Como responderia Jesus hoje à família? - quarto tema do Encontro Nacional Fraternitas, Fátima 27 de abril

1. O Sínodo da Família, convocado pelo Papa Francisco em Roma teve início a 4 de outubro de 2015. Estiveram reunidos 270 padres sinodais (bispos e cardeais), eleitos por 110 conferências episcopais, chefes de Igrejas Orientais, 10 religiosos, peritos e 18 casais.

2. O tema foi «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo». Na Vigília de oração pelo Sínodo o papa fez afirmações contundentes: a Igreja Católica não pode permanecer no passado, nem ser uma simples organização. Na Igreja a autoridade é serviço e não dominação. A missão não é propaganda, o culto a prática dos cristãos não são evocação a uma moral de escravos.


Os 4 temas do Encontro Nacional da Fraternitas:




3. Esta mensagem vai direita contra o legalismo moralista que ainda domina a Igreja Católica, que a torna mais parecida com os «túmulos caiados» fariseus do que com a misericórdia de Jesus. Há muito clero na Igreja Católica que ainda continua a exercer escrupulosamente o papel de juiz e a enviar por tudo e por nada muitos fiéis para as penas do inferno. O amor incondicional de Deus não lhes diz nada. As leis canónicas são a luz da salvação contra a carga de amor que o Evangelho expressa para todas as situações da vida.

4. A vontade de condenar alimenta muita gente, que não se deixa seduzir pelo amor de Deus Pai que se reflete tão claro no regresso do Filho Pródigo. Então vejamos a inquietação do Papa Francisco: «Se tu és um sacerdote e não tens vontade de ser misericordioso, diz ao teu bispo para que te dê um trabalho administrativo, mas não vás ao confessionário, por favor!» Porque «um sacerdote que não é misericordioso faz tão mal no confessionário: maltrata as pessoas!». Talvez, alguém possa justificar-se dizendo: «Não, padre, eu sou misericordioso, mas sou um pouco nervoso...». Esta foi a resposta do Papa: «É verdade, antes de ires ao confessionário vai ao médico para que te dê um remédio contra os nervos! Mas sê misericordioso!»

5. Em outro âmbito, o Papa enfatizou na Vigília de oração que a Igreja Católica «abrace as situações de vulnerabilidade, que a põem à prova: a pobreza, a guerra, a doença, o luto, as relações feridas e desfeitas de que brotam contrariedades, ressentimentos e rupturas; lembre a estas famílias, como a todas as famílias, que o Evangelho permanece uma ‘boa notícia’ donde recomeçar».

6. Por isso, devemos crer e desejar que a mensagem deste Sínodo não seja alheia ou que ninguém na Igreja se desresponsabilize dos temas que permanecem tabus como a homossexualidade. Todas as religiões têm por vezes atitudes que diabolizam esta questão e muitas vezes as pessoas homossexuais são consideradas como seres estranhos ao amor e à misericórdia de Deus.

7. Outro grande desafio está relacionado com os divorciados e recasados que não podem ter acesso aos sacramentos. A meu ver bastava que a Igreja refletisse sobre a ignorância e indiferença que hoje existe em toda a Igreja quanto a este assunto… A multidão de divorciados e recasados engrossa todos os dias. Ao mesmo tempo não deixa de crescer a multidão que simplesmente ignora completamente aquilo que a Igreja Católica afirma e manda praticar neste âmbito.

8. A doutrina sobre a sexualidade também deveria merecer alguma reflexão e mudança profunda. As relações sexuais não podem continuar a ser consideradas exclusivamente para procriar. Os contraceptivos não podem continuar a ser liminarmente recusados sem que mereçam ser considerados um elemento para combater doenças, estarem ao serviço do aprofundamento da comunhão e partilha sexual entre os casais e que daí derive um leque de possibilidades maior para que, responsavelmente, cada casal faça o seu planeamento familiar de acordo com as suas condições humanas e materiais. São questões que devem ser debatidas agora e sempre na Igreja Católica, sem tabus, sem vergonha, já tinha dito S. Cirilo de Alexandria, «não devemos ter vergonha de falar daquilo que Deus não teve vergonha de criar».

9. Porém, volto a lembrar que a Assembleia Sinodal foi mais uma vez predominantemente constituída por homens sem experiência familiar. As decisões finais são do Papa, que pode aceitar ou não as votações ocorridas no Sínodo. Mas, ficamos surpreendidos com a falta de clareza na mensagem final do Papa Francisco (Exortação Amoris Laetitia), já que estávamos habituados com as suas atitudes, que se têm revelado como pastor que escancara as portas da Igreja à medida do coração enorme de Deus, que chama todos ao banquete do Seu amor: cegos, surdos, coxos, pecadores, prostitutas/prostitutos… Afinal, todos os órfãos da sociedade humana, que não lida bem com os fracos, porque os marginalizam e expulsam do convívio social. A receita mais fácil para que se tranquilize perante os seus estigmas.

10. Hoje são tantos os «órfãos sociais» à espera de uma mão que os acolha com misericórdia e amor. Um Sínodo sobre a família devia ser essa mão e que a Igreja Católica inteira devia seguir os passos do Papa Francisco quando confronta todos e cada um com a seguinte pergunta: como seriam as atitudes de Jesus hoje perante a realidade concreta dos nossos dias?

11. O «acompanhar, discernir e integrar a fragilidade», é o capítulo oitavo da Exortação sobre a Alegria do Amor, é muito delicado, representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral, mas não refere com clareza como deve ser o trato integrador pleno das situações consideradas irregulares. Embora o Papa use aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar». O Papa escreve: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral». Palavras interessantes, mas vagas e que parece vermos um Papa a caminhar sobre brasas.

12. O Papa afirma ainda que «os baptizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais». Francisco profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares». Enfim, caminho aberto para que se demonstre alguma mudança, sem que nada mude consistentemente. Não admira nada as disparidades de interpretações de presidentes de Conferências Episcopais, bispos e padres por esse mundo fora, algumas geraram acesas polémicas.

Segunda parte: A alegria do amor

Como já sabem este é o título, aliás, muito bonito, da Exortação Apostólica do Papa Francisco, que resulta do Sínodo sobre a família. As reações são o mais variado possível. Há posições totalmente a favor da mensagem do Papa, vindas de todos os quadrantes da Igreja Católica. Outras moderadas, nas quais me incluo, porque considero que a Exortação abre caminhos e portas para que a Igreja seja sempre de inclusão e não de exclusão, mas no seu todo é um texto monótono e fastidioso de se ler. Não sei como é que as famílias irão pegar nele…

Adiante. Há posições totalmente contra, uma grande parte da hierarquia, os ditos da ala conservadora, são intransigentes na defesa de uma doutrina fechada sobre a família, mesmo que parada no tempo e inadaptada às problemáticas da família hoje, que sofre mudanças todos os dias e que se apresenta tão distinta nos mais diversos contextos da vida deste mundo.

Mas, têm surgido posições muito críticas que me parecem interessantes. Ainda não tinha tido contacto com nenhuma posição de nenhuma mulher sobre este texto.

Aqui está uma entrevista curiosa e interessante (imperdível) de uma teóloga, Ivone Gebara, onde traça uma visão crítica sobre as várias nuances da Exortação do Papa Francisco sobre a família. Muito interessante a sua visão e coloca em ordem vários assuntos sobre a família, salientando que a grande novidade de facto radica precisamente nas portas que o documento parece entreabrir com a ideia de que é preciso agir «com misericórdia e caridade» com todas as situações que a família apresenta.

Temo que esta Exortação Apostólica seja mais um documento papal com o mesmo destino de tantos outros que vieram, venderam, geraram boas receitas, deram que falar, mas passado o efeito, estão nas prateleiras a colher pó.

Destaco umas frases que achei interessantes e desafiadoras de Ivone Gebara (freira católica, filósofa e teóloga feminista brasileira):

1. Questões como a pobreza, a falta de emprego, de condições de moradia e saúde, a violência familiar, a emigração massiva que tornam difícil a vida familiar são abordadas muitas vezes em meio a um aparato bíblico, teológico e citações de documentos eclesiásticos. Tal procedimento, longe de esclarecer, obscurece a problemática e não lhe dá o devido valor no contexto atual de nossa história. O texto cheio de citações que justificam posturas tradicionais da hierarquia católica não permite que os leitores tenham uma visão mais integral das questões e até de possíveis novidades abordadas no Sínodo.

2. Por isso é preciso que cada comunidade cristã escreva seus textos, suas diretivas, seus objetivos presentes... É preciso deslocar o magistério para o povo e permitir que escrevam suas cartas sobre e como suas vidas estão sendo vividas. O conhecimento universal ou universalizante apesar de sua importância nem sempre ajuda os pequenos grupos a crescerem por dentro e por fora. É certo que num mundo globalizado necessitamos de algumas análises globais, mas necessitamos, sobretudo, aprender desde o local, a fazer análises a partir de nossas próprias vivências, a criar a tradição de pensar nossa vida valorizando nossa história e nosso saber.

3. Essa plasticidade de imagens e símbolos reflete bem a efervescência e mistura da vida, essa mobilidade intensa da diversidade e da diferença que nos constitui. Por isso, somos convidados a amar o próximo, o caído na estrada, o malcheiroso, o diferente, e não só aquele ou aquela que pensa igual ou gosta das mesmas coisas. Talvez devêssemos tentar ser mais artistas, inventores de nós mesmos, poetas capazes de brincar com as palavras, de dividir pães, peixes e frutos na renovada dança de cada dia. Sair da rigidez do mesmo, das estruturas prefixadas dos documentos, das palavras de ordem e das teses magistrais... Sair dos conselhos em vista da perfeição desconhecida ou imaginada... Perceber que há mais bondade do que imaginamos e muita, muita beleza que não pode ser contida nos odres velhos de nossas teologias.

«Amoris Laetitia» (A Alegria do Amor)

“Além disso, muitas vezes apresentamos de tal maneira o matrimónio que o seu fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação”, escreve ele. “Outras vezes, apresentamos um ideal teológico do matrimónio demasiado abstracto, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”.

“Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas”, continua ele. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”.

José Luís Rodrigues, padre

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