As periferias na Igreja - O lugar dos recasados ou uniões de facto na Igreja - primeiro tema do Encontro Nacional Fraternitas, Fátima 26 de abril
Introdução: A mensagem central do Papa Francisco vai sempre,
na direção de uma Igreja «em saída», porque é a «única possível, segundo o
Evangelho». Francisco convida a «nunca perder o contacto com a realidade», por
considerar que isso faz parte do testemunho cristão: «Na presença de uma
cultura dominante que coloca em primeiro lugar a aparência, aquilo que é
superficial e provisório, o desafio é escolher e amar a realidade». O Papa
ressalva insistentemente a importância de manter o olhar «fixo no essencial»,
porque «os problemas mais graves» para a Igreja «surgem quando a mensagem
cristã é identificada com aspetos secundários que não refletem o coração do
anúncio». «Num mundo em tão rápida transformação, os cristãos têm de estar
disponíveis para procurar formas e modos de comunicar, com uma linguagem
compreensível, a perene novidade do Cristianismo» (Papa Francisco em várias das
suas mensagens).
Os 4 temas do Encontro Nacional da Fraternitas:
É este o
enquadramento geral, como apelo a todos os grupos e movimentos religiosos,
comunidades, dioceses e outros. Vamos nesta linha de desafio desbravar algumas
periferias:
1. Os muros e a
sacralização do mercado (Harvey Cox). A «muralização» do mundo, cada vez mais
nos revela a armadura que encegueira tantos neste mundo, particularmente
governantes, contra a tolerância, a liberdade e o desejo dos povos se
refugiarem da guerra, da fome ou da insegurança provocada pelo terrorismo que
os obsessivamente «muralhados» semeiam por todo o mundo. No domingo, 9 de
Novembro de 2014, dia que recordou a queda do Muro de Berlim, há 25 anos, o
Papa Francisco lançou um apelo no Angelus na Praça São Pedro, a fim de que
caiam “todos os muros que ainda dividem o mundo”. Francisco aproveitou a
ocasião para pedir o fim de todos os muros que ainda hoje dividem os povos com
o cimento de outras formas de discriminação: «Rezemos a fim de que, com a ajuda
do Senhor e a colaboração de todos os homens de boa vontade, se difunda sempre
mais uma cultura do encontro, capaz de derrubar todos os muros que ainda
dividem o mundo, e não mais aconteça que pessoas inocentes sejam perseguida e até mesmo mortas
por causa de seu credo e de sua religião. Onde há um muro, há fechamento de
coração! Precisamos de pontes, não de muros!»
2. O endeusamento do dinheiro é o principal terrorismo: ao regressar, no dia 01 de
agosto, da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, marcada pelo assassinato
do padre francês Jacques Hamel na sua igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, o
Papa Francisco declarou no avião: «No centro da economia mundial está o «deus
dinheiro», e não a pessoa, o homem e a mulher; este é o primeiro terrorismo».
3. As
sociedades multirreligiosas, particularmente, as ocidentais (os métodos
utilizados por algumas seitas são autênticos atentados contra a liberdade,
vontade pessoal e manipulação de consciências – Autênticos crimes). É enorme a
multidão de alienados, usurpados na sua liberdade, vontade própria e nos seus
bens patrimoniais. Um verdadeiro crime legalizado, porque o Estado aferiu pela
mesma bitola, religiões, confissões religiosas e movimentos religiosos (vulgo
seitas). Ora, à luz do pensamento do Papa Francisco, deduzimos que toda a
religião que não liberta, mas oprime não serve para nada.
4. O desafio da
unidade e da comunhão (questão essencial para a sobrevivência da Igreja, e em
seguida para que seja exemplar para o mundo). Estamos todos massacrados pela
metralhadora da comunhão e da unidade. Mas nada de concreto se viu neste
domínio. Grassa a inveja, a intriga, as divisões e tantas outras banalidades e
futilidades que requerem atenção. As tais propaladas unidades e comunhões
parece, que seriam apenas e só para grandes acontecimentos, liturgias medievais
e celebrações sem passado e sem futuro. Costumo dizer, nós os padres servimos
para enfeitar cerimónias, onde o centro não é Cristo, mas os bispos. Tudo tem
servido para falar, falar e falar sem que medidas concretas surgissem e que
provocassem as badaladas plavras da unidade e da comunhão, como deviam ser
iluminadas pelo Evangelho. Há uns que são mais clero dos que os outros. Podem
saber da vida interna da igreja, mas outros não. O dever da transparência é só
para alguns. O dever de ser corpo presente apenas e só para muitos. Os
excluídos neste campo são imensos. Daí que o testemunho da Igreja para o mundo
neste campo deixa muito a desejar.
5. A pobreza,
porque «a verdadeira riqueza da igreja são os pobres», como afirmam os «santos
padres da Igreja». Sempre se alimentou a ideia entre nós que os principais
responsáveis por ela são as próprias vítimas dela. Por isso, fazer apenas e só
umas caridades para que se mate a fome por alguns momentos serve pouco ou mesmo
nada. Mas, reclamar políticas e uma governação que acabasse de uma vez por todas com a pobreza,
isso não... Neste domínio prevalece a maior multidão da nossa terra, do nosso
país e do mundo, votada ao esquecimento, mas para que não reclame ou não acorde
este povo, está a ser sorrateiramente contentado com as centenas ou milhares de
festas que se realizam ano fora nesta neste nosso país. Porém, coisa a sério
que se veja para que se implemente ação concreta que liberte da pobreza e
confira dignidade humana, pouco ou nada temos visto. (A título de exemplo,
reparemos no património da nossa Igreja, a degradação do património é
confrangedor e requer uma atenção redobrada para o fazer render e reverter para
a promoção das pessoas, particularmente, os mais necessitados). Também aqui
vejo um enorme desleixo, que se tem revelado um contra testemunho pouco
edificante para o mundo… Daí que a autoridade da Igreja em geral para falar de
pobreza, resulte tantas vezes, no gozo da ridicularização e isso é grave.
6. Os separados
da vida matrimonial e os recasados. Tanto debate sobre este assunto nos últimos
anos, mas ficou à volta do Papa Francisco e nas trincheiras do Vaticano, como
arma de arremesso na guerra que os grupos conservadores movem contra o Papa.
Entre nós, continua tudo na mesma. Nunca ouve uma posição clara quanto a este
aspeto. Tem se mantido uma «sacrossanta» confusão, a maioria abeira-se da
comunhão por sua livre iniciativa ou por ignorância ou por conselho de alguns
sacerdotes (poucos). Mas há de restar os poucos obedientes e escrupulosos que ainda
se mantêm de fora e cumprem não se aproximar dos sacramentos. Reina uma
ambiguidade manhosa que prefere a confusão em favor de uma posição clara e
determinada pelo desafio integrador que a linguagem do Papa tem feito lembrar a
toda a Igreja. Neste campo, os excluídos estão aí à vista de todos nós. Uma
periferia que requer atenção.
7. Enfim, As
periferias ecoam nos montes e vales do mundo inteiro, por isso, de forma mais
clara vamos dizer, nada nos deve travar a ousadia do desafio, nem os
conservadorismos, nem os populismos devocionais e nem a mania de que sempre foi
assim e que os excluídos são os principais responsáveis pela sua desgraça. Diz
o Papa: «não nos podem parar nem as nossas debilidades, nem os nossos pecados,
nem tantos obstáculos colocados ao testemunho e anúncio do Evangelho», quando
urge ganhar e manter a coragem de «chegar a todas as periferias que precisam da
luz do Evangelho». Basta que nesta hora prevaleça uma linguagem nova, clara e
objetiva, sem medo de nada, por todos contra ninguém, para que na nossa terra
envelhecida, cansada de egoísmos e narcisismos, ecoe pelas nossas cidades e
pelos nossos campos uma Igreja renovada e de acordo com a força do Evangelho de
Jesus Cristo. Porque a Igreja é «o povo das bem-aventuranças e a casa dos pobres,
dos aflitos, dos excluídos e perseguidos, daqueles que têm fome e sede de justiça». E, como é
«missionária por natureza, tem como prerrogativa fundamental o serviço da
caridade a todos» – a começar «dos últimos, dos pobres, dos que têm as costas dobradas
pelo peso do cansaço e da vida» – e são inerentes à sua vida e missão no mundo
e para o mundo «a fraternidade e a solidariedade universal». Finalmente, digo
eu, este é o meu desejo, um sonho idealista, dirão alguns, mas é o que me
inspira esta hora.
Conclusão: O papa Francisco viu que a Igreja vive encerrada
em si mesma, paralisada pelos medos e demasiadamente afastada dos problemas e
sofrimentos. Desafia-a com os seus gestos ousados e discurso vibrante a dar
sabor à vida moderna e a oferecer a luz genuína do Evangelho. A sua convocação
foi imediata, destemida e clara: «Temos de sair para as periferias
existenciais». O Papa insiste uma e outra vez: «Prefiro uma Igreja acidentada,
ferida e manchada por sair à rua que uma Igreja doente por estar encerrada e
pela comodidade de agarrar-se às suas próprias seguranças. Não quero uma Igreja
preocupada por ser o centro e que termina enclausurada num emaranhado de
obsessões e procedimentos». A convocação de Francisco está dirigida a todos os
cristãos: «Não podemos ficar tranquilos numa espera passiva nos nossos templos.
O Evangelho convida-nos sempre a correr o risco do encontro com o rosto do
outro». O Papa quer introduzir na Igreja o que ele chama de «cultura do
encontro». Está convencido de que «o que necessita hoje a Igreja é capacidade
de curar feridas e dar calor aos corações».
O estilo cristão é o das Bem-aventuranças: mansidão,
humildade, paciência no sofrimento, amor à justiça, capacidade de suportar
perseguições, não julgar os outros… E esse é o espírito cristão, o estilo
cristão. Se queres saber como é o estilo cristão, para não caires neste estilo
acusatório, no estilo mundano e no estilo egoísta, lê as Bem-aventuranças. E
este é o nosso estilo, as Bem-aventuranças são os odres novos, são o caminho
para chegar. Para ser um bom cristão devemos ter a capacidade de recitar o
credo com o coração, mas também de recitar com o coração o Pai Nosso».
O papa Francisco, falando aos superiores-gerais das
congregações religiosas, proferiu uma importante afirmação: «Estou convencido
de uma coisa: as grandes mudanças da história realizaram-se quando a realidade
foi vista não do centro, mas da periferia. É uma questão hermenêutica [de
interpretação]: só se compreende a realidade se ela é olhada da periferia, e não
se o nosso olhar é colocado num centro equidistante de tudo».
Como remate final para que não nos acuse e nos faça remoer a
consciência, temos que escutar: «É preciso ajudá-los a afastarem-se da
hipocrisia. Esta é uma peste: a hipocrisia na Igreja!», completou o Papa.
José Luís Rodrigues, padre

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