O contexto do evangelho de João (Jo 18, 33-37) é o julgamento diante de
Pilatos, após as negações de Pedro, onde fica claro que Pedro não era rei de si
mesmo nem sincero. É muito improvável que o diálogo seja histórico, mas está
nos transmitindo o que uma comunidade muito avançada do final do século I
pensava sobre Jesus. Duas breves frases postas na boca de Jesus podem dar-nos a
orientação para a reflexão: "o meu Reino não é deste mundo",
"por isso vim, para ser testemunha da verdade", não para ser mais do
que ninguém.
O que João está a dizer no seu evangelho é que Jesus está a falar
sobre a autenticidade do seu ser. Falso é tudo o que parece ser o que não é. O
nosso ego é falso porque se baseia em aparências erradas. Ser Verdade é ser o
que somos sem o falsificar e o que somos está para além do que pensamos ser (o
nosso ego individual). O nosso objetivo da vida é descobrir o nosso verdadeiro
eu e manifestá-lo em todos os momentos.
Sugestão de leitura complementar
O que significa um Reino que não é deste mundo?
Talvez encontremos uma pista na outra frase: "Vim para
ser testemunha da verdade". Mas somente se não entendermos a verdade como
verdade lógica (a adequação de uma formulação racional à realidade), mas sim
entendê-la como verdade ontológica, isto é, como a adequação de um ser ao que
deveria ser de acordo com sua natureza. Jesus, sendo autêntico, sendo
verdadeiro, é verdadeiro Rei. Mas o que o seu verdadeiro ser (Deus) lhe pede é
que se coloque ao serviço de todos os que dele necessitam, não que imponha nada
aos outros.
Não se trata de morrer para defender uma doutrina. Trata-se
de morrer pelo homem. Trata-se de testemunhar o que é o homem. O "Filho do
Homem" dá-nos a chave para compreender o que Ele pensava de Si mesmo.
Considera-se o homem autêntico, o modelo do homem, o homem acabado. Sua
intenção é que todos se identifiquem com ele. Jesus é a referência para aqueles
que querem manifestar a verdadeira qualidade humana.
O que significa «Eu sou rei»?
Pilatos tira Jesus e diz à multidão: "Este é o
homem". Jesus não é apenas o modelo do homem e exige que os seus
seguidores respondam ao modelo que n'Ele veem. Jesus diz: «Eu sou rei»; não diz «Eu
sou um rei.» Indica, assim, que todo o que se identifica com ele também é
rei. Esse é o objetivo que Deus quer para todos os seres humanos. Rei do poder só
pode haver um. Mas reis somos todos na medida em que somos servidores.
Jesus, no deserto, percebeu o poder como uma tentação:
«Dar-vos-ei todo o poder destes reinos e a sua glória». Em João, depois da
multiplicação dos pães, a multidão quer proclamá-lo rei, mas ele foge para a
montanha, sozinho. Toda a pregação de Jesus gira em torno do "Reino";
mas não se trata do seu reino, mas de Deus. Jesus nunca pretendeu ser o objeto
da sua pregação. É um erro confundir o Reino de Deus com o Reino de Jesus. É um
absurdo maior querer identificá-lo com a Igreja.
Qualquer título social e eclesial conotado com poder deturpa o Evangelho
A característica fundamental do Reino pregado por Jesus é
que ele já está aqui, embora não se identifique com as realidades mundanas. Não
podemos esperar por um tempo escatológico, mas ele já começou. "Não se
dirá, seja aqui ou ali, pois eis que o reino de Deus está entre vós." Não
se trata de preparar um reino para Deus, trata-se de um reino que é Deus.
Quando dizemos "a paz reina", não estamos a dizer que a paz tem um
reino. Trata-se de tornar Deus presente entre nós, descobrindo que devemos ser
para os outros.
Qualquer que seja a conotação que o título tenha com o
poder, ele deturpa a mensagem de Jesus. Uma coroa de ouro na cabeça e um cetro
de diamantes nas mãos são muito mais degradantes do que a coroa de espinhos e a
cana na mão. Se não descobrirmos isso, estaremos a projetar em Jesus os nossos
próprios anseios de poder. Nem o "Deus Todo-Poderoso" nem o
"Cristo do Grande Poder" têm absolutamente nada a ver com o Evangelho.
Jesus disse-nos: quem quer ser o primeiro, seja o último, e
quem quiser ser grande, seja o servo. Esta ânsia de identificar Jesus com poder
e glória é uma forma de justificar a nossa sede de poder. O nosso eu,
sustentado pela razão, não vê outro futuro senão ser fortalecido ao máximo. Uma
vez que não gostamos do que Jesus diz, tentamos por todos os meios fazê-lo
dizer o que nos interessa. Isso é o que sempre fizemos com as Escrituras.
Frei Marcos, em Fé Adulta
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