Não é novidade para a carteira de ninguém a subida
desenfreada dos preços, atribuída à inflação. E a inflação, à guerra na
Ucrânia. E o crescente abismo económico começou por ser culpa da pandemia…
A culpa, quando não morre solteira, acaba “casada” com tudo
e todos fora de “casa”. Esta suposta promiscuidade da culpa vai conduzindo, entretanto,
à multiplicação das fortunas dos responsáveis de megaempresas nos setores
farmacêutico, petrolífero, agrário e tecnológico. São estes lucros ilegítimos
os verdadeiros culpados pelo disparar dos preços dos alimentos, dos
combustíveis, da energia, das comunicações…
O poder de compra da maioria da população mundial foi
vergonhosamente mutilado e agora mais de 240 milhões de pessoas correm o risco
de cair na pobreza extrema e enfrentarão a fome. Esta tendência é inversamente
proporcional ao aumento da riqueza dos “inocentes” mais abastados do planeta,
que subiu mais nos últimos dois anos do que nos 23 anos anteriores! A imagem é
chocante: os dez homens mais ricos do mundo possuem mais de 40 por cento do que
o resto da Humanidade… Se a esses dez se juntarem mais dez, num total de vinte
almas, então a possessão já atinge um montante superior à totalidade do produto
interno bruto de todos os países da África Subsariana!!!
O homem mais abonado à face da Terra – que ampliou a sua
fortuna sete vezes desde 2019 – poderia desperdiçar 99 por cento dela e ainda
continuaria a estar no top dos mais ricos. Naturalmente, para chegar aqui, ele
e os compinchas destroem grandemente o planeta através das emissões de carbono
decorrentes do seu consumo ostensivo.
Muito mais do que pela escassez de oferta, o incremento
absurdo da inflação deve-se ao lucro das grandes empresas e à especulação
financeira; mais de 50 por cento do valor da inflação pode ser atribuído aos
lucros desenfreados destas firmas. Ah! Falta referir um pormenor: aquela velha
máxima de ser o “Zé Povinho” a pagar tudo continua atual. Sim, não obstante
estes milhões todos de lucro, em muitas destas empresas continuam a suprimir-se
salários, pagamentos a produtores e fornecedores… Ah! Também é bom lembrar que
não há saída, isto é, normalmente as margens de lucro são combinadas entre os
“monstros” das diversas áreas de negócio. E, claro, estes ganhos (que eu
prefiro chamar de roubos, por razões óbvias) obscenos não se compadecem com a
partilha de bens com os países mais pobres. Um exemplo flagrante é o que
aconteceu com as vacinas da Covid-19: as farmacêuticas que mais lucros obtiveram
com a venda das vacinas foram as que forneceram, proporcionalmente, um menor
número de injeções a nações mais necessitadas. Lá está, não dá para tudo: ou
bem que se engordam as contas nos paraísos fiscais, ou bem que se faz
caridade!... Naturalmente, quando num fiel da balança estão vidas e humanas e
no outro se encontra uma possível perda de controlo do conhecimento que lhes
confere tanto poder de mercado, a escolha é evidente…
Este poder de mercado traz um bónus: o poder político, a
faculdade de influenciar Governos, mesmo investindo em lobbies. Depois,
saem umas leis que até parecem meio tendenciosas (em linguagem benigna), com
políticas reguladoras e fiscais favoráveis aos ricos e às grandes corporações, mas
deve ser só impressão… Como é que se hão de tributar os lucros excedentes,
reduzir os monopólios, rever o sistema de direitos de propriedade intelectual,
democratizar o acesso ao conhecimento, evitar a reaquisição de ações e outros
estratagemas que tal?!...
É caso para dizer: «Se não te podes juntar a eles,
vence-os!» De preferência, em concertação com outros cidadãos preocupados,
conscientes e lesados… e dispostos a manter a esperança.
Maria José Bijóias Mendonça, marketeer, freelancer
Ler também:
Reportagem Control the vampire companies («Controlar as empresas vampíricas»), de Jayati Ghosh*, em Europa Social e
IPS-Jornal, com dados e nomes concretos. E a sua tradução aqui: As empresas vampiras por trás da inflação
*Jayati Ghosh é uma das mais importantes economistas mundiais. É professora de Economia na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi, Secretaria Executiva da International Development Economics Associates (Ideas) e membro da Comissão Independente pela Reforma Tributária de Corporações Internacionais
O que é a inflação, por Banco Central Europeu

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