«Senhor, tem piedade de nós». Esta antiga oração da liturgia cristã não é apenas um pedido de perdão, mas também de amor
A expressão grega Κύριε ἐλέησον, da qual "Kyrie eleison" é uma transliteração em latim, poderia ser traduzida como “Senhor, tende misericórdia” ou “tende benevolência”. Alguns teólogos chegaram a propor “Senhor, amai-me com ternura”. Essa invocação tripla, "Kyrie eleison - Christe eleison - Kyrie eleison", expressa um pedido claro de perdão, em resposta a uma fórmula da absolvição sacerdotal que normalmente encerra os atos penitenciais de rito romano. Também é verdade que esta fórmula, especialmente na tradução, tem um caráter penitencial que originalmente era secundário, como evidenciado pelo rico desenvolvimento musical do texto na tradição musical gregoriana.
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“Senhor, mostrai-nos a vossa benevolência”
A benevolência completa a misericórdia. É um termo menos usado, mas que poderia ser plenamente recuperado em todo o seu significado. A benevolência é o amor não focado no "eu", mas no próximo, no outro. Um fruto do amor do Espírito, que infunde na alma serenidade, tranquilidade e paz, envolvendo quem nos rodeia. Este amor nos faz olhar para os outros com olhos limpos e descobrir neles muitas coisas belas. É a atitude que nos torna "longânimes", que nos ajuda a ir além dos defeitos dos outros, confiantes de que o bem os supera se soubermos ser pacientes. "Benevolência" significa "bem querer" e é característica da pessoa amorosa, afável, gentil, generosa, que dá ao seu comportamento em relação aos outros um sentido de alegria, de suavidade e doçura que ganha o coração. A palavra "benevolência" expressa relação. Não é bom saber que há Alguém que nos quer bem?
O Kyrie eleison torna-se, assim, um pedido de perdão, mas também um pedido de amor. Jesus é gentil e paciente com todos. Mesmo numa dura controvérsia com seus inimigos, Ele diz: "Eu vos digo isso para que sejais salvos" (Jo 5,34). São palavras de paciência e longanimidade para com todos. Assim como o Pai, Ele é também é benévolo: e a salvação é a maior revelação da "benevolência divina".
A esta luz, podemos entender melhor quando Ele fala da "boa vontade" do Pai: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem sem esperar nada em troca e a vossa recompensa será grande e vos tornareis filhos do Altíssimo, porque Ele é benévolo até para com ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso" (Lc 6,35s). Viver esses imperativos é entrar em sintonia com a ação do Pai e de Jesus; é ser "benevolentes" com todos, porque só assim podemos "provar e saborear o quanto é amável e gentil nosso Senhor" (Salmo 33,9; 1 Pd 2,3). Pedro, citando este salmo, exprime a identidade do amor misericordioso de Deus agindo em Cristo ao referir a Cristo o nome de Deus (Senhor) que o salmo exalta como "benevolente".
Fonte: ZENIT.org

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