Setembro chega com um convite: rezar pela Criação = 1 de setembro - Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.
Mas talvez devêssemos começar por fazer uma coisa menos confortável: um exame de consciência ecológico e confessar os nossos pecados ambientais.
Porque os portugueses gostamos muito da Natureza. Apreciamos praias, serras, rios, sobreiros, golfinhos, andorinhas… Gostamos de fotografar o pôr do Sol e de dizer que temos uma das mais belas paisagens do mundo. O problema começa quando amar a Natureza exige alguma coisa de nós.
Primeiro pecado: desperdiçar água como se vivêssemos num país húmido. Lavamos carros e passeios com água potável, regamos jardins como se o verão não existisse e aceitamos modelos agrícolas que exercem enorme pressão sobre os recursos hídricos. E depois admiramo-nos quando os rios adoecem. A ONG ZERO sublinha que apenas 47 % das massas de água superficiais continentais apresentam estado ecológico “Bom” ou “Excelente”.
Segundo pecado: produzir lixo como se o planeta tivesse aterros infinitos. Compramos, usamos, deitamos fora e chamamos a isso progresso. E o pior é que continuamos a enviar mais de metade dos resíduos para aterro. Estamos muito mal na reciclagem de vidro e de plástico.
Terceiro pecado: transformar a Natureza em aterro. Queremos praias lindas, mas deixamos o lixo no areal; queremos peixe, mas nem sempre aceitamos limites à pesca; queremos campos verdes, mas toleramos uma agricultura cada vez mais intensiva, e nem nos importamos que isso dizime espécies da fauna e da flora. A SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) alerta para o declínio das aves agrícolas, associado à intensificação agrícola, monoculturas e agroquímicos. O sisão, por exemplo, perdeu 90 % da população nacional.
Quarto pecado: tratar a floresta como combustível até ao dia em que arde. Em 2025, Portugal registou cerca de 271 mil hectares de área ardida — praticamente o dobro de 2024. Até meados de 2026, Portugal registou cerca de 56 mil hectares de área ardida. Somando, a ZERO revela um dado arrepiante: já queimámos cerca de 98 % do limite de área ardida previsto para toda a década 2020-2030.
Quinto pecado: sujar o mar e depois fingir surpresa. Plásticos, artes de pesca abandonadas, capturas acidentais, pressão sobre ecossistemas vulneráveis: o oceano não é um caixote do lixo azul. A SPEA alerta para o impacto crescente do lixo marinho e a Sciaena - Associação de Ciências Marinhas e Cooperação chama a atenção para os danos provocados por artes de pesca que contactam ecossistemas marinhos vulneráveis.
Sexto pecado: A indiferença. Talvez seja o pior. Vemos uma árvore a desaparecer, uma ribeira contaminada, uma espécie em declínio, uma praia suja. Protestamos durante cinco minutos. Depois esquecemos.
Sétimo pecado: E há ainda o pecado mais sofisticado: a boa intenção sem mudança de comportamento. Falamos de sustentabilidade, publicamos fotografias verdes nas redes sociais, participamos em campanhas, mas continuamos a consumir como se os recursos fossem infinitos. A Criação não precisa apenas das nossas orações. Precisa da nossa conversão.
Talvez esta seja a verdadeira oração de setembro:
«Senhor, perdoa-nos não apenas aquilo que fizemos contra a Tua Criação, mas também aquilo que deixámos de fazer para a defender. Porque a Terra não é nossa propriedade. É a casa que recebemos emprestada. E uma casa emprestada não se abandona depois de a sujar. Cuida-se.»
E talvez o primeiro sinal de conversão ecológica comece precisamente aqui: deixarmos de perguntar o que podemos tirar da Natureza e começarmos a perguntar o que podemos devolver-lhe.
Este exame de consciência ecológico não nos deixa propriamente de cabeça erguida! Mas talvez seja precisamente esse o objetivo: não ficarmos apenas com a sensação de culpa, mas passarmos da culpa à conversão, da conversão à decisão e da decisão à ação.
Não basta rezar pela Criação se continuamos a viver como se ela não fosse nossa responsabilidade.
Setembro pode ser, para os cristãos, um excelente mês para transformar a oração em gestos concretos: menos desperdício, menos consumo, menos indiferença; mais cuidado, mais sobriedade, mais compromisso.
No fundo, a conversão ecológica começa quando percebemos que cuidar da Casa Comum não é uma moda ambientalista: é uma exigência da nossa fé.
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