A sexualidade na Igreja - segundo tema do Encontro Nacional Fraternitas, Fátima 27 de abril

Introdução: O Papa, na visita ao Panamá (onde ocorreu entre os dias 22 e 27 do mês de Janeiro a XXXII Jornada Mundial da Juventude), conversou cerca de 50 minutos sobre diversos temas da atualidade com um grupo de jornalistas. Saliento o seguinte para o nosso tema em causa:

«Creio, que nas escolas é preciso dar educação sexual. Sexo é um dom de Deus, não é um monstro. É o dom de Deus para amar e se alguém o usa para ganhar dinheiro ou explorar o outro, é um problema diferente. Precisamos oferecer uma educação sexual objetiva, tal como é, sem colonização ideológica. Porque se nas escolas se dá uma educação sexual embebida de colonizações ideológicas, destrói-se a pessoa.

O sexo como dom de Deus deve ser educado, não rigidamente. Educado, de “educere”, para fazer emergir o melhor da pessoa e acompanhá-la no caminho. O problema está nos responsáveis pela educação, seja a nível nacional, seja local, como também em cada unidade escolar: quem são os professores para isso, que livros de textos usar… Eu vi de todos os tipos, há coisas que amadurecem e outras que causam danos. Digo isso sem entrar nos problemas políticos do Panamá: precisamos dar educação sexual para as crianças. O ideal é que comecem em casa, com os pais.

Nem sempre é possível por causa de muitas situações familiares, ou porque não sabem como fazê-lo. A escola, compensa isso e deve fazê-lo, caso contrário, resta um vazio que é preenchido por qualquer ideologia.»
Vamos ver um pouco o livro do Cântico dos Cânticos, um texto esquecido, desconhecido e, por isso, pouco ou nada utilizado na vida litúrgica da nossa Igreja, muito menos na catequese e encontros de formação religiosa... Mas muito tem a nos ensinar este livro incontornável da Bíblia sobre a vida e o amor em todas as suas condicionantes, particularmente, nesta da sexualidade ou do sexo…

1. A editorial Cotovia em 1999 publicou a tradução do Cântico dos Cânticos, elaborada pelo Arcebispo José Tolentino Mendonça. Face ao panorama sombrio que nos rodeia dominado pela “mediocridade rasca” ou pela intriga venenosa, sentamo-nos perante uma paisagem azul e sob o marulhar da água, saboreamos as palavras encantadoras “do Mais Belo Cântico de Salomão”.

2. Logo na abertura do livro encontramos as razões para exaltarmos essas palavras dos amantes. Primeiro, a citação de Herberto Helder que diz assim: “Eu cá sou de opinião que não cabe aos juízes, ao tempo civil e ao templo civil, à República, encorajar a poesia, esta, a poesia bachiana. Só cabe ao Deus que morreu”. Fica-nos a lição do poeta. Mostra que a poesia não se submete a nada nem a ninguém, é também do domínio do transcendente. E só os que se deixam morrer por amor a compreendem, tal como o “Deus que morreu” - Jesus Cristo.

3. Segundo, do tradutor deste texto, aprendemos que “quando assomar o Filho do Homem em toda a sua glória, ele esclarecerá” todo o sentido e o não sentido das Escrituras. Porque elas guardam mais do que tudo e acima de tudo “o silêncio de Deus”.

4. Mas pensemos no sentido desse cantar ou desse poema de amor ou dos amantes, que sob o olhar inefável de Deus se entrelaçam nos sons, nas paisagens e nas palavras. É este espelho que reflete a profundidade dos seres, a interioridade e a alma.

5. Porque o amor não se expressa “literalmente”, como ensinou António Guerreiro na magnífica conferência que proferiu no Museu de Arte Sacra do Funchal, sobre esta tradução do poema. Disse ainda que neste poema havia a “necessidade fluente de criar metáforas para dizer o amor”. É um Cântico de “amor autêntico”, de um “amor humano e espiritual ” muito distante do amor ou dos amores que hoje se vive e “faz” (como é comum dizer-se). Porque o amor não se faz, ele é.

6. O sentido do Cântico dos Cânticos está, segundo as palavras do autor da tradução do poema, diretamente do Hebraico, na “admiração” e na “troca do amor por um homem e por uma mulher”. “É um sussurro de amantes.

Mapa instável, sempre a ser refeito, cartografia de um grande amor desencontrado, da solidão que os amores muito grandes proporcionam, do assalto violento ou, afinal, ténue ou do assombro ténue e, depois, e logo depois, turbulento, terrífico do amor. Só muito tarde se leu a noite e o desejo, o corpo nomeado, perseguido, suplicado, o jardim entreaberto, a prece atendida”.

7. Neste ambiente de um “discurso densamente figurativo” descobre-se a “Epifania da Palavra” e o Sujeito Amoroso, que é sempre alguém sobre o qual há essa “Epifania da Palavra”: “levantei-me para abrir ao meu amado/ minhas mãos gotejavam mirra/ meus dedos eram mirra escorrendo/ na aldrava da fechadura/ quando abro ao meu amado/ o meu amado havia desaparecido/ fora de mim corro atrás das tuas palavras/ procuro e não o encontro/ chamo e não me responde…” (Ct 5, 5-6).

8. O Cântico dos Cânticos é uma expressão sublime do amor humano. É um cantar desinibido do amor entre duas pessoas, sem esquecer todos os aspetos que tal envolvimento implica. O amor do Cântico dos Cânticos não tem um fim ou uma finalidade, como afirmam alguns autores (António Guerreiro). A sexualidade não existe sem a fala, sem a Palavra: O sexo e o amor deste poema são uma fala. O amor e o sexo é algo que é dito. Tudo isto difere gravemente da sexualidade na sociedade de hoje que defende o sexo pelo sexo e o sexo sem amor e sem as suas componentes essenciais.

9. O Cântico dos Cânticos é uma ousadia, porque o amor e todos os seus rituais afectivos, eróticos e sexuais fazem parte da experiência de Deus. São uma expressão do desígnio de Deus. Não passam ao lado da Sua vontade. É, porém, esta dimensão “carnal” e apaixonada de Deus que escandaliza algumas mentes. Como pode ser privada desta realidade uma parte da humanidade? Como pode possuir autoridade qualquer instituição para privar ou proibir quem quer que seja desta dimensão tão «amada» por Deus?

10. No entanto, fundamentamos da seguinte forma esta perspectiva: “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16), proclama S. João. E segundo L. A. Schköl, “nunca se disse coisa mais sublime de Deus. Nem do amor. Tudo isto porque “o amor vem de Deus” (1Jo 47) e também conduz a Deus.

11. O amor ao outro é a expressão mais elevado do homem, é uma abertura para a dimensão mais funda da realidade humana. Amar é dar-se, é entregar-se à pessoa amada. É querer partilhar o desejo. Daí, que o amor ao outro (ao próximo) é a concretização visível do amor que dizemos ter para com Deus. Sem esta concretização prática (visível) a mística ou, simplesmente, a relação com Deus perde todo o seu sentido, tornando-se mistificação ou pura hipocrisia.

12. Como “labaredas do Senhor” (Ct 8, 6) é o amor. O amor jamais passará, porque é nele que Deus se espelha. Se o amor existe, então Deus só pode existir! E mais, “porque forte como a morte é o amor” (Ct 8, 6). Gostaria agora de salientar o traço da pintura de Ilda David’ que ilustra esta tradução. A simplicidade do traço impressiona bastante. As metáforas, as imagens e as construções linguísticas belíssimas expressam-se nos corpos que se entrelaçam, se buscam e se encontram nas ilustrações da pintora. O ambiente, a natureza encontra visibilidade na correspondência da fala e da pintura. Há uma cumplicidade essencial, que contribui para uma beleza, uma estética harmoniosa e saudável. É a própria beleza de Deus e da sua obra incarnada nos Homens. Ali, naquele poema vemos o rosto de Deus a sorrir, como diria António alçada Baptista.

13. Saliento ainda que estamos perante um poema que não é nosso, não é de ninguém, é de toda a humanidade. De todos aqueles que pautam a sua vida pela paixão do amor.

A sexualidade nos/dos (?) padres

1. Sempre me fez muita confusão ver os Papas, os bispos e os padres a serem os convidados de honra nos encontros, pequenos ou grandes, sobre a família, para falarem precisamente sobre família e como nela se vive a fidelidade no casal, a educação dos filhos, a ensinarem como se resolvem todos os problemas inerentes ao ser família tal como a conhecemos. Sempre evitei ao máximo falar do que não tenho experiência e muito raras vezes encetei viagem por esse caminho. Desperta-me muita perplexidade que tais ensinamentos venham de quem teve que abdicar de constituir família em nome da causa e da missão pelo Reino de Deus. Pior ainda quando a «loucura» leva a aventura até ao sexo e ou sexualidade humana. Seguramente que não faltarão regras e «testemunhos» sobre o «verdadeiro» exercício da sexualidade na vida do casal.

2. Este festim era o que tanta gente pode testemunhar, principalmente, os grupos e movimentos ligados à família sejam mais ou menos religiosos. A conversa versava sobre família assim, família assada, educação assim, educação assada... Com regras e mais regras sobre a vida sexual, procriação, matrimónio civil, matrimónio canónico, regras e mais regras para padrinhos, regras e mais regras para procriar, exclusão e excomunhões se algo falhasse, sem faltar a pregação do inferno e da condenação eterna...

3. Mas, há uma viragem, despertou agora a opinião pública e a da Igreja Católica. A realidade da vida inverteu-se, e como que a talho de vingança, todos sabem de tudo sobre a vida do clero. Será caso para dizer-se «o feitiço voltou-se contra o feiticeiro»? – Porque estou para ver o que isto vai dar e como reagirá quem sempre achou que podia ensinar o melhor dos mundos a partir da sua «sabedoria» sobre a família com muita teoria, mas em fuga da experiência prática familiar.

4. No mesmo patamar, adensa-se ainda mais a minha confusão, por ver uma onda crescente de leigos especialistas em padres, sexualidade dos padres, celibato dos padres, castidade para os padres, vida geral dos padres, filhos dos padres (com o caso do Padre Giselo Andrade, não imaginava que existia tanto padre por aí a procriar, honra lhes seja feita, já que quem deve procriar não o faz, então que sejam estes a contribuir para o rejuvenescimento da nossa tão envelhecida população) e a infinidade de doutrina relacionada com a vida do clero. Enfim, se antes impressionava a doutrinação sobre a família e a vida em casal, feita pelos solitários (celibatários dos padres). Não menos impressiona a doutrinação sobre castidade, celibato e fidelidade e moral sexual, produzida pela sociedade onde abunda o adúlterio, a infidelidade, a indiferença, a violência doméstica e todas as misérias que por todo o lado a vida, tristemente, nos tem oferecido. Portanto, vamos com calma e que a vida se faça com serenidade, porque sobre tudo e sobre todos ainda temos muito que aprender, até porque cada pessoa é um oceano imenso, pois é sempre uma construção inacabada, imperfeita.

José Luís Rodrigues, padre

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