«Os fiéis abandonam a Igreja, ou é a Igreja que abandona os fiéis?»


A Igreja está quase sempre atrasada para solucionar os grandes problemas, dizia o Papa Francisco numa entrevista: Mulheres na Igreja: ''Estamos atrasados, é verdade, mas devemos seguir em frente''.

Numa entrevista que me fez o nosso amigo Jesús Bastante, eu me perguntava: «Porquê a Igreja não permite que as mulheres possam ser ordenadas como sacerdotes?» Diante desta minha pergunta, alguns comentadores questionaram-me com recriminação, o que, à primeira vista, parece perfeitamente razoável: «Se o Evangelho não é uma religião, porquê tanta insistência em ordenar mulheres como sacerdotes?» (ver: «O Evangelho não é uma religião e, portanto, o cristianismo, tampouco. É um projeto de vida», entrevista com José María Castillo).

Agradeço sinceramente a quem me fez esta pergunta. Porque me ofereceu uma oportunidade excelente para poder expressar algo que me parece importante. Explico.

É conveniente repetir que não é a mesma coisa falar de "igualdade" e falar de "diferença". Em poucas palavras, a "diferença" é um facto, enquanto que a "igualdade" é um direito. O homem e a mulher são "diferentes" e "iguais". São distintos, mas têm os mesmos direitos (ou deveriam ter).

Estas transferências ou deslocamentos (de uma ordem das coisas a outra) são frequentes na vida. É frequente passar, sem se dar conta, do âmbito dos "factos" ao dos "direitos". Que são duas coisas completamente distintas. Mas, quando se confundem, desembocamos na linguagem dos disparates, das ignorâncias ou simplesmente fazemos papel de ridículos.

Pois bem, por este procedimento das transferências indevidas, acontece também que, com bastante frequência, façamos, de um "facto sociológico", uma coisa que nunca deveria ser feita, que é montar ou elaborar um "argumento teológico".

É um facto bem conhecido que, no tempo de Jesus, as mulheres, não só não tinham os mesmos direitos que os homens (Robert C. Knapp, Los olvidados de Roma, 67-145), como, sobretudo, não podiam ser testemunhas oficiais de nada em causa alguma (J. Jeremias, Jerusalén en tiempos de Jesús, 371-387). Este é o "facto sociológico".

Por isso Jesus, que sempre defendeu a dignidade e a igualdade das mulheres (Lc 8, 1-3; 7, 36-50; Mt 19, 1-12; Mc 10, 1-12; Jn 8, 1-11; 12, 1-8...), não podia constituir as mulheres como "testemunhas oficiais" suas, numa sociedade que não admitia, nem aceitava tais testemunhas. Mas, insisto: esse é um "facto sociológico" daqueles tempos e culturas.

O doloroso (e sem sentido) é que, depois de vinte séculos, continuamos a pensar e a dizer que aquele "facto social" da Antiguidade é um "argumento teológico" para a Igreja da Modernidade. Isso é um disparate tão monumental como seria o disparate de insistir que devem continuar a existir escravos, pela simples razão de que São Paulo justificou que entre os cristãos da Antiguidade os escravos fossem obedientes aos seus amos (Flm 16; 1 Cor 7, 21 s; Ef 6, 5; Col 3, 22; 1 Tim 6, 1 s; Tt 2, 9).

A Igreja está quase sempre atrasada. E por isso chega tarde quando se trata de dar solução aos grandes problemas que a humanidade lhe apresenta. Agora, encontramo-nos com o problema da falta crescente e galopante de sacerdotes. São milhares as paróquias que não podem celebrar a Eucaristia.

E estando as coisas como estão, pelo visto, pensa-se que o mais importante é manter uma "norma social" da Antiguidade do que dar a devida resposta a um "direito dos fiéis cristãos". Não estou a inventar este "direito". Disse, com clareza, o Concílio Vaticano II, na "Constituição Dogmática sobre a Igreja": «Todos os fiéis cristãos têm direito ("ius habent") de receber com abundância dos sagrados pastores... os auxílios da Palavra de Deus e dos sacramentos...» (LG 37, 1).

Este é o ensinamento solene da Igreja. Mas parece que é mais solene o poder dos bispos e dos sacerdotes em enfrentar inclusive o papa, o Concílio Ecuménico e milhões de fiéis abandonados, com tal propósito de manter firme o seu poder, a sua dignidade, os seus critérios e não sei se, em alguns casos, interesses inconfessáveis. E lamentamo-nos pelo facto de que os fiéis abandonam a Igreja? Não seria necessário dizer, antes disso, que é a Igreja que abandona os fieis? E se falamos dos infiéis..., então melhor que nos calemos. Ou que gritemos todos ao Céus, pedindo misericórdia. Pois estamos a precisar.


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