Carta a D. Manuel Clemente, após a sua posição acerca da Casa do Gaiato


Os factos: Na conferência de imprensa, no final dos trabalhos da assembleia plenária, a 15 de novembro passado, D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, respondeu a uma pergunta acerca do “desentendimento” com o Estado acerca da Casa do Gaiato.

O autor da pergunta é o jornalista António Marujo, que relatou a resposta no seu blogue http://religionline.blogspot.com: «Ainda em Fátima, e sobre o caso do encerramento d’O Calvário, casa de acolhimento de doentes pertencente à Obra da Rua, do Padre Américo, o presidente da CEP destacou a “abnegação” dos seus responsáveis, mas referiu também o “desentendimento” entre aquela instituição e o Estado no que diz respeito à metodologia seguida nas Casas do Gaiato.
Responsáveis da Segurança Social foram a’O Calvário (Beire, Paredes) e levaram, praticamente todos os doentes, encerrando a casa numa operação que foi duramente criticada pelos responsáveis da Obra da Rua. 
“A proposta do padre Américo, quer em relação às crianças e jovens, quer em relação às pessoas doentes, contava muito com a participação dos próprios: os rapazes pelos rapazes, e também os doentes” a apoiar-se mutuamente. Mas, disse D. Manuel Clemente, a metodologia seguida pela Obra da Rua não é hoje, para o Estado e não só para o Estado, a maneira de responder a essas necessidades

“Nas reacções que ouvi a este caso, ainda permanece este desentendimento entre o método – que tem sido desenvolvido com muita abnegação, que é indiscutível, e que só temos de admirar –, e a insistência estatal” em mudar algumas práticas, afirmou o patriarca, dando a entender que é necessário que os seus responsáveis admitam essa alteração.»

Carta a D. Manuel Clemente, após a sua posição acerca da Casa do Gaiato
Meu Irmão Bispo, cardeal, patriarca… Ora deixemos os títulos de tanta nobreza e vamos diretos ao assunto... Irmão bispo, «questionado sobre problemas ligados à Casa do Gaiato e outras obras do Padre Américo», admitiste «um desentendimento entre a proposta original e a visão do Estado»... Meu irmão, conheces bem o pensamento de Pai Américo. Por isso não podes falar num desentendimento. Sabes que há rotura completa, total. Pai Américo contava, como dizes «com a participação dos próprios, dos jovens, das crianças, dos doentes». Diremos mais: “esse contar” é o quid da obra do Pai Américo. Ele não queria uma IPSS, como agora se diz, ele queria um lar de família, para cada um daqueles sectores da sua obra. Uma família, na qual todos se entendem, ajudam, se educam… numa palavra: crescem, se amam… Sabemos que isto não é fácil. Pai Américo encetava deste modo uma pedagogia renovadora e até revolucionária. Como é que tu, meu irmão, tens coragem de afirmar que «esta metodologia teve grandes méritos, mas que não é hoje a maneira de responder a essas necessidades»? Tu, meu irmão, que és um homem experiente e profeta, alinhas no politicamente correto? Nós sabemos a luta do Padre Américo para manter a sua obra com esta característica. Sempre recusou a intromissão dos ‘diligentes zelotes’ da Segurança Social. E sabes bem, irmão bispo, como as outras obras orientadas ou supervisionadas pela Segurança Social não são modelo de humanidade. Certo que a Casa do Gaiato, o Lar de Beire e outras Casas da Obra da Rua apresentam carências, dificuldades. Não é fácil governar uma casa destas. Mas nestas Casas há amor, entendimento, alegria, paciência… Bem-estar! E os responsáveis desta Obra tem consciência do legado do Padre Américo. Eles viram como os funcionários da Segurança Social invadiram a Casa de Beire, como obrigaram, violentaram os «moradores» a entrar nas carrinhas. Eles, velhos, decrépitos, recusavam. Eles queriam ficar, em Beire. Sentem-se bem com a falta de todas coisas que os funcionários da SS lhes ofereciam. Tu viste isto, meu irmão bispo? Sem dúvida que estas casas são antigas. Não houve visão atempada para se adaptarem às novas exigências de licenciamento? Isso nunca foi pedido aos responsáveis?... Estiveste uns anos no Porto. Foste bispo do Porto! Não sei se visitaste aquela Casa. Recupera o tempo perdido! Vai lá, sem os escarlates discricionários. Vai como peregrino, humilde, desconhecido. Comunga daquela pobreza, beija aqueles pés doridos, sofredores, lava aquelas chagas… Então verás o porquê do lar de família que o Pai Américo queria e a recusa de uns funcionários, mais ou menos académicos. Esta é a nota distintiva da Obra da Rua, que só se apreende com o coração. Por isso ajuda a encontrar caminho que respeite o espírito da Obra, sem adulterações impostas por leis e técnicos burocratas. Ó meu irmão! Acreditas naquele julgamento fantasma do Padre Batista? Aquilo foi uma cena. O Padre Batista ama aquela gente. Pode ter-se excedido, aceito. Mas obrigá-lo, impedi-lo de ir àquela Casa é uma violência a toda a prova. E tu calaste!
E tu vês isto? Pois, eu sei, não és o bispo dele, mas és bispo da Igreja, não podes calar a injustiça, fazer de conta que não vês. As tuas palavras, em declarações no final da Assembleia da CEP, são uma fraca justificação. Onde estão os mais fracos, mais vulneráveis, mais esquecidos? Tu, meu irmão, tens de estar ao lado deles, com eles, ou estás a trair esse Evangelho que te puseram sobre os ombros na tua ordenação… E acrescentas, meu irmão, que «a metodologia do Padre Américo... não é hoje a maneira de responder a essas necessidades»! Vês outra? Não! A metodologia está certa; a Casa é de construção antiga. Façam-se as obras necessárias, mas respeite-se a metodologia herdada do Pai Américo.
Não te julgo, meu irmão bispo! Mas quando aquelas tuas declarações chegaram às mãos dos padres casados, inscritos na Fraternitas, sentimo-nos defraudados. É evidente que não confundimos as tuas palavras com o pensar e sentir dos bispos portugueses. E muito menos identificamos as tuas palavras como inspiradas. As tuas palavras fizeram muito mal. Ó meu irmão bispo, como foste infeliz! Tenho pena de ti! Sem dúvida! Devemos corrigir o que está errado, mas salvaguardar o que é válido. Duvido que esta carta chegue às tuas mãos. Algum zeloso secretário encarregar-se-á de ta extraviar. Por isso, depois de te enviar esta carta, vou fazer com que chegue aos meus amigos e irmãos da Fraternitas. Afinal, embora marginalizados na Igreja, desacreditados por esta Igreja, ainda há alguém com senso comum normalizado. Rezamos, meu irmão bispo, para que vejas além. Sabes bem que o profeta antecipa no tempo. Vê para além dos horizontes geográficos, cronológicos. Afirma os valores escatológicos definitivos. Relembro as cartas que o Anjo enviou às sete igrejas, convidando-as a rever os seus pontos de vista. Sou um pobre padre marginalizado que acredita que o Espírito governa a Igreja através de homens, que nem sempre sintonizam nessa mesma linha. Acredita! Tu podes apressar o Reino ou atrasá-lo. Há uma certeza: contigo, meu irmão bispo, sem ti ou mesmo contra ti, o nosso Deus leva a água ao Seu moinho, isto é, concretiza o Seu pleno de salvação. Colabora! Sempre será mais fácil! E agora, mãos à obra. Refaçamos as casas da Obra da Rua. Demos-lhe condições de higiene mais eficiente, mais e maiores comodidades que a moderna tecnologia preconiza. Assim gostaria de ver a tua palavra, esclarecida e esclarecedora, abrir caminhos de alegria e satisfação. Ainda é tempo!

Joaquim Ferreira Soares
Serradelo
RAIVA

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