«Aprendemos a aproveitar tudo para o crescimento interior e da relação como casal» — testemunho de mulher que casou com um padre dispensado
Não saberíamos dizer quando começou verdadeiramente a nossa
relação de amor-amor, dado que a ligação de amor-amizade foi ocupando cada vez
mais espaço, de uma forma natural e subtil. Eram várias as contingências de
parte a parte, o que associado à culpa e a uma certa confusão de sentimentos,
alimentava alguma resistência mútua ao que estava a instalar-se entre nós.
Penso, inclusive, que os outros, nas suas conclusões e acusações antes de
tempo, acabaram por promover e dar força à nossa união!
Recordo um antigo pároco meu que, tendo dado ouvido a
rumores, um dia, numa conversa, fartou-se de rodear para me perguntar acerca do
que eu teria ou não com o Fernando. Como se mostrava demasiado hesitante,
resolvi ajudá-lo com esta resposta: «Sim, sou eu, mas a história não é essa!»
Esse mesmo sacerdote, provavelmente no seu zelo pelas almas que lhe estavam
confiadas, chegou a advertir-me para o perigo de estar com um pé para o
Inferno. Mais tarde, haveria de me pôr lá com os dois… A tais palavras foram-se
juntando outras similares e muitos olhares daqueles que condenam e chamam nomes
feios, sobretudo a mim, por ser mulher. Estas coisas, na altura, provocaram
dor, exclusão, revolta e uma raiva difícil de conter. Com o tempo, porém,
aprendemos a rir-nos das situações e a aproveitar tudo para o crescimento
interior e da própria relação do casal. A par do humor, que desmistifica e
desconstrói, fomos interiorizando a oração: «Concedei-nos, Senhor, serenidade
para aceitar o que não podemos modificar, coragem para modificar aquilo que
podemos e sabedoria para distinguir.»
Como as pessoas entendem que quando um clérigo pede a dispensa
das obrigações sacerdotais é invariavelmente por obra de um “rabo de saias” (o
que nem sequer era o meu caso, que só uso calças…), quando o meu marido assumiu
a presidência da Fraternitas não faltaram jornalistas a pedir reportagens e
presenças em programas televisivos para empolar uma novela que, afinal, de
romance tinha pouco. Para começar, ele não se tornou “padre desativado” por
minha causa; depois, padeço de uma enfermidade muito complicada, que se tem
vindo a agravar e que constitui um calvário quotidiano para ambos. O Fernando,
como qualquer missionário que se preze, desejou a glória do martírio. Vou-lhe
dizendo que a conseguiu, não da maneira poética e heroica que imaginou, mas na
vida diária, que é aí que tudo se prova!
Decidimos desde logo — e na impossibilidade de outros — que
os nossos “filhos” seriam os frutos da materialização daquilo em que
acreditávamos, nomeadamente na linha da ação missionária. Chegámos a visitar o
Maláui, a Zâmbia e o Peru. Até o nosso matrimónio foi todo virado para o tema
da Missão.
Não considero o Fernando um falhado nem que tenha renegado a
sua vocação; pelo contrário, costumo dizer que ele é mais completo e santo do
que o comum dos mortais, porque tem sete sacramentos e a maioria de nós só pode
ter, no máximo, seis. Fomos conquistando o respeito dos mais céticos através da
coerência e da perseverança. Quanto ao resto, na dúvida, a nossa avaliação
rege-se pela máxima: «Onde há caridade e amor, aí habita Deus.» E por aí vamos
tentando ir…
Maria José
(mulher do Fernando Félix, padre
missionário comboniano dispensado das obrigações sacerdotais)

Um escrito lindo, lindo!
ResponderEliminarEstou convosco, meus queridos primos, amigos e afilhado.
Parabéns. é preciso coragem para publicar este tipo de texto, por ser do foro mais íntimo. Para além do mais está magistralmente escrito, nem de mais nem de menos, na conta certa. Beijinhos & abraços e que o Senhor vos proteja e guie
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