu uma entrevista em que discordava de quem punha em questão as uniões civis
entre parceiros homossexuais; dizia que a Humanae
Vitae fora um “erro grave”; via a
negação da Comunhão aos divorciados e recasados como um “abuso de poder” e uma
“injustiça”; afirmou que a Igreja “está 200 anos atrasada” e que “as nossas
liturgias e vestimentos são pomposos” e pedia que a Igreja deixasse de ser
“receosa em vez de corajosa”.
O cardeal Schonbrun, de Viena, confirmou a eleição para um
concelho paroquial de um jovem homossexual casado.
A reforma da Igreja não é um tema do passado mas do futuro. Os
temas em questão ecoam a compaixão de Cristo.
A reunião
O Movimento
Internacional Nós Somos Igreja (MINSI)
foi fundado em Roma em novembro de 1996 para apoiar a Igreja enquanto
comunidade de irmãos e irmãs, em que as mulheres participem plenamente em todos
os aspetos da vida da Igreja, em que não haja celibato obrigatório para os
padres, em que haja uma avaliação positiva da sexualidade e da consciência e uma
mensagem de alegria e inclusividade.
O MINSI reuniu em Lisboa de 26 a 28 de outubro de 2012,
com 22 delegados da Áustria, Brasil, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda,
Holanda, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia e EUA.
Pedro Freitas, Presidente cessante do MINSI dirigiu a reunião
na qual falou a teóloga feminista Teresa Toldy sobre “Devemos ficar ou partir?”
Como nova Presidente foi eleita Martha Heizer, da Áustria, que é amiga e
colaboradora de Schuller e do cardeal Schonbrun.
História do MINSI
Ao longo dos anos, o MINSI que tem ligações com 41 países, tem
feito uma reflexão teológica extensa e profunda sobre a Igreja, organizando
sínodos sombra, uma conferência paralela ao Conclave de 2005, fazendo milhares
de apresentações e publicando documentos e tomadas de posição, tais como um
dossier de 50 páginas relativo ao Concílio 50, uma celebração a ter lugar em
Roma em 2015, 50.º aniversário da conclusão do Vaticano II.
O MINSI está intimamente ligado com a Rede Europeia, a
Ordenação de Mulheres a nível Mundial e a Federação Internacional para a
Renovação do Ministério Católico (FIRMC).
O MINSI tem feito um trabalho considerável para a continuação
do espírito do Vaticano II nos seguintes países:
- Áustria: 1500 membros.
- Brasil: sobretudo no Nordeste, com centenas de comunidades
de base.
- Dinamarca.
- França: muito influenciada pelo Bispo Jacques Gaillot.
Principais preocupações: a Igreja não é um fim em si mesma, mas existe para o
mundo; direitos humanos; não violência. O NSI – França está representada no
Conselho da Europa, em Estrasburgo onde regularmente toma posições sobre temas
da reforma da Igreja.
- Alemanha: tem desempenhado um papel fulcral na forma como o
MINSI se define e na formulação da sua agenda. Entre as suas prioridades:
direitos humanos, democracia, ecologia e pluralismo religioso.
- Irlanda: em maio, a Associação de padres católicos juntou
1000 pessoas no apelo pela igualdade dos batizados e pela abertura de todos os
ministérios às mulheres.
- Itália: ADISTA, a principal agência de informação nacional
tem dado apoio ao NSI – Itália nas suas atividades, designadamente no Projeto
Conclave em 2005. As relações Igreja – Estado são objeto de particular
preocupação.
- Holanda: principais preocupações: comunidades de base,
Igreja e Estado, eutanásia e direitos humanos.
- Noruega: tenta ser afirmativa, mas não agressiva, objetiva
mas não pessoal no criticismo; no entanto, insiste no seu direito à liberdade
de expressão e ao pensamento crítico.
- Portugal: começou em 1997. Nos últimos dois anos organizou
dez encontros, habitualmente no Convento de S. Domingos (Dominicano), sobre:
sacerdócio casado, direitos dos homossexuais e teologia da libertação. É muito
ativo na Rede Europeia.
- África do Sul: está empenhado no diálogo com os bispos e
teve a sua primeira reunião com a Conferência Episcopal da África do Sul em
setembro de 2012.
- Espanha: está muito ativo na Rede Europeia. Planeia realizar
uma “Assembleia Universal do Povo Cristão” para celebrar o Vaticano II.
EUA: está intimamente associado com o consórcio de 20
organizações nacionais e regionais que trabalham em temas de reforma e justiça,
chamado Organizações Católicas para a Renovação (COR). A grande maioria dos
católicos nos EUA não concorda com a política da Igreja relativamente à
contraceção, ordenação de mulheres, celibato dos padres, direitos de orientação
sexual e participação de leigos. Algumas iniciativas de sete das organizações
integradas no COR:
Concelho Católico Americano adotou uma “Lei Católica de
Direitos e Responsabilidades”.
“Chamada para a Ação” tem 25 000 membros e está comprometida
com a reforma e a justiça social.
“Católicos pela Escolha” tenta redefinir a ética sexual;
trabalha com a ONU.
Corpus é uma Comunidade católica para a reforma e centra-se
num sacerdócio inclusivo; começou em 1974 e ajudou a criar o COR em 1992; é
muito ativo na Rede Europeia, MINSI e FIRMC.
Dignidade EUA tem vindo a trabalhar há 40 anos para assegurar
os direitos das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e
transgéneros (LGBT), procurando desenvolver uma espiritualidade viável para os
seus membros e apoiando-os legalmente quando são discriminados.
Igreja Futura trabalha para manter as paróquias vivas e para
expandir o conceito de sacerdócio.
Conferência para a Ordenação de Mulheres (WOC) foi fundada em
1975 e é a maior organização nacional que procura ordenar mulheres em todos os
ministérios da Igreja.
Conclusão
Muito do impressionante trabalho desenvolvido pelos grupos de
reforma católica contou com o apoio do MINSI. Todo este trabalho é consequência
e complemento do Vaticano II. “Tentámos fazer o nosso trabalho respeitando a
Igreja e a nossa consciência, a nossa vocação e a necessidade da comunidade.
Encontrámos amizade e fé uns com os outros.” Ansiamos pela celebração em 2015
do “Concílio que, segundo cremos, nos convocou para novas definições de nós
próprios e mais profunda dedicação aos outros.”

Prezado amigo Pe. Fernando Félix, saudações amigas.
ResponderEliminarLi o artigo do Dr.Padovano, é um relato eloquente e animador do trabalho de diversas - e louváveis organizações - as quais reconheço seu imenso valor e história, e as respeito com a devida honra. Entretanto, na prática, que mudança, ou que alteração concreta, real, aconteceram ou se realizaram, na vida prática e diária da igreja Povo de Deus, como resultado de todo este árduo, eloquente e volumoso trabalho ?
Por outras palavras: de todas as mudanças que são pedidas ou exigidas por estas organizações, que mudança, ou quais delas foram aceites ou acatadas, colocadas em prática na vida diária da igreja, das paróquias e da comunidade povo de Deus ?…que eu saiba, nenhumazinha sequer (excepto as conseguidas pelos PADRES NO ATIVO da Pfarrer Initiative)!
Sff, corrija-me se eu estiver errado.
E Esta é, na minha leiga e frágil opinião, a questão fulcral: colocar em prática, no dia a dia da igreja, em cada missa, e na vida diária da comunidade, as mudanças que se estão a exigir, ao menos aquelas sobre as quais, não existem - nem subsistem - quaisquer dúvidas teológicas e eclesiológicas, de que elas devem ser aplicadas: o celibato opcional, a eucaristia para todos os batizados sem quaisquer excepção, e, o direito dos batizados a atuarem na sua paróquia local, segundo o seu batismo, a sua consciência e as suas necessidades pastorais.
De todas as organizações citadas por Padovano, destaco e parabenizo a Pfarrer Initiative de Helmut Schuller da Áustria. Esta sim, agiu em conformidade com a vontade de Deus, e decidiu aplicar na prática e na vida diária das paróquias e da comunidade, algumas medidas, aquelas que estavam ao seu alcance pelo menos, o que, ainda sendo pouco(???), é um resultado estrondosamente superior, quando comparado aos resultados obtidos por todas as demais.
RESSALTO aqui, o fato importantíssimo, de estes padres austríacos serem padres no ativo! E Mesmo assim, decidiram abandonar uma submissão inadequada à ICAR. Inadequada porque fere os princípios do Evangelho, e por isso, frustra a vontade soberana de Deus para a Sua igreja. Com as gravíssimas e gravosas consequências espirituais, emocionais e sociais, sobre a própria igreja e sobre toda a sociedade. Consequências que todos nós já as conhecemos, sofremos e choramos. E por causa delas também choram terra e céus.
Movimento Deus Diz Basta! Fim do Celibato Já!
http://fimdocelibatoja.blogspot.pt/2010/06/uma-carta-de-amor-aos-sacerdotes.html